Por que fazemos o mau?

“Tudo passa – sofrimento, dor, sangue, fome, peste. A espada também passará, mas as estrelas ainda permanecerão quando as sombras de nossa presença e de nossos feitos se tiverem desvanecido da Terra. Não há homem que não saiba disso. Por que então não voltamos nossos olhos para as estrelas? Por quê?” Mikhail Bulgakov – O Exército Branco


Essa citação é a epígrafe do livro O Demônio do Meio-Dia de Andrew Solomon, e nos faz refletir sobre porquê passamos e causamos sofrimentos uns aos outros, sendo que nossa existência é tão breve para ser desperdiçada assim (todos queremos nos dar bem mutuamente, sermos cordiais, respeitosos e felizes nas relações, mas na prática a aceitação parece difícil), e também lembra que na vida há belezas acima das dores, sobre as quais não damos importância igual.


Naturalmente buscamos melhorias e diversificação de condições sobre as quais já estamos adaptados, o que já nos coloca em uma situação provável à insatisfação recorrente, o que não é necessariamente negativo (e talvez, nem positivo – afinal, os outros animais não têm os nossos anseios complexos e nem por isso dá para dizer que vivem pior do que nós). Sobre outros elementos, como inveja, cobiça, fofoca, bullying e correlatos, muitas vezes mascaram sofrimentos provenientes de algum desajuste de quem os manifesta ou são maneiras de se auto afirmar, pois em uma vida em que as dúvidas imperam, certezas são um enorme alívio, dando uma sensação de completude e de sentido. Assim, buscamos certezas sobre nós mesmos, sobre nossos pontos de vista e interesses.


E nesse ponto buscamos algo que fortaleça nossa identidade e opiniões, e acabamos por sentir que quem pensa diferente está errado, ou é uma ameaça à uma convicção construída (o que gera medo), podemos ficar radicais e defender interesses de várias formas, sentindo e causando sofrimentos. Há uma frase que infelizmente não sei o autor, embora tenha pesquisado, que fala que geralmente consideramos louco quem dirige mais rápido do que nós e lesmas aqueles que são mais lentos… ótima metáfora de como podemos a nos considerar uma referência do certo e da coerência.


Eventualmente, isso se manifesta na crítica, nas ofensas, no bullying, em tudo aquilo que diminui o outro, o que funciona como uma forma de se mostrar superior a vítima para os outros e para si mesmo. Claro que se perceber construindo algo sobre si, destruindo algo do outro não é desejado e merece reflexão.


Obs: O livro O Exército Branco é um romance que se passa em Kiev, no ano de 1918 e aborda sofrimentos existenciais decorrentes da Guerra Civil Russa e o Demônio do Meio-Dia debate a depressão pela perspectiva do autor que foi acometido por crises severas desta doença.

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