O coronavírus e as questões de família

Tenho ouvido muito no consultório sobre o acúmulo de atividades e responsabilidades dos pais. E aqui faço uma reflexão: como ficam as questões de família em meio à pandemia do novo coronavírus, com o isolamento social?

Famílias isoladas e suas questões

Além de todas as tarefas ligadas ao cuidado da casa, trabalhar de forma remota já pede adaptação dos adultos. Isso tudo sem falar nas aulas online de seus filhos, na forma como ocupam seu tempo e os educam. Essa situação tem exigido muito de todos.

No entanto, não podemos esquecer as questões que já geravam sofrimento nas pessoas antes desse período. As dificuldades de cada família e os sintomas de cada indivíduo são não apenas pertinentes ao período anterior a quarentena, mas também muitas vezes são intensificados durante esta última.

Os adultos, sobrecarregados, esperam que os filhos sejam o mais cooperativos possíveis, que não criem problemas à toa e se adaptem rápido. Os pais, cansados, esperam que seus parceiros atendam aos seus pedidos e façam o máximo.

Mas as dificuldades nas questões de família que enfrentávamos antes, permanecem, às vezes pioram. Ou seja, todos estão sofrendo.

Questões de famílias: crianças e adolescentes

Crianças que já tinham dificuldades com autonomia, dependiam de ajuda para estudar, podem apresentar ainda mais dificuldade agora. Outras crianças com dificuldade sociais, podem se sentir ainda mais isoladas durante esse período.

Comportamentos difíceis de serem compreendidos muitas vezes, como medos, agressividade e retraimentos, não cessam necessariamente agora. Muito menos aquelas crianças que têm dificuldade em estarem a sós, apesar da presença física de seus pais e irmãos.

Os casais que estavam com muitos atritos, podem ficar ainda mais estremecidos e com dificuldade de dialogar, se desencontrando ainda mais.

Situação nova, problemas velhos

Os sintomas permanecem, apesar de vivermos um momento de exceção. O que certamente não é exceção é o fato de que, por sermos humanos, necessariamente sofremos do ponto vista psicológico, mesmo que a presença de uma ameaça física fique apenas no campo da imaginação.

Assim, não podemos esquecer que os medos da morte e as angústias despertadas pelo isolamento não afetam apenas os adultos. Percebo que os adultos falam de seus medos e preocupações sem prestar atenção que as crianças estão ouvindo.

Falam, inclusive, sobre as próprias crianças baixinho, como se elas não estivessem ali perto. Mas elas escutam, percebem e precisam conversar. As crianças sentem tudo que os adultos sentem e ainda mais, mas nem sempre encontram as palavras necessárias ou o espaço seguro para se comunicar.

Questões de família sem aparente solução

A crise de agora intensifica ainda mais as angústias de todos nós. O fato de que muitas vezes as crianças não entendem exatamente o que está se passando nos tempos atuais não deve ser entendido como algo que as alivia em relação a isso.

A falta de sentido, nessas circunstâncias, não é antídoto para nada. Pelo contrário, como todos nós adultos sabemos, grande parte das ansiedades e dos medos quanto à pandemia é a dificuldade em dotá-la de sentido.

Nesse cenário, também é importante pensarmos nos adolescentes e os desafios envolvidos no confinamento deles em casa. Por ser uma fase da vida de muita intensidade e que a necessidade de estar entre pares é urgente, a necessidade de isolamento social é um desafio ainda maior.

Somos todos seres gregários, mas os adolescentes se apoiam ainda mais nas relações que fazem. Os namoros e as amizades fazem falta para os jovens e nem sempre os pais conseguem perceber isso. É um engano considerar a necessidade desses contatos como algo menor em relação ao cenário do que vivemos.

Esse afastamento, especialmente para os adolescentes, aumenta o sofrimento. Além disso, o convívio contínuo em casa já muda a dinâmica no que diz respeito à privacidade e à intimidade, que também são aspectos de preocupação nessa faixa etária. Para cada adolescente, essas mudanças implicam em sensações distintas, que se somam às questões individuais anteriores.

Encontrando a solução em conjunto

Muitas formas de organizar melhor a casa podem ajudar, como rotinas e combinados sobre as tarefas domésticas. No entanto, o mais importante é sermos tolerantes com as dificuldades que permanecem e podem ser agravadas pelo momento em que estamos vivendo.

É necessário manter o diálogo e encontrar formas de se aproximar dos filhos. Poder falar dos sentimentos, compartilhar os medos. Ninguém precisa ser super-herói, mesmo que nem tudo deva ser falado com as crianças.

Falar sobre as dificuldades, trocar experiências, pensar juntos, ainda é a melhor forma de resolver os problemas. Promover a saúde emocional da família é agora mais importante e mais desafiador do que em tempos anteriores.

Avalie esse artigo:

Comentários:

0 Comentários
Inline Feedbacks
View all comments