covid-19 mata

Quando a Covid-19 mata e leva ao luto (ou ao medo dele)

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Este texto é para você que perdeu alguém para a calamidade. Sim, a Covid-19 mata, infelizmente! Este artigo também é para você que está angustiado de alguma maneira com a questão do luto.

Nele você vai descobrir o que é o luto, o que esperar dele, e como conversar com ele. Vamos lá!

Entendendo o luto

Para começar, você sabia que o luto não ocorre só quando se perde algo?! Prova disso é o fato de que, quando esse texto foi escrito estávamos em quarentena voluntária, e estamos lidando de uma certa forma com um luto, ou seja, uma perda, a perda da liberdade momentânea.

Com isso, definimos que o luto é o sofrimento por algo ou alguém perdido, e mais que isso, é a perda de uma perspectiva de vida, uma ideia, sonho e objetivo. Temos então que, quanto maior a carga de afetividade que existia com o falecido, mais difícil vai ser o luto, porém o Luto se faz no seu próprio tempo, não apresse-o.

Assim, o sofrimento do luto também é dito de como se deu esse fim, se foi por uma doença, acidente, assassinato, tudo isso traz um peso diferente para o enlutado.

Na nossa situação atual, onde o covid-19 mata pessoas em todos os cantos do mundo, as perdas vão ser sentidas como abandonos, distantes. Haverá um sentimento de impotência muito maior do que em outras situações, e diante disso é importante você saber o que te espera, para que assim você tenha armas para lutar quando necessário; por agora, assista sua angústia.

Covid-19 mata: o eco da morte em você

Olhar para a morte do outro também é um olhar da própria finitude. É comum sentirmos angústia diante da morte ou iminência dela. Para alguns é um fim definitivo, para outros é uma passagem para outra vida. Mas o fato é que, após a morte, perdemos este modo de viver.

Primeiramente vamos falar um pouco sobre o que é angústia.

A angústia, de um modo geral, diz respeito à incerteza da existência. Em outras palavras, ficamos angustiados diante da possibilidade de não sermos mais quem somos. Especificamente dentro do tema da morte, essa angústia se dá pela possibilidade de não sermos mais vivos. E o que fazer diante disso?

Contudo, nossa construção enquanto seres humanos se dá sempre nas relações interpessoais, em uma troca mútua e constante. Nesses momentos, se volte para as pessoas que você tem afeto e que te fazem bem.

Lembre-se de que você é importante para alguém, assim como você se importa com outras pessoas. O encontro, mesmo que por videoconferência, é um momento para relembrar quais os sentidos para a vida. Guarde as boas lembranças dos mortos e viva encontros com os vivos.

Logo abaixo você verá as fases do luto, porém é importante ficar claro que não existe uma ordem cronológica entre essas fase, pois varia para cada indivíduo, mas não podemos esquecer que o luto transforma, ou vamos para a frente ou para trás; o mais importante disso é: após essa situação você não será mais o mesmo.

Negação

Aqui você vai sentir o modo mais arcaico que temos de defesa, negar e não aceitar a perda, pensamentos como: ‘’isso é mentira’’; ‘’não pode ser’’; ‘’não é com ela’’; ‘’logo tudo volta ao normal’’.

Raiva

Aqui você vai sentir outra defesa automática, onde podem se apresentar pensamentos como ‘’que ódio disso tudo’’ e ‘’isso é injusto’’. Quanto mais violenta a morte, mais a raiva pode se manifestar.

Depressão

Na raiva a pessoa está mais expressiva, aqui acontece uma volta para si mesmo; a tristeza aqui é a mobilizadora na razão.

Barganha

Quando chegar aqui você pode querer negociar com a perda, salvar o que já não volta, reverter o irreversível, pensamentos de reparação, como se suas ações pudessem mudar o que aconteceu.

Aqui o cansaço está muito presente, pois há muito gasto de energia tentando reparar a falta, porém após a exaustão, você vai perceber que não há mais nada que possa fazer que vá mudar a realidade da perda.

Aceitação

Fato é que a perda sempre vai doer, porem aqui dói menos, e aos poucos a energia que estava sendo gasta no sofrimento vai sendo investida em outras coisas: trabalho, amor etc.

Ebook Quarentena

O luto da Covid-19: algum dia essa dor vai parar?

Tenha paciência com sua travessia, seja gentil com sua perda, participe, se possível, das cerimônias fúnebres.

Caso a sua perda tenha sido por conta da Covid-19, faça uma pequena cerimônia simbólica na sua residência, pegue fotos, faça uma carta para a pessoa que partiu, não poupe as crianças, chame elas para participar na medida em que elas apresentarem essa vontade, respeitando e sendo claro(a) com o acontecimento.

Lembre-se que a dor pela falta hoje é devida ao fato de ambos terem tido bons momentos juntos. E que bom, que feliz que vocês tiveram a oportunidade de compartilhar momentos. Que no momento de despedida sejam lembradas quais a vivências foram mais marcantes, quais as superações que vocês vivenciaram juntos(as).

Contudo, caso haja algum desejo pós morte do(a) falecido(a), procure respeitar e realizar. Especificamente nesse período teremos algumas restrições. Talvez, por exemplo, exista a vontade de ser enterrado em algum lugar específico.

Porém, devido às circunstâncias, isso não seja viável agora. Nesses casos, procure soluções viáveis para quando o tempo for oportuno.

