sentimentos

Devemos continuar fugindo de sentimentos que não gostamos de ter?

Quem foi que disse que existem sentimentos bons e sentimentos ruins? Por que se atribui juízo de valor a eles, alguns sendo julgados positivos e outros, negativos? Quando fui ao cinema assistir “Divertidamente” (filme maravilhoso, cheio de conteúdo importante), em determinados momentos, quando a tristeza aparecia em cena, um homem adulto vaiava e falava alto: “ih, sua chata, sai daí!” e coisas do tipo. Isso chamou muito a minha atenção, porque foi a concretização, para quem quisesse ver, da nossa dificuldade em lidar com os ditos sentimentos ruins. Se der uma olhada nas redes sociais, perfis motivacionais e de autoajuda, vai encontrar bastante disso.

              Sentimentos e pensamentos não são, por si só, negativos ou ruins. Sentir-se triste, ou com raiva, medo, desânimo, muitas vezes é necessário e completamente coerente com o contexto que estamos vivendo. Vamos pensar: você teve uma briga feia com sua/seu namorada(o). Vai ficar pulando de alegria? Tirou uma nota ruim em uma prova importante, para a qual estudou muito. Vai sair para comemorar? Recebeu um diagnóstico de uma doença grave. Vai andar rindo pelos corredores? Em situações como a desse último exemplo, é comum os outros falarem coisas do tipo “Ah, mas você não pode ficar triste”. Falas como essa, além de não serem acolhedoras, ainda invalidam o sentimento do outro, que é real, como se desautorizando que ele se sentisse daquela forma. Ou seja, além da pessoa receber uma notícia ruim, sobre um fato que vai mexer com toda a vida dela e das pessoas ao redor, ela ainda está errada por se sentir triste e assustada. Isso pode fazer com que ela se feche sobre o que está sentindo, tente lidar sozinha com seus sentimentos, abalando sua autoestima e dificultando o enfrentamento da situação.

Alguns sentimentos e pensamentos podem fazer com que nos sintamos desconfortáveis, já que não são, exatamente, gostosos ou agradáveis de vivenciar. Não gostamos de nos sentir tristes, ainda mais quando achamos que todas as outras pessoas estão tão bem (coisa comum nas redes sociais, assunto para outro momento). Mas, em determinadas situações, é natural que sintamos isso, pois a contrariedade faz parte da vida. Claro que devemos estar atentos a alguns pontos, como por exemplo: minha reação é excessivamente intensa? Essa sensação está se prolongando além do necessário? Tem trazido prejuízos em outros aspectos da minha vida? Uma pequena autoavaliação periódica é importante.

De forma geral, a questão é: se ficamos fugindo destes sentimentos, não vamos encará-los e lidar com eles, deixamos de aprender a enfrentá-los como deveríamos, e vamos passar a vida fugindo deles, maquiando sensações e nos enganando. Com o tempo, isso tende a gerar mais e mais sofrimento, como se fôssemos panelas de pressão prestes a explodir e jogar tudo pelos ares. Sabe aquela música que diz “eu bebo pra esquecer, se fosse pra lembrar eu anotava”? Bom, beber não resolve a situação que queremos esquecer, e ainda pode criar muitos outros problemas, virando uma bola de neve.  Será, então, que, ao invés de ficar varrendo a poeira para debaixo do tapete, o ideal não seria aprender a encará-la de frente?

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