A figura materna no desenvolvimento infantil

O desenvolvimento infantil é um processo pelo qual todas as crianças passam, englobando aspectos físicos, emocionais, sociais e cognitivos. Neste artigo trabalhamos os aspectos emocionais e sociais da figura materna no desenvolvimento infantil.

A base para um bom desenvolvimento é o vínculo afetivo com a mãe, o pai, os familiares e demais cuidadores, pois quando há um ambiente acolhedor, a criança tem a oportunidade de crescer saudavelmente, desenvolvendo suas habilidades ao máximo.

Para a psicanálise a função materna é essencial para o desenvolvimento do psiquismo da criança, essa função (materna) não necessariamente precisa ser exercida pela mãe, mas por qualquer pessoa que faça a função de cuidador, e estabeleça um vínculo com a criança.

Figura materna no desenvolvimento infantil – Justificativas

Justifica-se o estudo desse tema, da figura materna no desenvolvimento infantil, por sua relevância social, considerando que o vínculo materno, ou a falta dele, podem afetar o desenvolvimento de um individuo, podendo acarretar até mesmo em patologias.

Entenderemos, ao longo do artigo, cada parte do destaque da figura materna no desenvolvimento infantil. O tema é de extrema importância, pois através desse estudo conseguiremos compreender como o processo de desenvolvimento da criança pode afetar um indivíduo, quando adulto.

A discussão desse tema coloca em questão o desenvolvimento das crianças que crescem com a ausência de uma figura materna, as crianças institucionalizadas, por exemplo. Como se dá o desenvolvimento dessas crianças, e como isso poderia afetar sua personalidade, e suas escolhas como indivíduo.

Figura materna no desenvolvimento infantil – Objetivos

Este trabalho tem como objetivo geral compreender a importância do vínculo materno para o desenvolvimento infantil.

E para a compreensão desse objetivo, discutiremos sobre o desenvolvimento infantil, entenderemos a importância do vínculo materno nesse processo e por fim estudaremos os danos da ausência do vinculo materno no processo de desenvolvimento.

Para o desenvolvimento deste artigo foi feita uma revisão de literatura, deste modo a pesquisa será realizada com base em artigos, livros e trabalhos acadêmicos, referente ao tema “vínculo materno e o desenvolvimento infantil”, ou seja, com foco da figura materna no desenvolvimento infantil.

Figura materna no desenvolvimento infantil – Autores de referência

Utilizando como principais autores: Freud, Winnicott, e Bowlby. Os critérios dos textos relacionados referem-se à abordagem de pesquisa qualitativa e descritiva.

O desenvolvimento infantil segundo a Psicologia

As fases de desenvolvimento psicossexual, segundo Freud

Freud (2010) dividiu o desenvolvimento infantil em cinco fases, no qual denominou de fases do desenvolvimento psicossexual. Sua ideia era analisar o desenvolvimento da personalidade, utilizando como referência a libido.

Desse modo, ele acreditava que se essas etapas fossem concluídas com êxito, o resultado seria uma personalidade saudável, caso contrário, o individuo poderia ficar “preso” em uma fase até que essa questão fosse resolvida, atrapalhando seu desenvolvimento.

Desenvolvimento psicossexual – 1ª fase

A primeira fase é chamada de estágio oral (0 – 1 ano): nesse estágio o bebê obtém prazer pela boca através da amamentação, e é totalmente dependente de seus cuidadores. É quando desenvolve um sentimento de confiança e conforto através da estimulação oral.

O conflito principal nessa fase é o processo de desmame, onde a criança deve se tornar menos dependente de seus cuidadores.

Porém, se ocorrer à fixação (conflito não resolvido ou desligamento emocional causada por excessos ou por frustração) nessa fase, o indivíduo teria problemas quando adulto, com dependência ou agressividade.

Desenvolvimento psicossexual – 2ª fase

A segunda é a fase anal (1 – 3 anos): onde o foco principal da libido está no controle da bexiga e evacuações. Nessa fase, o conflito principal é o processo de aprendizagem quanto ao controle de suas necessidades corporais. E então, desenvolver esse controle leva um sentimento de realização e independência.

Freud (2010) acreditava que experiências positivas nessa fase servem de base para que pessoas tornem-se adultos competentes, produtivos e criativos.

