Falar sobre Suicídio é falar sobre VIDA

Falar sobre Suicídio é falar sobre VIDA

Difícil de ouvir, mais ainda de falar: Suicídio.

Apesar do grande número de casos que acontecem frequentemente no mundo inteiro, este assunto ainda é pouco falado abertamente entre as pessoas por falta de informações, preconceito ou até mesmo estigma. Parece que o tema entra na lista de “assuntos tabu” tais como falar sobre sexo.

Muita gente diz: “ah, não quero falar sobre isso porque é um assunto muito delicado”. Durante uma conversa, quando alguém comenta que conhece um amigo ou parente próximo que tentou ou cometeu o suicídio de fato, muitas vezes o assunto para por aí.

Imagine-se em uma situação na qual você encontra uma amiga que não vê há um tempo. Você olha para ela e diz: “Amiga, que bom te encontrar! Seu corpo está maravilhoso! Emagreceu bem, está linda!”. Ao invés dela dizer os truques do quanto emagreceu e dar dicas saudáveis de uma boa alimentação, ela responde: “Pois é… não estou comendo direito há três meses porque não sinto fome e nem consigo dormir pois não paro de sentir uma ansiedade forte no meu peito e uma vontade enorme de chorar”.

Como você reage?

Falar sobre tristeza não é fácil. Ainda mais em um mundo onde as redes sociais ganharam força com um número crescente e expressivo de pessoas que procuram estabelecer relações interpessoais das mais diversas naturezas! O que deveria ser um ambiente saudável de trocas afetivas, profissionais, familiares e de aprendizado vem se tornando um lugar de trocas superficiais e pouco profundas. Para a maioria dessas pessoas, o importante é passar sempre uma imagem bem sucedida e sem fragilidades.

Encontrar um amigo ou parente próximo e acolhê-lo sem julgar é ter empatia com a dor do outro. É estar junto e encarar essa dificuldade que não é “frescura” ou “ser fraco”, mas sim, “Ser Humano”, com todas as fragilidades possíveis que todos nós enfrentamos a cada dia.

O Ministério da Saúde reconhece o suicídio – e todas as suas consequências – como uma doença e, portanto, requer acompanhamento e tratamento.

Dados e Fatos sobre o Suicídio no Brasil e Mundo

É comum encontrarmos informações sobre um determinado assunto quando ele ganha grande importância na mídia. É por isso que surgiu a campanha Setembro Amarelo para justamente trazer à tona o diálogo e prevenção do suicídio.

Para se ter uma ideia, 90% dos casos de suicídio poderiam ser evitados por ajuda psicológica. Alguns estudos mostram que a maioria deles são causados por alguma doença mental que não foi tratada porque muita gente não sabe que precisa de tratamento.

De acordo com as estatísticas da OMS (2017), mais de 800 mil pessoas tiram a própria vida a cada ano, o que representa cerca de 2 mortes por minuto. Ela é a segunda maior causa de morte entre jovens de 15 à 29 anos. Aproximadamente 60% desses indivíduos morrem por não buscar ajuda.

Além de ser um evento arrasador na esfera íntima e pessoal, o suicídio também é um grave problema relacionado à saúde pública. De acordo com a OMS (2003), houve um aumento desproporcional nos últimos anos, crescendo cerca de 45% na população mundial.

Sabe-se que a maior parte dos casos são encontrados em regiões da América do Norte e Europa, mas temos um número crescente nos países da América do Sul e América Central (OMS, 2003).

No Brasil, as mortes por suicídio vem aumentando de forma considerável passando a ocupar o posto de uma das principais causas de morte no país. Para se ter ideia, ela é a quarta causa mais comum de morte entre os jovens de 15 à 29 anos (OMS, 2017).

Dados do Ministério da Saúde informam que 11 mil brasileiros por ano praticam o suicídio. Entre 2011 e 2016, 27,8% das lesões autoprovocadas foram por tentativas de suicídio. Cerca de 17% dos brasileiros já pensou seriamente em suicídio e 4,8% deles já elaboraram algum plano para isso. Em relação à situação conjugal, 60,4% das pessoas que cometeram suicídio eram solteiras, divorciadas ou viúvas. E pasme: as mulheres tentaram duas vezes mais que os homens. Porém são os homens que conseguem mais de fato se matar, sendo a terceira causa morte entre o gênero no país.

