Infelicidade natalina

Dá pra dizer que o mundo se divide entre os que gostam do natal, e os que não gostam. As pessoas podem ser daquelas que não gostam e criticam o natal, geralmente críticas direcionadas ao consumismo, ou podem ser daquelas que gostam, e geralmente quem gostam não fala muito, mas faz, faz decorações, coloca luzes, etc. Claro que há pessoas com afetos mais indiferentes ao natal, essas tendem a ser vistas como pessoas que não gostam também, mas não são pessoas que criticam. Como em tudo a neutralidade não desperta muito interesse, quando se trata da tristeza diante do natal, o que é importante aqui são aqueles que gostam do natal, e aqueles que não gostam.

O natal e a sociedade

O natal é importante, haja vista que estamos inseridos num convívio social, e qualquer coisa que faça as pessoas investirem tanto tempo e recursos quanto o natal se torna automaticamente importante. Até mesmo para os críticos e reclamões o natal está se mostrando importante, não fosse assim também não gastariam seu tempo e não fariam investimentos afetivos ao falar sobre a data. Na psicanálise existe a consciência de que o social tem influência na possibilidade de satisfação, de que a adequação à norma é a grande questão das neuroses, basicamente todo nosso mal estar vem de uma inadequação ao meio, e esse meio, por ser social e histórico está em constante mutação. Inclusive por isso a própria psicanálise está sempre mudando também.

A partir do momento que muitos dão atenção a algo esse algo se torna importante. Com o natal especialmente a atenção se dá tanto pelo gostar quanto pelo não gostar. Olhando de perto, a postura crítica e avessa ao natal diz muito sobre uma rebeldia contra a ordem e contra o podemos chamar de ordenamento social, ou uma lei social. O natal, assim como todo o resto que causa desconforto, é permeado por imperativos. Uma época do ano em que vivemos a pressão social de ser quem somos perante a família, pois estar em família é estar ao mesmo tempo assumindo aquele papel que nos foi designado. E quanto maior o número de familiares por perto, maior será a pressão.

Só uma data consumista?

Uma das críticas mais comuns ao natal é que se trata de um feriado capitalista, consumista, que preza pela venda e pelo comércio acima de tudo. Pode não estar de todo errado, porém estar certo quanto a uma das facetas do natal não vai necessariamente tirar todo o valor da data comemorativa. O natal é feito das sobras e da mistura de diversas festas pagãs, cristãs, com histórias mitológicas, personagens do marketing e também bíblicos. Em suma, o natal é comemorado desde antes do capitalismo. É bem provável e compreensível que o capitalismo tenha usado dele para alimentar o capital, mas o capitalismo tenta fazer o mesmo até com o “dia da tia”, sem o mesmo êxito, é claro. Presentear como forma de demonstração de afeto é algo muito anterior ao capitalismo; e por mais que o consumo sirva a instituições e pessoas que operam na construção de desigualdades e preconceitos sociais, isso não é um problema que pode ser atribuído ao feriado, trata-se de uma crítica ingênua.

No natal casais de namorados vivem o drama de decidir com quem passarão o feriado, e os solteiros vivem o drama de não ter namorado, por mais que não sejam cobrados, a presença de todos os casais na mesa de jantar fala por si. Pessoas com orientação sexual diversa também ficam deslocadas. Num ambiente que reafirma a conservação de valores, o “crescei-vos e multiplicai-vos” é aterrador. É cobrado um relacionamento, depois um casório, filhos, planos, etc. Arrisco dizer que o desconforto do natal está em sermos convocados, frente à família, a ser quem somos, ou a ser o que acreditamos que os outros esperam de nós. Melhor ainda, o desconforto vem de não estarmos certos da nossa capacidade de bancar isso tudo.

Quem somos com a família

Podemos ser quem quisermos durante o ano todo, no trabalho, com amigos e com novos relacionamentos em geral. Porém diante da família ainda seremos aquilo que já aconteceu, mas não cessa de reacontecer, de voltar e nos envergonhar na maioria das vezes. A família conserva não só o estado de coisas, mas também a memória do que mudou, como que numa nostalgia, numa vontade ser o que já foi antes, visto como feliz, pacato e previsível. É confortável pensar que as relações são como eram antes, e nunca mudaram. Nossa vontade de estabilidade e de segurança nos leva a desejar coisas que se levadas a cabo seriam no mínimo aberrantes.

Diante da família somos quem fomos, e somos quem ainda seremos. A família é uma instituição que nos transcende, que agrega tanto histórias felizes quanto tristes e que projeta futuras conquistas. E talvez o natal só seja uma época realmente triste e evocadora de profunda melancolia para aqueles que não estão tão certos sobre seu papel na família. A tristeza do natal pode ser mais profundamente sentida para aqueles desgarrados, a quem as expectativas depositadas não são tão claras, ou não tão esperançosas, ou ainda para aqueles parecem estar num movimento de frustrar tais expectativas.

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