Birra infantil, o que fazer?

Birra infantil: quem nunca presenciou uma situação de uma criança chorando, rolando no chão e dando “show” em um ambiente público, como um shopping?

Esta situação, que não ocorre raramente, evidencia as situações que irei extrair para explicar para você: o que é birra infantil, como ela surge e é instalada e como fazê-la ir embora. Vamos lá?

Para entender o que é birra infantil, precisamos entender o que ela não é

Muito é dito sobre esse comportamento, e o mais comum é dizer que a criança simplesmente é assim, que sempre foi assim desde bebê ou desde pequeno.

Escuto com frequência os pais desesperados que me procuram na clínica para obter ajuda com seus filhos. Eles são rotulados como geniosos, impossíveis, ninguém pode com ele ou a versão mais onipotente do momento, de possuir “personalidade forte“.

Mas acredite, nenhuma criança nasceu assim. Se você pensou em uma criança que chorava muito desde bebê, isso não significa que o comportamento de birra nasceu com ela.

Mas então o que é birra infantil? 

De início guarde a afirmação: birra é um comportamento que a criança aprendeu.

Imaginem a situação em que uma criança é observada no shopping, no chão, chorando muito. Ela faz aquele espetáculo com os pais ao redor tentando dialogar para acalmar a criança.

Sem sucesso em solucionar o espetáculo feito pela criança e desconfortáveis em serem observados por outras pessoas, entram em uma loja e rapidamente a criança sai do chão, enxuga as lagrimas e aponta dentro da loja algo à venda. Será esta a solução? Não!

Esta situação do choro que cessa quando os pais fazem a vontade da criança é a birra. Uma de muitos tipos de birra, a mais clássica de todas, que ocorre sempre que criança quer ou não algo e é contrariada. Nesse exemplo a criança não faz isso porque é geniosa como dito lá em cima, ela faz isso porque funciona!

E assim surge a birra…

Certamente muitos comportamentos similares surgiram antes da criança chorar no shopping. Pode ter sido quando queria uma bolacha antes da refeição e os pais negaram, então a criança chorou e, para encerrar o choro, foi dado à criança a bolacha que ela queria.

Esse quadro geralmente é acompanhado do pensamento dos pais de “só uma bolacha não tem problema”.

O comportamento de chorar existe antes da criança aprender a andar, morder, berrar, fazer escândalo ou quebrar coisas. A criança chora quando é bebê e tem fome, quando tem cólica e quando está com algum desconforto porque não é capaz de falar. Para cada uma das situações ela recebe dos pais o alimento, o carinho e o cuidado.

Uma vez aprendido que chorar funciona, a criança cresce se desenvolvendo e aprendendo novas formas e combinações de choro com berros, chutes, agressividade e outros. Isso pode ficar ainda mais elaborado e complexo, chegando até a idade adulta e reagindo com brigas, quando frustrado.

Uma vez o comportamento de birra instalado, ele é mantido pelo comportamento dos adultos ao redor, que cedem. Mesmo resistindo 10 vezes, na décima primeira eles cedem, depois em outra situação resistem, dizendo não 20 vezes, para na vigésima primeira dizerem sim.

Desta forma não somente os pais ou os adultos mantêm a birra, como a amplificam, tentando ser firmes e cedendo. Por isso o comportamento de birra é aprendido.

E como a birra infantil desaparece?

Aqui reside o grande desafio do controle que a birra tem sobre os pais e os adulto ao redor.

Isso porquê a criança já aprendeu a fazer a birra, e dificilmente desiste até conseguir o que deseja. Quando os pais já possuem a crença de que tentaram dizer não e o efeito foi pior, a birra aumentou, somente cedendo a paz volta a reinar no ambiente.

Sobre isso, é muito comum escutar frases como “eu trabalho bastante e estou cansado”, “não tenho muito tempo”, “eu preciso dormir, então eu deixo” e outros.

A palavra magica para acabar com a birra não é hocus pocus, como diziam os antigos mágicos do século XVI, mas extinção.

Extinção, basicamente, é não fazer o que fazia antes quando surgia a birra, é dizer “não” e não ceder de forma alguma. Se a criança, ao ir ao shopping, se jogava no chão e chorava quando pedia algo da loja e os pais cediam, satisfazendo essa vontade, então é aí que a extinção entra. Não compre!

Porém, a extinção possui um efeito primário, que é promover variações no comportamento com a finalidade de obter aquilo que deseja. As variações mais comuns para o exemplo que estou usando é: chorar mais alto, gritar mais alto, se debater no chão, ficar vermelhas, transpirar e por vezes até vomitar.

Achou que seria fácil?

Pois é, caro leitor, eu não disse que seria fácil, mas com certeza viver com a birra infantil é bem mais difícil, principalmente em quarentena, não é?

Mas venho com algumas opções para não manter a birra, educar e melhorar a relação com a criança com menos efeitos do que é conhecido como “curva de extinção”.

Vamos ao exemplo: a criança quer o sorvete que viu o vovô colocando no freezer e que será a sobremesa da família no almoço de domingo. No primeiro exemplo do uso da extinção os pais poderiam dizer não e manter até a hora da sobremesa, mas a criança poderia demonstrar as variações mais intensas do comportamento de birra.

Mas há outra opção, verbalizar para a criança que compreendeu que ela quer o sorvete que vovô trouxe e que ela vai comê-lo sim, junto com a família após todos terminarem a refeição.

Nem sempre funciona, às vezes a criança insiste que quer naquele momento, ou evita de comer a refeição e quer comer somente o sorvete… Enfim, são algumas variações da birra e, quando isso ocorre, não há outro caminho a não ser se manter firme em não dar o sorvete antes da refeição.

E o castigo, pode ser aplicado? NÃO!

O castigo cria a falsa noção de que funciona. E para pais que reforçaram o comportamento de birra isso é ainda pior, por que tendem a aumentar o castigo. Eles acreditam que será melhor da mesma forma que cederam, achando que era o certo.

Resumindo, a criança não é chatinha ou difícil, ela apenas possui um aprendizado incompatível com o comportamento esperado. No entanto, para remover a birra temos que realizar um novo aprendizado.

Dessa forma, orientando, conversando, deixando claro o que se espera dela e mantendo a palavra sem ceder.

As crianças aprendem por imitação e, nesse sentido, elas devem aprender com os pais a ter palavra, mas isso já é um assunto para outro texto.

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