Uma população expressiva e pouco falada em pesquisa são os idosos: o suicídio é mais prevalente para as pessoas com mais de 70 anos.

Por que o Suicídio?

O Suicídio é o ato de acabar com a própria vida e é um evento muito complexo. As pessoas que elaboram planos, tentam ou cometem o suicídio não tem o objetivo de tirar a própria morte, mas sim acabar com um sofrimento profundo pelo qual está passando e a única saída quem enxergam é através da morte. Este sofrimento pode ocorrer a partir de uma série de eventos traumáticos ao longo das diferentes etapas da vida – infância, juventude, adulta e idosa.

Entende-se que os eventos traumáticos podem marcar de forma negativa o trajeto do indivíduo. Em alguns casos, tais experiências podem levar a pessoa a desenvolver a ideia ou até mesmo tentar o suicídio, cujos fatores de risco dependem de diversos fatores: uma história familiar de comportamentos suicidários; solidão e isolamento social; dependências sociais, físicas, mentais ou de fármacos e alcoolismo; doença terminal acompanhada por dor crônica e problemas sociais, econômicos e desgaste psicológico (Minayo et al., 2018).

Há outras pesquisas que mostram que o desejo suicida está intimamente ligado à um estado de sofrimento que pode surgir a partir de diversas causas: solidão, depressão, enfermidades, problemas conjugais e de relacionamento, dificuldades financeiras, bullying, luto e uso de drogas (Werlang et al., 2004).

As tentativas de suicídio são consideradas as mais frustrantes para a pessoa pois são atos realizados visando amenizar o sofrimento através da morte e que por razões diversas não é alcançado. Elas tem uma forte relação com a presença de transtornos mentais ou comportamentais (depressão, ansiedade etc), problemas de autoestima, dificuldade de enfrentar problemas pessoais, bem como falta de habilidade de gerir as relações interpessoais (Batista et al., 2018).

Em geral, os suicídios são planejados e as pessoas dão sinais, sejam conscientes ou inconscientes. Reconhecer esses sinais e oferecer apoio pode prevenir uma tentativa e começar um novo caminho de superação do sofrimento.

Suicídio, tentativa e ideação: demonstrações de pedidos de ajuda logo no início pode evitar uma grande tristeza lá na frente

Como a ideação e as tentativas de suicídio são estágios que precedem o ato suicida, as políticas de saúde públicas devem ter grande atenção nestes momentos já que a prevenção é o melhor caminho para evitar que o suicídio seja efetivamente praticado (Batista et al., 2018).

A ideação suicida merece muita atenção pois consiste em fator de risco no que se refere aos temperamentos e comportamentos suicidas. Inclusive dados demonstram que 60% das pessoas que chegaram efetivamente a se matar, tinham elaborado a ideia de suicídio previamente (Silva et al., 2006).

Já as tentativas de suicídio atingem proporções cada vez maiores, superando cerca de dez vezes o número de suicídios efetivamente cometidos. A OMS (2003) divulgou que de 15% a 25% das tentativas de suicídio são sucedidas de novas tentativas que ocorrem, em média, um ano após o primeiro atentado e que de 10% a 14% deles conseguem de fato se matar nos anos seguintes (Diekstra, 1993).

A OMS (2014) calcula que para cada suicídio consumado, há cerca de 20 pessoas que o tentam. Apesar da grande relevância, há poucas pesquisas sobre este assunto pois de cada três, apenas uma pessoa é atendida em serviço de urgência que ocorre quando a lesão é muito grave. Após uma tentativa, estima-se que o risco de suicídio aumente em pelo menos cem vezes em relação aos índices presentes na população em geral.

Até o momento, não há uma pesquisa nacional com o objetivo de monitorar a dimensão dessas tentativas de suicídio, sendo que os únicos dados disponíveis são aqueles baseados em amostras de indivíduos que são atendidos nos serviços médicos (Rapeli & Botega, 2005).