Porém se as experiências fossem negativas, poderia desenvolver uma personalidade anal-expulsiva, em que o individuo tem uma personalidade confusa ou destrutiva; ou desenvolver uma personalidade anal-retentiva, na qual o individuo é rigoroso, ordenado, rígido e obsessivo.

Desenvolvimento psicossexual – 3ª fase

Depois vem a fase fálica (3-6 anos): durante essa fase, o foco principal da libido é sobre os órgãos genitais. Nessa idade, as crianças também começam a descobrir as diferenças entre meninos e meninas.

Freud (2010) também acreditava que os meninos começam a ver seus pais como rivais pelo afeto da mãe. O complexo de Édipo descreve esses sentimentos de querer possuir a mãe e o desejo de substituir o pai. Contudo, tudo isso ocorre de forma inconsciente.

No entanto, a criança também teme ser punida pelo pai por estes sentimentos, um medo que Freud (2010) denominou de angústia de castração. Freud (2010), no entanto, acredita que as meninas, em vez disso experimentam inveja do pênis (o poder).

Desenvolvimento psicossexual – 4ª fase

No período de latência (6 – 11 anos): os interesses da libido são suprimidos. O estágio começa na época em que as crianças entram na escola e tornam-se mais preocupadas com as relações entre colegas, hobbies e outros interesses.

O período de latência é um tempo de exploração em que a energia sexual ainda está presente, mas é direcionada para outras áreas, como atividades intelectuais e interações sociais. Esta etapa é importante para o desenvolvimento de habilidades sociais e de comunicação e autoconfiança.

O desenvolvimento do ego e do superego contribuem para este período de calma.

Elementos da personalidade

Segundo a teoria da personalidade de Freud (2010), o desenvolvimento da personalidade é composto por três elementos, esses elementos são: ID, EGO e SUPEREGO que trabalham juntos para criar comportamentos humanos complexos.

  • Elementos da personalidade: ID
    O ID está presente desde o nascimento, e é impulsionado pelo principio do prazer. Ele se esforça para a gratificação imediata de todos os desejos, vontades e necessidades.
  • Elementos da personalidade: EGO
    O EGO é desenvolvido a partir do ID, e é o componente da personalidade responsável por lidar com a realidade. Ele se esforça para satisfazer os princípios do ID, porém de forma realista e socialmente adequada.
  • Elementos da personalidade: SUPEREGO
    Já o SUPEREGO, o último componente da personalidade a se desenvolver, mantém todos os nossos padrões morais internalizados, e os ideais que adquirimos da sociedade. Ele fornece-nos diretrizes para fazer julgamentos do que é certo e errado.  

Desenvolvimento psicossexual – 5ª fase

E o último é estágio genital (11 – 18 anos): durante a fase final de desenvolvimento psicossexual, o indivíduo desenvolve um forte interesse sexual no outro. Esta fase começa durante a puberdade, porém passa por todo o resto da vida de uma pessoa.

Em fases anteriores, o foco foi exclusivamente nas necessidades individuais, porém o interesse pelo bem-estar dos outros cresce durante esta fase. Se as outras etapas foram concluídas com êxito, o indivíduo deve agora ser bem equilibrado, terno e carinhoso.

O objetivo desta etapa é estabelecer um equilíbrio entre as diversas áreas da vida (FREUD, 2010).

Os estágios do amadurecimento para Winnicotti

Já para Winnicott (2006), o desenvolvimento se dá através do processo de amadurecimento, que acontece nos seguintes estágios: dependência absoluta, dependência relativa, e independência. Esses estágios não se dão de forma linear, podendo haver regressões.

Processo de amadurecimento – 1º estágio: Dependência absoluta

O primeiro estágio (0 – 6 meses) é chamado de dependência absoluta, pois o bebê depende totalmente de cuidados externos geralmente dados pela mãe. No entanto, o bebê desconhece esse estado de dependência, pois entende que ele e o meio são uma coisa só.

Para o atendimento das necessidades desse bebê, a mãe age através de três funções maternas:

Funções maternas

Apresentação do objeto (quando a mãe lhe oferece o seio no momento que ele está com fome, o bebê tem a ilusão que criou aquele objeto para satisfazer seus desejos, e à medida que a mãe vai sempre estando disponível essa ilusão vai sendo reforçada, e ao mesmo tempo, protegendo-o de fontes de angústias que seriam insuportáveis).

O Holding (é uma função de sustentação, a integração do bebê com tempo e espaço, quando a mãe estabelece uma rotina repetitiva de cuidados, que vão sustentar não somente corporal, mas psiquicamente a criança).

