estresse pós-traumático e a Pandemia

Transtorno de estresse pós-traumático e a pandemia Covid-19

Para muitos, o que estamos vivendo relacionado à pandemia da Covid-19 traz situações novas e com diferentes intensidades de ansiedade. Essas novas situações podem chegar ao ponto de serem traumáticas para alguns, atraindo a necessidade de olharmos com cuidado não apenas durante a pandemia, mas também para o “retorno à normalidade”, para o pós trauma.

Todos estamos vivendo a pandemia de diferentes formas, sendo certo que todos sofremos com os efeitos da Covid-19 em diferentes níveis. A perda de entes queridos, demissões, falta de dinheiro, a vida que virou de cabeça para baixo, os profissionais de saúde que presenciam cenas constantes da luta pela vida, as crianças presas em casa que sentem falta de outras crianças, o distanciamento dos amados e uma infinidade de outras dores. Cada pessoa irá processar essas dores de uma forma diferente.

A questão que quero colocar aqui é que algumas dessas pessoas podem revisitar essas dores novamente quando a pandemia já tiver passado. Esse “depois do trauma” pode ser complicado, exigindo cuidados profissionais.

Essa revisitação é o que chamamos de transtorno do estresse pós-traumático (TEPT). Trata-se de um distúrbio da ansiedade caracterizado por um conjunto de sinais e sintomas físicos, psíquicos e emocionais em decorrência de testemunhar atos violentos ou de situações traumáticas que, em geral, representaram ameaça à sua vida ou à vida de terceiros.

Como é isso na prática? Para quem sofre com TEPT, toda vez que o trauma é lembrado, a pessoa revive o episódio como se estivesse ocorrendo naquele momento e com a mesma sensação de dor e sofrimento que o agente estressor provocou no passado. Essa recordação conhecida como revivescência, desencadeia alterações neurofisiológicas e cognitivas.

Os sintomas podem se manifestar em qualquer faixa de idade e levar meses ou anos para aparecer. Eles costumam ser agrupados em três categorias:

Re-experiência traumática: pensamentos recorrentes e intrusivos que remetem à lembrança do trauma; flashbacks, pesadelos.

Esquiva e isolamento social: a pessoa foge de situações, contatos e atividades que possam reavivar as lembranças dolorosas do trauma.

Hiperexcitabilidade psíquica e psicomotora: taquicardia, sudorese, tonturas, dor de cabeça, distúrbios do sono, dificuldade de concentração, irritabilidade e hipervigilância, entre outros.

Isso significa que toda experiência traumática nos levará a desenvolver TEPT? A resposta para essa pergunta é muito complexa, pois é preciso analisar o evento traumático e suas variáveis, somado à história de vida da pessoa que fez com que ela desenvolvesse ou não habilidades de enfrentamento para situações extremas.

A verdade é que não podemos julgar ou prever como as pessoas lidam com as situações traumáticas, principalmente nós mesmos! Hoje você pode achar que lida bem e até pode ser que lide mesmo. Contudo, nenhum de nós sabe como será o amanhã, o que ainda viveremos e, principalmente, como reagiremos diante dessas situações. Infelizmente não temos controle de tudo.

A boa notícia é que temos uma infinidade de psicoterapias para tratar o TEPT, sendo todas efetivas. Falarei aqui a partir da Terapia Cognitiva Comportamental como tratamos esses traumas e os transtornos por eles causados.

O primeiro passo é identificar, junto com a psicóloga, o evento traumático (agente estressor) que tenha representado ameaça à vida. Frente a isso, a profissional inicia um processo de ensino sobre como a ansiedade funciona no âmbito mental e fisiológico. O objetivo é auxiliar a pessoa a identificar as reações de seu corpo e de sua mente frente a essas situações de ansiedade e trauma.

Com uma compreensão melhor das reações de seu corpo e de sua mente, a psicóloga ensina várias técnicas de relaxamento ou enfrentamento da ansiedade para quando a pessoa reviver na sua mente o evento traumático.

Somente quando a pessoa se sentir mais segura para lidar melhor com a ansiedade ou com o medo é que se dá o próximo passo: buscar entender melhor o evento traumático e repensar tudo que aconteceu.

Essa parte do tratamento é mais intensa, pois demanda reviver mentalmente o trauma.

No entanto, é importante ter em mente que a psicóloga só dará esse passo se o cliente assim desejar, já tiver confiança na profissional e, principalmente, se já tiver as habilidades necessárias para lidar com a ansiedade. Sempre no tempo do cliente e se assim for da sua vontade.

Uma vez que o evento traumático foi falado e explorado em detalhes, habilidades sociais são treinadas e aprimoradas. Por exemplo, muitas vezes as relações sociais são comprometidas no TEPT, pois a pessoa evita lugares ou situações por medo, ou perde assertividade nos seus relacionamentos. O treinamento e aprimoramento das habilidades sociais visa superar ou ao menos diminuir esses impactos

O que mais desejo comunicar por meio deste texto é ESPERANÇA! Quem vive sob a constante do medo, da ansiedade e das reações no corpo que isso causa se sente muitas vezes cansado e sem esperanças. A ideia de que isso possa melhorar é muito distante. Mas não deixe o cansaço vencer. Você não precisa lidar com o medo ou com qualquer coisa sozinho e existe uma infinidade de profissionais que podem lhe ajudar.

Não vencemos o medo sozinhos. É preciso estar de mãos dadas com quem está capacitado para nos ajudar. E quem sabe enfrentar o maior dos nossos medos: expor nossa vulnerabilidade!

A pandemia da Covid-19 vai nos deixar muitos ensinamentos e, talvez, o maior deles é sem dúvida que todos dependemos uns dos outros em algum grau. Se você herdar medos da pandemia que venham lhe visitar com certa constância, não hesite em buscar ajuda. O medo morre de medo da esperança e essa sempre renasce quando os problemas são compartilhados e enfrentados de mãos dadas.

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Raquel Dalla
5 meses atrás

Não estou conseguindo lidar com a vida pós covid. Fiquei 19 dias no hospital, 13 na UTI sendo 6 em respiração mecânica. Fiquei muito grata a Deus por sobreviver. Vi tanta gente morrer. Mas agora em casa, sinto que não sou mais a mesma. Não consigo dormir, tiro apenas cochilos que terminam com um pesadelo horrível. Tenho medo da hora de dormir. Estou tão cansada. Não consigo corresponder ao meu esposo, meu filho. Me sinto angustiada o tempo todo. Só quero ficar sozinha. Eu sobrevivi, mas sinto que sou apenas um boneco, sem vida, sem alma.