Adaptação cultural

Adaptação cultural: O que fazer com os conflitos emocionais de viver em outro país

Se perguntarmos para as pessoas sobre o que elas pensam sobre morar no exterior – viver como expatriado para trabalhar, cursar um mestrado ou aprender um novo idioma  -, temos certeza de que o senso comum vai responder que deve ser uma experiência incrível e imperdível.

De certa forma, elas têm razão. Porém, fazer as malas e sair do seu país de origem mexe com muita coisa dentro da gente, tanto para o bem quanto para o “nem tão bem assim”, desafiando o senso comum.

Não importa se o país de destino é rico e super desenvolvido, em desenvolvimento ou carente. Se a religião predominante é igual a sua ou não, se o clima é parecido com o do Brasil ou o extremo oposto, etc. Em qualquer cenário, os conflitos emocionais de viver em outro país logo se revelam.

Há estudos que apontam que o processo de adaptação cultural dura, em média, 12 meses. Ficou surpreso? Nós também! Afinal, nosso tempo de adaptação foi muito mais longo do que os quatro meses que havíamos considerado.

Segundo o sociólogo e cientista cultural Sverre Lysgaardde, são quatro as fases de adaptação cultural: Lua de Mel, Crise, Ajustamento e Reconhecimento. Para Lysgaardde, esses ciclos são contínuos, isto é, podemos revivê-los mais de uma vez ao longo do período de expatriação/imigração e cada ciclo pode ter duração de 3 a 4 meses.

Senti na minha própria pele o impacto emocional de cada uma dessas quatro fases, desde o dia em que embarcamos para Paris (eu e meu marido), cheios de sonhos, dúvidas, esperanças, medos e falando apenas uma palavra em francês: bonjour.

Adaptação cultural HONEYMOON

Nosso primeiro mês na França foi literalmente de “lua de mel” (Honeymoon) com a cidade luz. Afinal, como não se apaixonar pela capital mais bonita e romântica do mundo? Tudo era empolgação, descobrimento, euforia e aventura.

Estávamos felizes montando nosso apartamento e nos descobrindo como casal (havíamos casado há apenas um mês). Também ríamos muito da nossa dificuldade com o idioma.

Adaptação cultural CRISE

Mas foi a partir do terceiro mês que tudo que achávamos engraçado passou a ser trágico e nos demos conta da realidade nua e crua: sentíamos-nos como analfabetos e tínhamos dificuldades para resolver pequenas coisas do dia a dia, como por pedir um rolo de papel higiênico na recepção do hotel, comprar um guarda chuva, escolher um prato do cardápio do restaurante, etc. E tudo isso somado e agravado pelos sentimentos de ISOLAMENTO e SOLIDÃO.

Passamos, então, a enxergar o verdadeiro abismo entre o que éramos e os costumes do país em que escolhemos viver.

Estávamos vivenciando a segunda fase do processo de adaptação cultural, chamada de período de Crise, só que, na época, não sabíamos reconhecer o que era isso, muito menos lidar com essas questões, tanto as de cunho racional quanto, e especialmente, as de emocional.

Sentimos uma grande desorganização interna, mudanças de humor (meio bipolar até!), sentimento de não pertencer ao novo lugar, saudades de tudo do nosso país e, para piorar, nos deparamos com a fatídica pergunta: “o que estamos fazendo aqui?”. Seguida de “O que estamos fazendo longe de tudo e de todos?”.

Quantas vezes tivemos vontade de fazer as malas e dizer “au revoir” (nosso popular tchau!, que logo aprendi).

A vantagem da fase da CRISE

A vantagem do período de Crise da adaptação cultural é que o desequilíbrio provocado por ele te obriga a agir. Foi então que decidimos olhar pra frente e não mais pelo “retrovisor”.

Eu, por exemplo, encarei de frente – e de coração bem mais aberto – o fluxo da vida que me levava a navegar por mares nunca antes explorados. Aprendi a ter mais consciência dos meus sentimentos ambíguos e me dediquei a acolhê-los sempre que o sinal amarelo estava próximo de ascender.

Do ponto de visto prático, resolvi dar um basta no sentimento de isolamento buscando vivenciar a rotina como um francês. Então, me joguei de cabeça no estudo do idioma com o objetivo de passar no processo de admissão de um curso de pós- graduação em Psicologia na Universidade Sourbonne.

