Adolescência, drogas e sua relação com o suicídio

Olá Pessoal!

Pretendo trazer algumas considerações a partir da minha experiência como psicóloga familiar em um CAPS Infanto Juvenil Álcool e Outras Drogas, na cidade de São Paulo.

Muitos dos adolescentes que vi buscar ajuda por conta das drogas, traziam consigo idéias suicidas e algumas tentativas frustradas de tirar a própria vida, merecendo cuidado intensivo, planejado diariamente e de maneira individual – processo que chamamos de PTS – Projeto Terapêutico Singular.

Antes de entrarmos na questão da droga propriamente dita, é preciso lembrar que, de acordo com a Organização Mundial da Saúde (OMS) e a Associação Internacional para a Prevenção do Suicídio (AIPS), cerca de três mil pessoas cometem suicídio no mundo diariamente, o que significa que a cada três segundos uma pessoa se mata. As duas entidades divulgaram pesquisas apontando que o fator que mais predispõe ao suicídio é a depressão. Mas que muitos outros aumentam a propensão, como transtornos bipolares, abuso de drogas e álcool, esquizofrenia, antecedentes familiares, contextos socioeconômicos e educacionais pobres ou uma saúde física frágil.

Lamentavelmente, o suicídio é a segunda causa de morte de indivíduos entre 15 a 29 anos no mundo. Quarta causa de morte no Brasil – ao total, 11 mil é a média em nosso país que tiram a própria vida. E para cada caso fatal há pelo menos outras 20 tentativas fracassadas.

No Brasil, de acordo com o Mapa da Violência 2017, estudo publicado anualmente a partir de dados oficiais do Sistema de Informações de Mortalidade (SIM) do Ministério da Saúde, a taxa de suicídios na população de 15 a 29 anos subiu de 5,1 por 100 mil habitantes em 2002 para 5,6 em 2014 – um aumento de quase 10%. Em 1980, a taxa de suicídios na faixa etária de 15 a 29 anos era de 4,4 por 100 mil habitantes; chegou a 4,1 em 1990 e a 4,5 em 2000. Assim, entre 1980 a 2014, houve um alarmante crescimento de 27,2%.

Pesquisadores da Unidade de Pesquisa em Álcool e Drogas (Uniad) da Unifesp, analisaram tentativas de suicídio atendidas em um pronto-socorro de Embu das Artes, interior de São Paulo, e sua relação com o consumo agudo, abuso ou dependência de substâncias psicoativas. Os resultados mostraram que além do consumo de álcool antes da tentativa, maconha e cocaína também estiveram presentes em 7,5% dos casos analisados.

Como colocado acima, as estatísticas confirmam e podemos observar a partir dos últimos acontecimentos em escolas particulares de SP, a necessidade de conversar sobre o assunto, principalmente quando falamos de nossos jovens. Os números apontam e deixam claro que esse tipo de situação não são representadas por casos isolados e não escolhem classe social para acontecer.  Por isso é necessário, cada vez mais, combater o estigma e saber identificar os sinais de alerta precocemente, para evitar que o limite se imponha com o trágico desfecho do suicídio.

Para contextualizar essa questão, é importante lembrar que vivemos numa sociedade em que toda forma de consumo é incentivada. Considera-se o valor de uma pessoa por aquilo que ela usa, e não por aquilo que ela é, e as qualidades não encontram espaço para serem valorizadas. Há o incentivo constante por um corpo magro, pela valorização da imagem e os meios de comunicação ditam as regras de como devemos nos vestir, sentir, viver e amar. Isso tudo acaba por estimular, de maneira indireta, o uso indiscriminado de drogas medicamentosas para o alcance do corpo “perfeito” e o estado de “felicidade” ideal – os adultos fazem isso. Outro exemplo é a cocaína, droga que proporciona, inicialmente, o constante estado de felicidade, o êxtase, o bem estar e, conseqüentemente, também o corpo magro.

Tudo isso, é claro, traz a falsa sensação de solução “mágica” para os problemas, sejam eles físicos ou psíquicos, aumentando assim o uso indiscriminado dessas drogas. Nesse sentido, não é raro passarmos, sem perceber, a idéia as nossas crianças de que elas precisam, a todo o custo, serem felizes, bem sucedidas e realizadas! Infelizmente, esse pacote não traz em seu rótulo a informação de que, inevitavelmente, não vamos conquistar o estado pleno de felicidade o tempo todo!

Quando falamos da droga na adolescência, é importante lembrar que seu uso está, na maioria das vezes, intimamente relacionado à falta – falta de sonhos e de um lugar de pertencimento. Observamos, ao conversar com adolescentes usuários de drogas, que o sentimento de vazio é constante e intenso – uma vida que precisa de anestésico para ser suportada – e esse é o maior desafio – identificar essa parcela de jovens que fazem uso de droga para se alimentar e preencher as faltas da alma! Contra isso, não ha sentido que possa, pelo menos no início, dar conta de tanto vazio!

