Doença de Parkinson: Conhecendo um pouco sobre

Alguns relatos de pessoas com a Doença de Parkinson (DP)

Quando eu falo com um amigo, eu noto que eles ficam com pena da gente, um sentimento de pena, e isso não é legal. Os que me conhecem há bastante tempo: “Que azar, tu não estás mais de moto?” E eu: “Não, estou com problema”. Aí outro descobre e fala: “Descobri que você está com Parkinson, que azar…”, aí deixa o cara mais para baixo ainda. Eu noto que as pessoas que estão num estágio mais elevado são olhadas em público… às vezes, a gente sai junto, e aqueles que estão mais prejudicados, as pessoas passam e olham, ficam achando assim que “o cara é aleijado”, não sabem o que é, muita gente… Uma coisa que eu aprendi é que muitas pessoas não sabem direito o que é a doença de Parkinson. (P8, sexo masculino, 58 anos, 3 anos de diagnóstico).”

[…] me sinto meio inferior aos outros, meus amigos, às vezes… parece que estão notando, eu me sinto assim, meio envergonhado, fico meio retraído. Eu era mais alegre, hoje eu estou mais introvertido. (P8, sexo masculino, 58 anos, 3 anos de diagnóstico).”

Esses relatos de uma pessoa com a DP, encontrados no recente artigo “O cotidiano das pessoas com a doença de Parkinson” (Valcarenghi e cols. 2018) mostra que, ser portador da DP envolve muito mais, que a convivência com os sintomas motores e não motores da doença, mas também a percepção do estigma e o desconhecimento por parte das outras pessoas sobre o que é a DP, a vergonha por parte dos próprios portadores por terem a DP, a alteração em sua autoestima, autoconfiança, sinais de depressão, etc. Esse tipo de situações podem levar as pessoas com DP a diminuírem o contato social e ficarem mais reclusas em casa, o que pode contribuir negativamente para os seus sintomas motores (Valcarenghi e cols. 2018). Por outro lado, o que pode estar ocorrendo também é que as pessoas ao entrarem em contato com a pessoa com a DP não sabem o que falar, como se portar por saberem pouco sobre a DP.

Então, a proposta deste artigo é trazer informações sobre a DP para pessoas que tenham ou não a DP; o que pode auxiliar no autocuidado, no enfraquecimento do estigma e do isolamento social que as pessoas com DP possivelmente vivenciam e para as pessoas sem a DP uma maior segurança no contato com a pessoa que tem DP.

A Doença de Parkinson

A DP é um transtorno neurodegenerativo crônico e progressivo do Sistema Nervoso Central (SNC), mais especificamente dos Gânglios da Base, que leva a alterações motoras. Sua cura é desconhecida, mas a DP possui opções de tratamento que podem ajudar na melhora da qualidade de vida da pessoa. Ela é caracterizada por quatro sintomas motores cardinais:

  • Tremor em repouso
  • Bradicinesia (lentificação dos movimentos)
  • Instabilidade postural e quedas (equilíbrio e coordenação prejudicadas)
  • Rigidez muscular

Esses sintomas motores se apresentam gradualmente de forma unilateral e com o tempo progride para o outro lado do corpo.

O diagnóstico da DP é totalmente clínico; pois não há até agora, nenhum exame de sangue, um biomarcador ou exames de neuroimagem que façam o diagnóstico, por si só. Assim, ele deve ser realizado por um neurologista (o médico mais indicado para o diagnóstico) devido a sua complexidade da DP. Os sintomas de bradicinesia e mais um dos outros três sintomas característicos podem fechar o diagnóstico, soma-se a essa identificação dos sintomas a exclusão de outras explicações para os sintomas presentes, daí a importância do neurologista nessa avaliação.

Na DP há primariamente a degeneração (diminuição) dos neurônios dopaminérgicos (mensageiros químicos responsáveis entre outras funções, pela transmissão dos sinais relacionados à coordenação dos movimentos corporais); na parte compacta da substância negra, com isso ocorre o desequilíbrio de outros neurotransmissores no SNC, o que afeta a coordenação dos movimentos, ocorrendo à manifestação dos sintomas.

A combinação de dois fatores é considerada como os possíveis riscos para a presença da DP; por um lado, a presença de um ou mais fatores genéticos e do outro lado fatores ambientais como: a ingestão de água de poço, metais pesados ou hidrocarbonetos.  A idade avançada é um fator de risco. Como a causa da DP é desconhecida, assim não há um tratamento preventivo cientificamente comprovado.