E o Handling (Trata-se da função de “manipulação” do bebê enquanto ele é cuidado. É uma função que harmoniza a vida psíquica com o corpo, e que Winnicott chama de “personalização”).

Nesse primeiro estágio, a mãe que realiza bem essas três funções é chamada de mãe suficientemente boa, ou seja, representa um “ambiente bom”, onde o bebê pode conviver sem prejuízos psíquicos.

Isso permite que a criança coloque em prática sua tendência inata ao desenvolvimento, fazendo emergir o verdadeiro self.

Para Winnicott (2006) existem dois tipos de self, um verdadeiro e um falso. O verdadeiro é a pessoa que é eu e apenas eu, a pessoa que se constrói a partir do emprego de suas tendências inatas. A respeito do falso self vemos que ele é a principal reação do bebê às falhas de adaptação da mãe.

O bebê renuncia à esperança de ver suas necessidades satisfeitas e vai adaptando-se aos cuidados que não lhe convêm. É aí que ele passa a adotar um modo de ser falso e artificial.

Processo de amadurecimento – 2º estágio: Dependência relativa

No estágio de dependência relativa (6 meses – 2 anos) a criança já consegue entender que ela e a mãe são seres separados.

Assim, a mãe se desliga um pouco do estado intenso de identificação e retoma outras coisas de sua vida, fazendo assim surgir as “falhas de adaptação moderadas”, quando a criança vive sem prejuízo para sua evolução psíquica.

Mas isso não significa que a mãe esteja dispensada. A criança, por exemplo, pensa estar relacionando-se com duas mães. Uma é a mãe dos momentos calmos, e a outra é a dos momentos de excitação, quando a agressividade está presente (principalmente nas refeições).

O bebê pode imaginar que a satisfação de sua fome acarreta a deterioração do corpo da mãe. Isso agora lhe preocupa, pois ele reconhece que depende da mãe. Por isso, e para evitar este sentimento, é importante que ele perceba que se trata da mesma pessoa.

É um processo de integração das duas figuras maternas. Para isso, é fundamental a presença da mãe suficientemente boa

Então, é nesta fase, por volta do segundo semestre de vida, que, depois de ter passado por uma fase de ilusão de onipotência, onde cria os objetos de suas necessidades, a criança vai descobrindo que ela e sua mãe são separadas e que ela depende da mãe para suas necessidades (WINNICOTT, 2006).

Processo de amadurecimento – 1º estágio: Independência

E por ultimo o estágio de independência (2 anos em diante), conhecido como rumo à independência, pois é um processo que vai sendo construído ao longo do desenvolvimento. É nele que o mundo do bebê, que inicialmente era sua mãe, aos poucos vai se expandindo.

Porém, Winnicott (2006) acreditava que mesmo sendo uma pessoa adulta, e sabendo cuidar de si próprio, não significava que o indivíduo havia alcançado sua maturidade emocional. Então a conquista pela independência seria um processo contínuo.

A teoria psicossocial do desenvolvimento, segundo Erikson

Erikson (2000) propõe uma concepção de desenvolvimento em oito estágios psicossociais, perspectivados por sua vez em oito idades.

Elas decorrem desde o nascimento até a morte, pertencendo as quatro primeiras ao período de bebê e de infância, e as três últimas aos anos adultos e à velhice. Assim, cada estágio é atravessado por uma crise psicossocial entre uma vertente positiva e uma negativa.

Erikson perspectivava o desenvolvimento tendo em conta aspectos de cunho biológico, individual e social. A teoria psicossocial em análise enfatizava o conceito de identidade, a qual se forma no 5º estágio.

E o de crise, que sem possuir um sentido dramático está presente em todas as idades, sendo a forma como é resolvida determinante para resolver os conflitos na vida futura. 

Confiança x Desconfiança (até um ano de idade)

Durante o primeiro ano de vida a criança é substancialmente dependente das pessoas que cuidam dela, requerendo cuidado quanto à alimentação, higiene, locomoção, aprendizado de palavras e seus significados, bem como estimulação para perceber que existe um mundo em movimento ao seu redor.

O amadurecimento ocorrerá de forma equilibrada se a criança sentir que tem segurança e afeto, adquirindo confiança nas pessoas e no mundo. 