Em 2002, a Organização Mundial da Saúde realizou um estudo nos países subdesenvolvidos em que o Brasil era um dos principais participantes. Tomou-se por base a cidade de Campinas e os resultados mostraram que 17,1% dos indivíduos já pensaram em se matar, 4,8% desses elaboraram um plano de suicídio, dos quais 2,8% colocaram o plano em prática. Do total de entrevistados, apenas 1/3 deles foram atendidos pelo serviço de saúde.

Além disso, de acordo com dados do Ministério da Saúde, os profissionais de saúde precisam estar mais preparados para receber essa demanda nas instituições de saúde. Como a maior parte desses profissionais trabalham horas em instituições médicas, salvando vidas, poucos são aqueles que entendem e são tolerantes. O suicídio não é aceito socialmente por ser antinatural e as pessoas acabam tendo dificuldade em falar sobre este assunto seja por ignorância, preconceito ou estigma.

Suicídio não é tabu!

De acordo com a OMS (2014), o suicídio é um evento prevenível e, por isso, é importante delinear estratégias que possam detectar situações que circunscrevem ideações e tentativas, convocando autoridades, profissionais de saúde e sociedade a atuar em prol de uma população com qualidade de vida e apoiada por familiares, amigos e sociedade.

Quanto mais falarmos abertamente sobre tristeza e suicídio, munindo-se de informações e dados, maior será o caminho para a prevenção de um tema de grande importância mundial!

Portanto, falar de comportamento suicida é simultaneamente falar de VIDA!

Referências:

WHO – World Health Organization. The World Health Report 2003: Shaping the future. Geneve. 2003. Disponível em http://www.who.int/whr/2003/media_centre/en/. Acesso em 07/09/2018.

DIEKSTRA, R. F. W. The epidemiology of suicide and parasuicide. Acta Psychiatrica Scandinavica, 371 (Suppl), 9-20, 1993. Disponível em https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/8517187. Acesso em 07/09/2018.

BATISTA, M. D.; MARANHÃO, T. L. G.; OLIVEIRA, G. F. Suicídio em jovens e adolescentes: uma revisão acerca do comportamento suicida, sua principal causa e considerações sobre as formas de prevenção. Revista Multidisciplinar de Psicologia, v. 12, 2018.

WERLANG, B. G.; MACEDO, M. M.; KRUGER, L. L. Perspectiva Psicológica. In: Botega, B. S. G. Werlang (org.). Comportamento Suicida. Porto Alegre: Artmed, 2004.

BOTEGA, N. J.; WERLANG, B. G.; CAIS, C. F. S.; MACEDO, M. M. K. Prevenção do comportamento suicida. Revista de Psicologia, v. 37, 2006.

RAPELI, C. B.; BOTEGA, N. J. Clinical profiles of serious suicide attemters consecutively admitted to a university-based hospital: a cluster analysis study. Revista Brasileira de Psiquiatria. São Paulo, v. 27, 2005.

SILVA, V. F.; OLIVEIRA, H. B.; BOTEGA, N. J.; MARILON-LEON, L.; BARROS, M. B. A.; DALGALARRONDO, P. Fatores associados à ideação suicida na comunidade: um estudos de caso controle. Caderno de Saúde Pública. Rio de Janeiro, v.22, 2006.

MINAYO, M. C. S.; SILVA, R. M.; SOUSA, G. S.; VIEIRA, L. J. E. S.; CALDAS, J. M. P. Ideação e tentativa de suicídio de mulheres idosas no nordeste do Brasil. Revista Brasileira Enfermagem, v. 71, 2018.

Organizacións Mundial de la Salud. OMS. Prevención del suicídio: um imperativo global. Washington. 2014. Disponível em http://www.who.int/mental_health/suicide-prevention/es/. Acesso em 07/09/2018.

Brasil. Ministério da Saúde. Agenda Estratégica de Prevenção do Suicídio: sistema de informação de mortalidade. 2017. Disponível em http://portalarquivos2.saude.gov.br/images/pdf/2017/setembro/21/Coletiva-suicidio-21-09.pdf. Acesso em 07/09/2018.

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