Ela pode ser encontrada em várias fases da vida, sendo essas etapas conhecidas como:

  • Doença de Parkinson de Início Tardio – pessoas diagnosticadas com idade superior a 60 anos;
  • Doença de Parkinson na Meia Idade – pessoas que tem o diagnóstico com idades entre 40 e 59 anos.
  • Doença de Parkinson de Início Precoce que se divide em Parkinson Precoce atingindo pessoas de 21 a 40 anos de idade e Parkinson Juvenil envolvendo pessoas com idade inferior aos 21 anos.

A DP é heterogênea, isto é a presença dos sintomas motores e não motores e a forma de evolução da DP variam de pessoa para pessoa, nós podemos encontrar pessoas que apresentam tremores leves, enquanto outras podem apresentar uma somatória de sintomas, em um grau mais intenso, por exemplo: instabilidade postural, depressão, dificuldades na marcha e dificuldades para realizar as atividades do dia a dia, etc., necessitando do auxílio de outra pessoa.

Outros sintomas motores e não motores da Doença de Parkinson

As pessoas de um modo geral associam a presença da DP com o sintoma de tremor, mas nem toda pessoa com a DP apresenta esse sintoma. Além dos sintomas motores citados acima, uma pessoa com DP pode apresentar outros sintomas.

Sintomas motores

  • Perda da expressividade facial
  • Síndrome das pernas inquietas
  • Congelamento da marcha

Sintomas não motores

  • Incontinência urinária
  • Perda do olfato
  • Diminuição no tamanho da letra e escrita lenta
  • Constipação intestinal
  • Alterações na fala
  • Dificuldade na deglutição
  • Aumento na salivação
  • Alteração do sono
  • Alterações Cognitivas
  • Transtorno do Controle de Impulso
  • Ansiedade
  • Depressão

Déficits cognitivos

Os motivos pelos quais os déficits cognitivos e as alterações de humor  (depressão, ansiedade) ocorrem na PD, ainda não estão esclarecidos, mas considerando que as vias cerebrais se comunicam entre si, através de atividades químicas e elétricas, podemos supor que, qualquer alteração em alguma parte desse sistema trará alterações em outras áreas do cérebro. Então a alteração dopaminérgica, que ocorre na DP acaba por alterar outros neurotransmissores como: acetilcolina, serotonina e norapinefrina, que são  relacionados com a cognição, atenção e humor.

Os déficits cognitivos ocorrem em pessoas com DP, em qualquer momento da doença. Algumas pessoas não experimentam déficits significativos; enquanto que outras podem apresentar mudanças significativas, que podem limitar as atividades do dia a dia.

Esses déficits afetam as algumas funções executivas, que envolvem dificuldades em:

  • Planejar e organizar
  • Solução de problemas
  • Atenção Processamento de informação
  • Dificuldade em encontrar palavras para expressar-se

Importante observar que, um comprometimento cognitivo leve, nem sempre, progride para a demência, que é presente em aproximadamente 30% dos casos de DP.

Se a Demência associada à DP se desenvolver, isto ocorrerá nos estágios mais avançados da doença. Nessa fase a cognição apresenta déficits nas funções visuoespaciais e de memória. Também se encontrar alterações na motivação, no humor (depressão, ansiedade) e apresentar alucinações visuais ou delírios.

Depressão e Ansiedade

Estima-se que a depressão está presente em aproximadamente 40% das pessoas com DP.  Mesmo nos estágios iniciais da DP, a depressão é alta, o que provoca um impacto negativo nas atividades de vida diárias e consequentemente na qualidade de vida dessa pessoa e dos seus familiares.

Estudos sugerem, que tanto a depressão, quanto a ansiedade na DP ocorrem tanto devido as mudanças químicas no cérebro, quanto pelas mudanças nos circuitos cerebrais que a própria DP causa.

É muito importante prestar atenção na depressão associado à DP, pois na sua presença a pessoa pode se retrair socialmente, deixar de exercitar-se e assim, deixa de controlar os sintomas motores, o que acaba sendo prejudicial.

Tratamento

Deve envolver uma equipe multidisciplinar: neurologista, psicólogo, neuropsicólogo, fonoaudiólogo, fisioterapeuta, terapeuta ocupacional dependendo do caso e o estágio da DP.

A depressão e a ansiedade podem ser tratadas com medicamentos, mudanças de estilo de vida e psicoterapia. Grupos de apoio também podem ajudar.