Autonomia x Vergonha e Dúvida (segundo e terceiro ano)

Neste período a criança passa a ter controle de suas necessidades fisiológicas e responder por sua higiene pessoal, o que dá a ela grande autonomia, confiança e liberdade para tentar novas coisas sem medo de errar.

Se, no entanto, for criticada ou ridicularizada desenvolverá vergonha e dúvida quanto a sua capacidade de ser autônoma, provocando uma volta ao estágio anterior, ou seja, a dependência. 

Iniciativa x Culpa (quarto e quinto ano)

Durante este período a criança passa a perceber as diferenças sexuais, os papéis desempenhados por mulheres e homens na sua cultura (conflito edipiano para Freud), entendendo de forma diferente o mundo que a cerca.

Se a sua curiosidade “sexual” e intelectual, natural, for reprimida e castigada poderá desenvolver sentimento de culpa e diminuir sua iniciativa de explorar novas situações ou de buscar novos conhecimentos.

Construtividade x Inferioridade (dos 6 aos 11 anos)

Neste período a criança está sendo alfabetizada e frequentando a escola, o que propicia o convívio com pessoas que não são seus familiares. Isso exigirá maior sociabilização, trabalho em conjunto, cooperatividade, e outras habilidades necessárias.

Caso tenha dificuldades, o próprio grupo irá criticá-la, passando a viver a inferioridade em vez da construtividade. 

Identidade x Confusão de Papéis (dos 12 aos 18 anos)

O quinto estágio ganha contornos diferentes devido à crise psicossocial que nele acontece, ou seja, Identidade Versus Confusão. Neste contexto o termo crise não possui uma acepção dramática, por tratar-se de algo pontual e localizado, com polos positivos e negativos.

Intimidade x Isolamento (jovem adulto)

Nesse momento o interesse, além de profissional, gravita em torno da construção de relações profundas e duradouras, podendo vivenciar momentos de grande intimidade e entrega afetiva. Caso ocorra uma decepção, a tendência será o isolamento temporário ou duradouro. 

Produtividade x Estagnação (meia idade)

Pode aparecer uma dedicação à sociedade à sua volta e realização de valiosas contribuições, ou grande preocupação com o conforto físico e material. 

Integridade x Desesperança (velhice)

Quando o envelhecimento ocorre com sentimento de produtividade e valorização do que foi vivido, sem arrependimentos e lamentações sobre oportunidades perdidas ou erros cometidos, haverá integridade e ganhos. Do contrário, um sentimento de tempo perdido e a impossibilidade de começar de novo trarão tristeza e desesperança.

Portanto, o desenvolvimento infantil nada mais é do que o progresso que o bebê vai adquirindo em cada fase de sua vida enquanto criança. Nos primeiros meses e anos de vida, é onde a criança descobre o mundo externo, e ao mesmo tempo se descobre enquanto indivíduo.

Nessa fase testam a todo o momento seus limites, ao aprender a controlar seus próprios movimentos, ao aprender a andar, a falar, entre outras descobertas.

Essas experiências são aprendidas, e sem dúvidas seu maior exemplo é sua mãe, por isso a importância da figura materna no desenvolvimento infantil. Assim começamos a entender porque o vínculo materno é tão importante para o desenvolvimento de um bebê.

O vínculo materno no desenvolvimento infantil

A importância do vínculo materno desde o nascimento

Agora que já entendemos como se dá o desenvolvimento, veremos qual o impacto da figura materna no desenvolvimento infantil.

A formação do vínculo materno não é automática e imediata, pelo contrário, é gradativa e, portanto, necessita de tempo, compreensão e amor para que possa existir e funcionar adequadamente.

Estudos revelam que a construção desse laço afetivo na gestação é fundamental. Isso é estabelecido pela mãe, na maioria das vezes, através do contato com o feto que pode ser constituído por meio da fala, do toque na barriga e do afeto.

É através dessa relação afetiva que a mulher conseguirá vivenciar a gravidez de maneira saudável e ter uma maior integração com o seu bebê, visto que esse contato favorece a formação de vínculos afetivos futuros, e a organização e maturação da identidade da criança.

Método Mãe Canguru

O Método Mãe Canguru, por exemplo, é muito mais do que a posição vertical em que o bebê prematuro permanece “amarrado” ao corpo da mãe.

Trata-se de um tipo de humanização e assistência neonatal que implica no contato precoce pele a pele entre mãe e o bebê prematuro, pelo tempo que quiserem.

