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Eu e meu ego: psicólogo e ex-atleta olímpico

Eu e meu ego: psicólogo e ex-atleta olímpico
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Hoje sou psicólogo e estou, como bilhões de pessoas ao redor do mundo, vidrado nas emoções dos Jogos Olímpicos do Rio 2016. Ontem fui atleta profissional de Atletismo na modalidade Marcha Atlética. Minha trajetória inclui um recorde sul-americano, participação nas Olimpíadas de Seul (1988), desclassificação na Copa do Mundo de Marcha (1991), medalha de bronze nos Jogos Pan-Americanos de Havana (1991) e o fato de ter sido o último atleta a cruzar a linha de chegada na final das Olimpíadas de Barcelona (1992). Como a maratona, a marcha de 20 km é considerada uma das provas mais extenuantes dos jogos. Posso dizer uma coisa: a intensidade do atleta olímpico na construção de seu ego se equipara à de todos que abraçam a vida de verdade.

Eu, atleta. Eu, primeiro brasileiro a alcançar padrão internacional na modalidade. Eu, minhas vitórias e derrotas. Eu, meus objetivos e resultados. Eu e meus treinos. Eu e meus feitos, meus orgulhos, minhas frustrações. Eu e minha história. Esse ego escancarado é a pura personalidade do atleta. É o que lhe dá autenticidade, inocência, humildade e legitimidade. Recorrendo à psicologia analítica de Carl Jung, o ego do atleta profissional nos ensina muitas coisas. Ninguém nasce com um ego prontinho para sentir orgulho ou vergonha. O ego tem que ser construído. Cada artista é produto do seu pincel, e não de realizações dos antepassados ou de outras pessoas.

O ego do atleta está em construção por excelência, sempre ocupadíssimo consigo mesmo, em plena atividade na busca por mais e mais, sem limites. Quando a carreira termina, a construção segue como treinador, dirigente, comentarista, professor, psicólogo e até colaborador de blogues.  Ainda que disfarçado de sobrevivência, o ego segue em plena idade de crescimento e não deixa de se desenvolver. O ego é como a noite: uma criança! Atletas olímpicos vivem um importante período de crescimento do ego servindo à nação, orgulhando seus pais, mães e torcedores e quebrando recordes.

O que dizer então sobre a ansiedade, a pressão, as dificuldades, as expectativas e frustrações, o sucesso e o fracasso no momento olímpico? Afinal,  ele é decisivo para alguém que passou sua preciosa juventude se preparando para a perfeição. Como é que se sobrevive  a este meio fio de emoções tão distintas, diante de efeitos psicológicos tão extremos? Sob a ótica de Jung, a intensidade da vida do atleta olímpico seria nada mais que uma grande oportunidade, uma benção de obstáculos e desafios, uma fonte de transformação e aprendizado.

Individuação: o caminho para si mesmo do atleta

Jung chamava esse processo de  “individuação”,  o caminho do indivíduo em direção a si mesmo.  A construção do orgulho e esvaziamento de seu sentido. A jornada psicológica individual de cada um. Viver a própria vida com todos os riscos que lhe sejam próprios. Isto é, as facilidades e dificuldades de um rei e de um mendigo. Descoberta. Percorrer o caminho da inconsciência à consciência. Testar os limites físicos. Saltar mais alto, correr mais rápido e ser mais forte como no lema olímpico “Citius, Altius, Fortius”. Por à prova os limites psicológicos e afetivos que um caminho brando, cartorial ou “bancário” não possibilitaria – apesar de estar cada vez mais difícil sobreviver psicologicamente aos meios corporativos. 

Estamos aqui para aprender! Grandes desafios e emoções extremas não são privilégio de atletas olímpicos, mas de quem abraça a própria vida de verdade, seja em um amor para valer, em uma profissão ou em qualquer outro sentido. É a realidade de quem toma a vida nas próprias mãos com coragem para viver de verdade.  A vida não é de brincadeira, amigo”, dizia Vinícius de Moraes em “Samba da Benção”.

 

Marcelo Prahas, psicólogo parceiro da Vittude, atende crianças, adultos e adolescentes por meio da Terapia Primal e de técnicas de meditação. Marque já sua consulta!

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