Em qualquer estágio da DP, o neurologista pode encaminhar a pessoa com DP, a um neuropsicólogo se verificar a necessidade de uma reabilitação cognitiva. Nela, inicialmente o neuropsicólogo investigará através de testes, as “forças e fraquezas cognitivas” da pessoa, e a partir dessas informações elaborará um programa estruturado para trabalhar com as dificuldades cognitivas encontradas.

Ajudar a própria cognição a se manter ativa é positivo. Então, fazer o cérebro trabalhar com tarefas, que o desafie é bom: faça palavras cruzadas, quebra-cabeça, sudoku, tente aprender um novo idioma, tocar um instrumento, participar de encontros onde você terá que lembrar os nomes das pessoas e conversar sobre assuntos novos, etc. Isso também não o deixará isolado contribuindo assim, para o bem estar emocional.

A psicoterapia pode auxiliar a pessoa com a DP, trabalhando os aspectos emocionais, autoestima, autoconfiança, aceitação e a adaptação aos seus vários estágios, na depressão e na ansiedade (como por exemplo, o medo das quedas), na psicoeducação sobre os sintomas secundários como: transtorno de controle do impulso, delírios, alucinações e na estimulação da construção e ou manutenção dos relacionamentos sociais e familiares e não do isolamento social.

Em todos os estágios da DP o(s) familiar (es) e ou cuidador (es) são muito importantes, porém nos estágios mais avançados eles são importantíssimos para a relação entre a pessoa com a DP e os profissionais da equipe multidisciplinar, por exemplo no dia a dia eles podem fazer observações que mostre a pessoa com DP ou ao profissional de saúde, que a pessoa com DP está depressiva ou ansiosa, etc. Porém deve-se observar que os constantes cuidados dados em tempo integral pode também sobrecarregar física e emocionalmente o cuidador. Assim, é importante, que esses cuidadores  periodicamente dividam as tarefas de cuidados com outros cuidadores, e encontrem tempo para vivenciar as suas próprias necessidades, e assim retornarem revigorados para o cuidado da pessoa com a DP.

Conclusão

A DP é complexa e afeta de diferentes formas, as várias áreas da vida da pessoa e dos seus familiares. Ela não se restringe somente aos sintomas motores, porém esse aspecto impacta parcialmente no emocional, social, etc e não há necessidade de se somar a estes fatores o estigma.

É importante, que a pessoa com DP e/ou cuidador sempre conversem com o seu neurologista e os outros profissionais da equipe multidisciplinar, que os atendem sobre as possíveis dificuldades que possam estar observando no dia a dia, assim eliminando possíveis dúvidas que pode influenciar o estado emocional tanto da pessoa com DP quanto o seu cuidador, obviamente que de formas diferentes.

Outro ponto a ressaltar é que, se alguém apresentar algum dos sintomas descritivos nesse artigo, isso não significa que a DP está presente, pois muitos dos sintomas aqui citados podem estar associados aos mais diversos quadros. O que deve ser feito é procurar um médico, e ele com responsabilidade e segurança fará a investigação necessária para o seu caso.

 

Referências

Adwani S, Yadav R, Kumar K, Chandra SR, Pal PK. 2016. Neuropsychological profile in early Parkinson’s disease: Comparison between patients with right side onset versus left side onset of motor symptoms. Annals of Indian Academy of Neurology, 19(1), 74–78.

Alzahrani A, Venneri A. 2018, Cognitive Rehabilitation in Parkinson’s Disease: A Systematic Review. Journal of Parkinson’s Disease 8 (Suppl 1).

Barreto MAM, Fermoseli AFO. 2017. A importância do acompanhamento psicológico sobre os indivíduos portadores de Doença de Parkinson e Parkinsonismo usuários de Levedopa. Ciências Humanas e Sociais 4 (2), 29-38.

Fernandez HH. 2015. Update on Parkinson disease. Cleve Clin J Med. 82 (9) 563-568.

Fundação Michael J Fox https://www.michaeljfox.org/ pesquisado em 10-08-2018.

Nakabayashi TIK, Chagas MHN, Tumas ACLCV, Loureiro SR, Crippa, JAS. 2008.   Prevalência de depressão na doença de Parkinson Rev Psiq Clín. 35 (6): 219-227.

Valcarenghi RV, Alvarez AM , Santos SSC, Siewert JS, Nunes SFL, Tomasi AVR. O cotidiano das pessoas com a doença de Parkinson. Rev Bras Enferm [Internet]. 2018;71(2):293-300.

http://www.who.int/mental_health/neurology/neurological_disorders_report_web.pdf

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