Esse tipo de humanização oferece ao bebê uma vivência da passagem da vida uterina para a extra-uterina, aumentando muito o vínculo entre pais e bebê. E esse vínculo deixa o bebê mais seguro, proporcionando mais confiança aos pais no manuseio do seu filho.

Esse método aproxima os pais do bebê, e é uma relação importante para o desenvolvimento completo do bebê que veio antes do previsto ao mundo.

Na posição Canguru, o bebê tem menos refluxo e as vias aéreas são mantidas livres, o que evita o sufocamento da criança e há diminuição do risco de apneia (parada da respiração durante o sono).

O contato com o corpo da mãe promove a manutenção dos níveis adequados de temperatura corpórea do bebê. O desenvolvimento neurológico da criança é melhor, ainda mais pelo fortalecimento dos laços afetivos entre mãe e bebê. Mais um exemplo da importância da figura materna no desenvolvimento infantil.

O desenvolvimento psíquico, segundo Winnicott

Para Winnicott as experiências iniciais são estruturantes do psiquismo, participam da organização da personalidade e dos sintomas. O bebê nasce em um estado de não integração. Ou seja, os núcleos do ego estão dispersos e, para o bebê, estes núcleos estão incluídos em uma unidade que ele forma com o meio ambiente.

A meta desta etapa é a integração dos núcleos do ego e a personalização – adquirir a sensação de que o corpo aloja o verdadeiro self. O objeto unificador do ego inicial não integrado da criança é a mãe e sua atenção (holding).

Uma questão primordial

Na etapa inicial de desenvolvimento, a questão primordial é a presença de uma mãe-ambiente confiável. Ela precisa se adaptar às suas necessidades de maneira virtualmente perfeita.

Winnicott inclui entre as “necessidades do ego” tanto os cuidados físicos quanto os psíquicos. Nem a realização mecânica das tarefas físicas ligadas ao lidar com o bebê, e nem a resposta imediata às suas demandas pulsionais implicam a satisfação das necessidades do ego.

A integração é obtida a partir de duas séries de experiências: por um lado tem especial importância a sustentação exercida pela mãe, que “recolhe os pedacinhos do ego”.

Isso permite que a criança se sinta integrada dentro dela; por outro lado há um tipo de experiência que tende a reunir a personalidade em um todo, a partir de dentro (a atividade mental do bebê).

A partir daí, chega um período em que a criança, graças às experiências citadas, consegue reunir os núcleos do seu ego, adquirindo a noção de que ela é diferente do mundo que a rodeia.

Esse momento de diferenciação entre “eu” e “não-eu” pode ser perigoso para o bebê, pois o exterior pode ser sentido como perseguidor e ameaçador. Essas ameaças são neutralizadas, dentro do desenvolvimento sadio, pela existência do cuidado amoroso por parte da mãe.

O vínculo materno, segundo a Psicologia

Bowlby (1907-1990) psiquiatra e psicanalista interessado no desenvolvimento infantil, passou a estudá-lo, e desenvolveu a “teoria do apego”.

Na teoria, esse vínculo mãe-bebê anteriormente mencionado, seria tão importante para o desenvolvimento humano quanto qualquer outra necessidade puramente fisiológica (CARVALHO, POLITANO e FRANCO, 2008, pág. 235).

Bowlby afirmou que a maternidade é quase inútil se for atrasada até depois dos dois anos e meio ou três anos de idade.

E mais, para a maioria das crianças, há um período crítico caso a maternidade seja atrasada até depois de 12 meses. Se o apego é rompido ou interrompido durante o período crítico da idade, a criança sofrerá consequências dessa privação materna irreversíveis em longo prazo. 

Um risco que não vale a pena ser corrido

Este risco continua até a idade dos cinco anos. As consequências da privação materna em longo prazo podem incluir delinquência, inteligência reduzida, aumento da agressão, depressão e psicopatia sem afeto.

A psicopatia sem afeto é a incapacidade de demonstrar afeto ou preocupação pelos demais. Estes indivíduos agem por impulso com pouca consideração pelas consequências de seus atos. Por exemplo, sem demonstrar culpa pelo comportamento anti-social.

Winnicott discute a relação mãe e bebê, no processo de amamentação, como sendo fator de grande importância para o desenvolvimento do afeto através desse primeiro cuidado.

