A perda do sentido da vida e o suicídio

Quando alguém acaba com a própria vida por livre e espontânea vontade, muitas razões podem entrar em foco, mas o que sempre consideramos como motivo mais consistente é a perda do sentido da vida.

Notícias sobre suicídios de jovens sempre causam estranheza, porque muitos acreditam que o reflexo da vida deveria ser o suficiente para sentir-se feliz.

Mas o fato que leva muitos jovens a desistirem de sua existência seria o fardo de viver uma vida dolorosa. Eles “optam” por não viverem mais essas dores, porque o peso da existência se tornaria inexorável.

O sentido da vida e as situações limites

O suicídio surge como uma possível “saída” para aqueles que estão em situações limites com a própria existência.

Estes são confrontados diariamente sobre o valor que têm para o mundo. Acham que, por se tratarem de pessoas tristes, isoladas e abatidas pelo sofrimento, a melhor saída seria a de não “dar trabalho” aos seus entes queridos Assim, pensam que a vida de todos ao seu redor seria melhor sem eles.

Eventualmente, a depressão pode começar quando a pessoa se vê enfrentando obstáculos que à primeira vista são intransponíveis. São eles: perdas de pessoas queridas, términos de relacionamento, sentimento de menos valia (inferioridade), bullying etc.

Nesses casos, o individuo pode até entender racionalmente o mal e a tristeza que o acometem. Mas somente ter consciência do mal não gera uma mudança de padrão, porque estamos falando de uma emoção que só o entendimento não consegue dissolver.

Muitas vezes o que ocorre é que essas pessoas não foram estimuladas a olhar para suas habilidades e características de forma assertiva. Com suas singularidades de ser no mundo, e acabaram perderam a capacidade de sonhar e acreditar em si mesmas.

Quando a vida esvazia-se de sentido e todas as esferas perderam significado, é preciso entrelaçar um diálogo dentro de si e ressignificar aquilo que se partiu.

Um exemplo de busca pelo sentido da vida

No ano de 1942, um jovem médico judeu chamado Viktor Frankl viveu as atrocidades do nazismo nos campos de concentração, totalmente incerto de que voltaria a ver seus entes queridos.

Durante o período em que esteve encarcerado nos campos de concentração, ele começou a explorar o que diferenciava a resiliência em algumas pessoas em suportarem viver aquela vil existência.

Então, concluiu que é preciso assumir a responsabilidade pelo que somos, e isso pode ser uma experiência difícil quando vai de encontro aos paradigmas e ideias pré-concebidas.

Sobre isso, existe um preço a ser pago por assumir aquilo que se é, e isso dá ao indivíduo uma “pseudo” liberdade sobre como lidar com as adversidades da vida.

Vickor Frankin refutava a ideia trazida por Jean Paul Sarte (1905-1980) de que devemos ser corajosos e suportar com bravura a existência que temos.

Ele falava que uma alma em desespero precisa reconhecer a incapacidade que vive para encontrar um propósito.

Nesse ínterim, o desespero seria o sofrimento que não tem sentido, pois o sofrimento com sentido pode ser considerado como uma etapa da vida, um ritual de passagem, um momento da vida que serve para um propósito, e esse proposito daria um impulsionamento para viver.

Reconhecendo seus propósitos

Aceitação exige esforço, já dizia Andrew Solomon, que era um exemplo de pessoa bem sucedida. No entanto, quando parou de tomar seus antidepressivos começou sua busca por uma maneira de morrer.

“Parte do que há de tão venenoso na depressão, quando você vive, é a sensação de que nunca terminará, de que as coisas nunca ficarão melhores” (Andrew Solomon).

É uma “sensação de estar completamente fora de controle“, relatou Solomon. Ele contou sua experiência com a depressão e como os pensamentos destrutivos o perseguiam no livro “O demônio da meia-noite”.

Solomon relata que, muitas vezes, o que somos nos coloca em um local de não aceitação porque aquilo não é bem visto pela sociedade e, de certa forma, até por nós mesmos, pois algo de preconceituoso nos habita dentro do social que há em nós.

Ele escreveu também um livro chamado “Longe da árvore”, que fala sobre as experiências de adversidade de pais com filhos. Essas crianças, contudo, são iguais a todas as outras, só precisam ser amadas em suas particularidades.

Solomon relatou em entrevistas e palestras que hoje, ao se aceitar homossexual, ele consegue conviver melhor com a depressão, ainda que ela “esteja sempre ali”.

Buscando ajuda para encontrar o seu sentido da vida

A terapia não seria nem de longe uma solução mágica para os males humanos. Isso porque cada um carrega a sua dor e como se relaciona com ela, transformando-a em algo pessoal.

Muitas vezes os sintomas são invariavelmente estruturantes, e tirá-los pode levar o paciente ao total caos. Dessa forma, a conduta do profissional será de extremo valor na busca por sentido.

Quando o psiquismo já não precisar daqueles sintomas, ele mesmo vai encontrar outros substitutivos mais adequados. Talvez seja difícil abrir mão dos males que trazem o adoecimento psíquico, pois estão arraigados a muitas crenças pessoais que trazem algum tipo de conforto.

Por isso Hipócrates já dizia “antes de pensar em curar alguém, pergunte-lhe: estás disposto a desistir das coisas que o fizeram adoecer?“.

Avalie esse artigo:

Comentários:

0 Comentários
Inline Feedbacks
View all comments