Por tudo isso, necessitamos dar um passo a trás e buscar compreender o que oferecemos ou deixamos de oferecer aos nossos jovens. A falta de diálogo, segurança e presença parecem corroborar para esse cenário. É preciso considerar que a droga não é a protagonista desta história e compete com o abandono, a violência física e sexual, as dificuldades em estabelecer limites e expressar afeto e problemas de saúde mental. Não se trata de minimizar os efeitos nocivos da droga, mas considerar que podemos estar diante de questões muito mais complexas – neste caso a droga pode ser utilizada como forma de apaziguar o sofrimento ocasionado por todas essas questões.

O cuidado com a família

Na prática, quando lidamos com famílias cujos filhos fazem uso de droga, é possível observar que a preocupação principal trazida é o uso da substância, em especial as ilícitas. Devemos, no decorrer do processo de cada adolescente, fazer compreender os motivos que o levam ao uso da droga. É ajudar a família a compreender o que há por traz dos olhos vermelhos quando, por exemplo, o uso da maconha se faz presente.

Assim, em relação ao papel da família quando falamos de drogas na adolescência, é fundamental dispor de informações sobre as causas do inicio do consumo e dos efeitos das diferentes drogas. Nesse caso, a importância de compreender o que impulsiona a busca pelo uso e se esse uso corrobora em alívio para questões relacionadas à saúde mental ou outro tipo de sofrimento psíquico e físico. Dependendo do caso, o risco para o suicido pode estar presente.

Sobre as drogas, é preciso que os pais passem as informações aos filhos dentro de um clima familiar adequado sem recorrer desnecessariamente ao argumento catastrófico das conseqüências do consumo de drogas – aliás, a droga é prazerosa sim! É importante que eles saibam disso!

É importante ainda que a conversa sobre uso de drogas ocorra de forma clara, sempre adaptada à idade dos filhos. A falta de informação sobre o efeito das diferentes drogas pode ser um dos aspectos que podem impedir a percepção de se o filho está começando a consumir substâncias psicoativas. Se um dia ele escolher usar droga, que seja de maneira consciente e da forma menos prejudicial possível.

Dessa forma, ao acolher a família, é preciso reconhecer que, no contexto solitário do adolescente usuário de drogas, encontra-se também uma família solitária em sua capacidade de ajudar e compreender a dinâmica dos filhos que escolhem fazer uso da droga para lidar com a realidade insuportável do viver. É preciso ajudar a família a rever, transformar e muitas vezes conhecer pela primeira vez a necessidade que seus membros apresentam, de forma a conseguir retomar o seu crescimento enquanto família

Instaura-se, nesse sentido, um grande desafio para nós, educadores, pais e profissionais de saúde. Levando-se em consideração a intersecção entre a droga, questões de saúde mental e o risco para o suicídio, é preciso considerar a importância de programas de intervenção como forma de garantir melhores condições para o adolescente em desenvolvimento, lembrando que o suicídio é uma das causas de morte evitável – precisamos estar atentos aos seus sinais!

Considerando a conexão do uso de drogas, o significado para cada indivíduo e o padrão relacional da família com o usuário, cabe lembrar o quão importante é incluir não só a família no tratamento, mas construir com ela estratégias para que possa se sentir mais competente no cuidado de si mesma. O remédio mais eficaz continua sendo a intervenção precoce. Quanto antes o problema for detectado, maiores as chances de evitar um trágico final. E a identificação é sempre feita pela família. Portanto, adolescentes precisam de pais atentos, interados do que estão fazendo, de como estão se sentindo, mesmo com a resistência dos filhos.

Por fim, a atitude da família em buscar ajuda e acompanhar o adolescente no tratamento passa a ser um fator de proteção, uma oportunidade de crescimento e retomada da responsabilidade no cuidado de seus filhos, incluindo aqueles que não fazem uso da droga.

Luciana Cristina Escudero – Psicóloga, Especialista em Terapia Familiar e Casal pela PUC-SP. Especialista em Psicopatologia e Saúde Pública pela FMSP-USP. Experiência de 15 anos no atendimento a crianças, adolescentes e famílias em situação de vulnerabilidade social, em especial uso de drogas. Em consultório particular atendimento a família, casal e indivíduo.

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Água da ROCHA
4 dias atrás

Achei maravilhoso o seu artigo, de uma sensibilidade tremenda, certamente me ajudou muito na construção de um outro artigo, que estou fazendo dentro de uma série sobre SUICÍDIO… Parabéns, Deus te abençoe…. Paz de GRAÇA! Em Cristo, Reginaldo de Sá