Isso sendo um elemento de segurança, aconchego e tranquilidade para o bebê. Podemos salientar que quando esse processo não é natural e envolto de sentimento, essa criança sentirá a mecanização e a frieza, logo, o processo não se dará adequadamente.

“Todo o processo físico funciona precisamente porque a relação emocional se está desenvolvendo naturalmente” (Winnicott, 2008, pág. 33).

Um vínculo realmente necessário

Winnicott (2006) diz que a capacidade das mães em dedicar a seus filhos toda a atenção de que precisam, atendendo suas necessidades de alimentaçãohigiene, acalento ou no simples contato sem atividades, cria condições para a manifestação do sentimento de unidade entre duas pessoas.

Ou seja, com a figura materna no desenvolvimento infantil, a partir da relação saudável que ocorre entre a mãe e o bebê, emergem os fundamentos da constituição da pessoa e do desenvolvimento emocional-afetivo da criança.

Segundo a teoria do apego de Bowlby (2006), a criança se vincula instintivamente a quem cuide dela, com a finalidade de sobreviver, dependendo disso seu desenvolvimento físico, social e emocional.

Os bebês apegam-se a adultos que são sensíveis e receptivos às relações sociais com eles, e que permanecem como cuidadores compatíveis por alguns meses durante o período de cerca de seis meses a dois anos de idade.

Quando um bebê começa a engatinhar e a andar, ele começa a usar as figuras de apego (pessoas conhecidas) como uma base segura para explorar mais e voltar de novo a eles.

A reação dos pais leva ao desenvolvimento de padrões de apego; estes, por sua vez, levam aos modelos internos de funcionamento, que irão guiar as percepções individuais, emoções, pensamentos e expectativas em relacionamentos posteriores (Bowlby, 2006).

A figura materna não é exclusiva

A consideração final é que a teoria do apego de John Bowlby não defende a exclusividade da mãe na criação

No entanto, ela fala que é essencial que exista uma figura primária que ofereça o cuidado e as atenções necessárias na primeira etapa da vida, favorecendo a criação de um vínculo que ajudará o bebê a se desenvolver de forma plena.

Sendo assim, fica claro que a mãe (ou cuidador representante) é uma das mais importantes provedoras do ambiente e das circunstâncias satisfatórias para que ocorra o desenvolvimento saudável da criança.

Neste contexto, ambiente e circunstâncias satisfatórias devem ser entendidos como a facilitação da existência de uma adaptação às necessidades básicas do filho (Winnicott, 2006).

Podemos observar que grande parte do desenvolvimento da saúde mental da criança está inteiramente ligada à figura materna. Conforme a criança for crescendo suas necessidades de interação se ampliam, tendo como base para seu processo o contato com outras pessoas, principalmente com o pai.

A importância do ambiente familiar

O ambiente familiar deve ser um ambiente tranquilo, harmonioso e agradável. É onde os pais vão proporcionar a criança condições para que desenvolvam suas potencialidades inatas de forma sadia e natural.

Bowlby salientou que para que a criança tenha saúde mental é preciso essencialmente que ela vivencie uma relação calorosa e íntima com sua mãe, relação essa que deverá trazer satisfação e prazer para ambos (Bowlby, 2002).

Vimos nesse capitulo que a figura materna no desenvolvimento infantil é de extrema importância, podendo suas consequências interferir na vida adulta de um sujeito.

A seguir veremos como se dá o desenvolvimento de crianças que crescem com a ausência da figura materna.

As consequências da ausência da figura materna no desenvolvimento infantil

A privação do vínculo materno

Considera-se importante destacar que o vínculo mãe-filho é estabelecido entre o filho e a pessoa que exerce o papel da maternagem, podendo ser a mãe ou, na ausência desta, qualquer outro cuidador.

Segundo as diretrizes do ECA (Estatuto da criança e do adolescente) (2006), os acolhimentos institucionais devem assumir caráter residencial, oferecendo atendimento personalizado, em pequenas unidades e grupos reduzidos.

Também deveriam disponibilizar um ambiente acolhedor, satisfatório e propício ao desenvolvimento da autonomia e da identidade. Assim, a instituição pode ser caracterizada como um contexto de desenvolvimento, proporcionando o provimento material e um ambiente seguro e afetivo.

A falta de apego

Para Winnicott a ausência materna e a falta de apego geram na criança uma necessidade da busca de um objeto transitório. Essa criança pode apresentar comportamentos desajustados, como; roubo, insônia; apresentam comportamentos de regressão, tendência anti-social, carência e até uma propensão a delinquência.