Seguindo o exemplo dado, em caso de cremação, guarde as cinzas para, em momento oportuno, ao menos dispersá-las no local que foi querido pelo falecido. Voltando ao exemplo inicial, se o velório não foi possível, realize um momento em memória da pessoa querida.

A culpa não é sua

Relembrando, estamos diante de um momento atípico em todo o mundo, não é culpa sua as coisas não seguirem um fluxo totalmente desejado.

Ainda assim, no caso de haver crianças na família, não as afaste de participar desse momento. Embora algumas pessoas achem estranho e, com boa intenção, procurem poupar as crianças desse momento, a morte é uma condição humana. Dessa forma, crianças precisam entender que as pessoas se vão e não voltam mais.

É doloroso, mas é necessário para que a criança não fique alienada do que é a morte. Ao mesmo tempo pode ser uma experiência onde ela aprenda a lidar com a perda a partir do exemplo.

A ferida vai se fechar quando você perceber a herança que ganhou com ela, ou seja, o luto se encerra quando você se dá conta de que com a perda na verdade há mais ganhos, novas possibilidades de amar, novos círculos, novos encontros, nova vida.

Seguem abaixo algumas orientações práticas que podem te auxiliar no processo:

Rede de apoio

Sim, a covid-19 mata e pode deixar muita tristeza, mas para que passar por isso sozinho?! O homem se realiza em sociedade e se constrói nela, e sempre temos um lugar nela onde nos identificamos mais, e com isso, fica a pergunta: qual seu lugar nela?

Você participa de uma religião? Clube? Academia? Junte-se a eles na medida em que sua angústia permite, vá aos poucos com micro passos se integrando naquilo que um dia deu sentido para você, conte com seus amigos.

É provável que você já tenha passado por um luto antes, e sejamos sinceros, você se lembra do que falaram para você naquele momento? É provável que não, mas provavelmente lembra-se de quem estava ao seu lado, e somente lá – a presença não precisa de palavras ditas.

Manual Diário da Quarentena

Dê voz à sua angústia, instale-se na realidade

A princípio, se permita sentir a perda – por quê fugir do sofrimento? É preciso chorar essa dor, e é impossível escolher não sofrer; bloquear e negar essa dor é do princípio da infantilidade. Saiba assistir sua angústia; quando ela aparecer (e ela vai) chame ela para entrar e sirva um café.

Você consegue expressar a dor? A arte é um recurso riquíssimo para a elaboração da perda, por isso ache sua expressão. Você pinta? Desenha? Escreve? Tente, deixe vir a angústia na ponta dos dedos, procure ter um bom relacionamento com a dor. Pense com você hoje ‘’no que a sua realidade te convoca hoje?’’.

Olhe esse exemplo

Travessia
(Milton Nascimento)

Quando você foi embora fez-se noite em meu viver
Forte eu sou, mas não tem jeito
Hoje eu tenho que chorar
Minha casa não é minha e nem é meu este lugar
Estou só e não resisto, muito tenho pra falar
Solto a voz nas estradas, já não quero parar
Meu caminho é de pedra, como posso sonhar
Sonho feito de brisa, vento vem terminar
Vou fechar o meu pranto, vou querer me matar
Vou seguindo pela vida me esquecendo de você
Eu não quero mais a morte, tenho muito o que viver
Vou querer amar de novo e se não der não vou sofrer
Já não sonho, hoje faço com meu braço o meu viver.

Quando a morte lhe cai bem

Existem situações onde nos sentimos culpados por ficar aliviados com a morte de alguém; então achamos que somos desumanos e cruéis por isso. Se esse for o seu caso, propomos uma avaliação: que momentos você vivenciou com a pessoa morta?

Eventualmente ficamos preso à ideia popular de que todo mundo que morre acaba virando uma boa pessoa, deixando um legado positivo. No entanto, nossos sentimentos apontam para o que as pessoas representavam para nós.

Fato também é que, após você perceber a pessoa perdida de fato como ela era e não idealizada, aí sim você pode se encontrar com a saudade. Se a pessoa que se foi cometia algum abuso contra você, se ela não te respeitava, é esperado que você se sinta aliviado(a) com a partida. Mais uma vez, não se culpe.

O que mais fazer?

Vale ressaltar que este artigo trata de orientações generalistas a respeito de como lidar com a morte e o luto, em especial nesse período de pandemia. Se você sentir que essas orientações não são suficientes, recomendamos a procura de um psicólogo para acompanhamento de suas demandas particulares.

A saber, nesse período a Vittude está com uma campanha de sessões a baixo custo, para pessoas que estão precisando de atenção psicológica, mas estão com restrições financeiras decorrentes ou não da pandemia. Clique aqui e saiba mais sobre a campanha.

“Ser mortal é ser limitado o tempo todo, é não poder ser tudo.” (Pompéia Sapienza)

Este artigo foi produzido pelos Psicólogos Laíse Alcantara Argozo Separovich e Thales Nobre Quaresma Araújo. Clique nos nomes e saiba mais sobre eles! Se achar importante, agende uma consulta.

Tatiana Pimenta

CEO e Fundadora da Vittude. É apaixonada por psicologia e comportamento humano, sendo grande estudiosa de temas como Psicologia Positiva e os impactos da felicidade na saúde física e mental. Cursou The Science of Happiness pela University of California, Berkeley. É maratonista e praticante de Mindfulness. Encontrou na corrida de rua e na meditação fontes de disciplina, foco, felicidade e produtividade. Você também pode me seguir no Instagram @tatianaacpimenta