Eu sabia que era um objetivo ousado, mas estava disposta a conseguir. E essa disposição faz toda a diferença, acredite!

Para alcançar meu objetivo, além do curso regular de francês comecei a frequentar classe de conversação ministradas por professores aposentados e lá por volta do sexto mês vivendo em Paris, me inscrevi em um site de empregos para trabalhar legalmente como nounou (babá). Para minha surpresa (e certo desespero!) a oportunidade logo surgiu.

Cuidar de duas lindas crianças por alguns meses me fez sentir, pela primeira vez, querida e acolhida pelos franceses. Além de exercitar o idioma essa experiência ajudou muito a espantar a solidão.

Meu coração passou a sentir que a fase da crise estava acabando. Mas, ainda não sabia o que esperar do futuro breve.

Adaptação cultural AJUSTAMENTO

O (sábio) tempo foi passando e, ainda mais conscientes e envolvidos, entramos na terceira fase da adaptação cultural, a de AJUSTAMENTO. Período em que – mesmo que inconscientemente – reconhecemos e valorizamos nossas escolhas e oportunidades.

Ao final do primeiro ano, consegui passar no processo de admissão da Universidade e comecei a fazer o curso de pós-graduação que tanto desejei.

Confesso que voltar a estudar não foi tão suave quanto eu gostaria, pois o choque cultural voltou a falar mais alto (os franceses não facilitaram em nada minha integração, riam do meu sotaque e da minha dificuldade com o idioma e, muitas vezes, me excluíam do grupo). No entanto, não desisti. Segui avançando com o estudo do idioma, participando de rodas de conversação, fazendo o estágio curricular obrigatório e conquistei o diploma.

Adaptação cultural RECONHECIMENTO

Não foi rápido, como já previa o sociólogo e cientista cultural Lysgaardde, em seu gráfico ilustrativo das fases de adaptação cultural.

Só me sinto segura em afirmar que, após dois anos e meio na França, estávamos realmente adaptados. Isto é, com nossa rotina estabelecida, capazes de resolver qualquer questão em francês, com um razoável círculo de amigos (todos estrangeiros ou brasileiros, mas tudo bem!) e sentimento de pertencimento.

Quando finalmente estávamos adaptados aos aspectos psicológicos envolvidos no processo de mudança, a hora de partir chegou. Pois bem, fomos viver como expatriados novamente, agora, na Colômbia.

Mas, não pensem que por ter sentido na pele, na cabeça e no coração todas as questões psicológicas envolvidos no processo de adaptação cultural, que na Colômbia foi diferente. Na verdade, um novo ciclo começou e tivemos que conviver e continuar aprendendo com ele.

Tenho certeza que se a gente – eu, meu marido e tantas outras pessoas – tivesse sido capacitado para reconhecer e se conectar com mais consciência e equilíbrio aos ciclos emocionais envolvidos nessa jornada, muitas das transformações internas que tivemos teriam sido vividas com mais leveza e harmonia.

Por isso, deixo aqui algumas sugestões para facilitar a transição da fase Crise até a do Reconhecimento. Afinal, estima-se que o choque cultural da família represente 65% dos casos de retorno prematuro de executivos expatriados.

  • Entender que o processo de ajuste é normal: sentir-se fora de lugar é temporário e comum.
  • Seja paciente e dê tempo ao tempo. Você não conseguirá resolver todos os problemas de uma vez e muito menos sozinho.
  • Evite o isolamento. Mantenha os laços com os amigos e familiares
  • Aprenda o novo idioma. A comunicação é fundamental. Não ser capaz de comunicar-se de forma clara pode gerar isolamento e solidão
  • Cuide-se: coma bem, faça exercícios e permita-se fazer as coisas que sempre sonhou
  • Divirta-se!  Viaje, participe de algum grupo, seja voluntário, volte a estudar ou aproveite para tornar-se mãe/pai
  • Compartilhe com outros expatriados: frequentemente se vê amizades sólidas sendo criadas durante este período, justamente por identificar em outras pessoas a mesma situação

Repatriação: síndrome do regresso

Há mais um importante elemento nessa história toda, a síndrome do regresso.

Afinal, é preciso também ter consciência de que o mesmo processo de adaptação da saída vale para o retorno e, ao longo dessa caminhada, nos preparar para o processo de repatriação. Mas este será um tema abordado em outro post blog (em breve).

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