Com o vínculo afetivo mal estabelecido o processo de holding fica prejudicado, processo esse que representa a capacidade da mãe de identificar-se com seu bebê, manipulá-lo, protegê-lo e segurá-lo; demonstrando sua forma de amor (Winnicott, 2008).

Para que os bebês se convertam, finalmente, em adultos saudáveis, em indivíduos independentes, mas socialmente preocupados, dependem totalmente de que lhes seja dado um bom principio, o qual está segurado, na natureza, pela existência de um vínculo entre a mãe e o seu bebê: amor é o nome desse vínculo. (Winnicott, 2008)

Para Bowlby os cuidados que a criança recebe nos primeiros anos de vida têm grande importância para a saúde mental futura, e é essencial que essa criança tenha a vivência de uma relação amorosa, íntima e contínua com a mãe; se a criança não encontra esse tipo de relação ela vivencia a “privação parcial”.

Quando a mãe convive na mesma casa que a criança e não proporciona os cuidados que a criança precisa, da mesma forma ela vivenciará a privação; se por qualquer outro motivo essa criança tenha sido afastada dos cuidados de sua mãe (Bowlby, 2015).

Formação de vínculos

A formação dos vínculos é eminentemente necessária para o desenvolvimento global da criança. Nesse sentido, o distanciamento, a omissão e a negligência de um cuidador nesse processo dificultam a garantia de um ambiente equilibrado, comprometendo a saúde física e mental dos indivíduos.

Segundo Winnicott (2006) é por meio do envolvimento emocional dessa relação de proximidade, que a criança sente a segurança do ambiente externo que lhe é apresentado pela figura materna.

As interações estabelecidas entre a criança e a mãe desempenharão um papel indispensável no desenvolvimento evolutivo da personalidade das crianças e dos adolescentes.

Criação de uma base pessoal segura

Essa vinculação afetiva permitirá o acesso a uma base pessoal segura que proporcionará uma organização saudável do repertório comportamental desses indivíduos frente às situações da vida (Bowlby, 2015).

De acordo com Bowlby (2015) “entende-se que as experiências associadas ao processo de apego ou vinculação oferecem uma contribuição significativa ao entendimento e a formação dos quadros de vulnerabilidade psicológica”.

Estudos realizados acerca da origem dos comportamentos infracionais permitem entender que existem múltiplos fatores que podem culminar na conduta anti-social.

Porém, um dos fatores mais significativos consiste nas interações familiares, principalmente no que concerne a privação materna, vivenciada como um “abandono”.

As consequências da privação do vínculo materno

Segundo Bowlby (2015), o termo “privação da mãe” pode ser aplicado a vários grupos de condições diferentes, que podem ter conseqüências semelhantes.

Se a criança vive com sua mãe natural ou uma mãe substituta permanente, mas os cuidados que ela recebe e a interação que mantém com ela,é insuficiente, neste caso, a privação consiste na insuficiência de interação entre mãe e filho.

Quando ocorre uma separação da criança de sua mãe, não implica necessariamente em privação de cuidados maternos e insuficiência de interação, desde que seja proporcionada à criança separada outra mãe permanente.

Separação entre mãe e filho

Contudo, uma separação entre mãe-filho é sempre uma experiência perturbadora para a criança, principalmente se esta mantinha uma ligação afetiva suficiente e não a encontra da mesma maneira, posteriormente com a substituta ou se fica sendo cuidada por várias outras pessoas de tempo em tempo.

Desta forma, a descontinuidade na relação mãe-filho, traz efeitos prejudiciais no desenvolvimento infantil.

Outro conjunto de condições que emprega o termo “privação da mãe” refere-se ao tipo de relação entre o par que acontece de maneira prejudicial, ou seja, de maneira distorcida, como: rejeição, hostilidade, crueldade, falta de afeto, repressão e controle excessivo.

A insuficiência, a descontinuidade e distorção da relação mãe e filho, são três definições utilizadas para ajudar a distinguir e compreender as condições de privação materna que levam a efeitos prejudiciais variados.

Tais efeitos prejudiciais não variam quanto à natureza, mas quanto ao grau em que foram sentidos, incluindo a idade da criança na época da privação.

Para a criança que sofre privação por uma relação insuficiente ou que passou pela descontinuidade e já recebe, no momento atual, cuidados de uma mãe substituta (estranha).

Privação parcial e total

Configuram-se caso casos de privação parcial, pois são situações em que a não dispõe de uma única pessoa que cuide dela de forma pessoal, são exemplos de instituições e creches de período integral.

No caso da privação total, a criança ficou totalmente privada de afeto e cuidados, sendo abandonada emocionalmente.

A privação parcial causa angústia, exagerada necessidade de amor, fortes sentimentos de vingança e, como consequência, culpa e depressão.

A privação total traz efeitos mais negativos ao desenvolvimento emocional, que já se tornou prejudicado desde as primeiras semanas de vida.

Bowlby (2015) destacou que no fim dos anos trinta diversos pesquisadores distintos haviam estudado crianças que cometeram diversos crimes.

Eles se surpreenderam com a constância dos fatos e a relação de que essas crianças não demonstravam sentimento pelos outros.

Elas apresentavam resistência para se relacionarem, e a característica que chamou atenção foi o fato de que essas crianças tiveram no início de sua infância um relacionamento conturbado com suas mães.

Resultados aparentes

Ou seja, comportamentos desajustados, como roubo, violência, má conduta sexual e egoísmos, são apenas algumas das características apresentadas no comportamento dos mesmos.

Foi identificado que rupturas prolongadas na relação entre mãe e filho durante os três primeiros anos da criança causam danos na estrutura emocional da criança, e a característica de sua personalidade é prejudicada.

Então, percebeu-se que as consequências dessa privação causaram uma prevalência em relação a como essa criança lidaria com o mundo, e com o relacionamento com o outro.

Essas crianças estudadas tenderam a dificuldade de estabelecimento de laços afetivos, sociabilidade superficial, ausência de sentimentos, e a grande possibilidade a delinquência (Bowlby, 2015).

E a conclusão do seu polêmico estudo foi que, mesmo em péssimas condições, era melhor que essa criança permanecesse com sua família, do que em uma instituição.

Desse modo, não haveria carência de nenhum tipo de cuidado direto ou identificação, porém apesar das provas serem evidentes, não é algo conclusivo de ser determinado, pois tudo depende, segundo Bowlby, da qualidade relativa do lar e da instituição.

A figura materna no desenvolvimento infantil – Finalizando

O desenvolvimento infantil é um processo pelo qual todas as crianças passam, englobando aspectos físicos, emocionais, sociais e cognitivos. Portanto, nada mais é do que o progresso que o bebê vai adquirindo em cada fase de sua vida enquanto criança.

Inicialmente, nos primeiros meses e anos de vida, a criança descobre o mundo externo, e ao mesmo tempo se descobre enquanto indivíduo. Nessa fase testa a todo o momento seus limites, ao aprender a controlar seus próprios movimentos, aprender a andar, a falar, entre outras descobertas.

Essas experiências são aprendidas, e sem dúvidas seu maior exemplo é sua mãe. Considerando esse fato, compreendemos porque o vínculo materno é tão importante para o desenvolvimento infantil.

A partir da relação saudável que ocorre entre a mãe e o bebê, emergem os fundamentos da constituição da pessoa e do desenvolvimento emocional-afetivo da criança.

Portanto, o vínculo materno é extremamente importante para o desenvolvimento infantil, podendo suas consequências interferir na vida adulta de um sujeito.

Resultados de análises

Analisamos que grande parte de crianças que cresceram com a ausência da figura materna, apresentavam comportamentos desajustados, como roubo, violência, má conduta sexual e egoísmos, que são apenas algumas das características apresentadas no comportamento dos mesmos.

Conseguimos então, compreender melhor as atitudes e escolhas de um indivíduo, compreendemos como é formada a personalidade e como o processo de desenvolvimento ainda quando criança pode afetar um individuo quando adulto.  

Sendo assim, conclui-se que esse estudo atingiu os objetivos propostos, uma vez que foi feita a pesquisa necessária para investigar como se dá o desenvolvimento infantil, e os danos causados pelas conseqüências da ausência do vinculo materno nesse processo de desenvolvimento.

É importante indicar possíveis e interessantes caminhos para a realização de futuras pesquisas acerca do tema, então, sugere-se uma analise comparativa entre crianças que crescem com o vínculo da figura materna e sem tal vínculo, e as principais dificuldades encontradas para o desenvolvimento com e sem um acompanhamento psicológico.

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