Psicoterapia versus outras “terapias”

Há algumas semanas, uma empresa importadora de vinhos postou em seu perfil no Instagram uma imagem em que dizia que “Vinho [é] mais barato do que terapia”. Em 2017, a CVC, empresa de viagens, teve uma campanha semelhante, “Eu não preciso de um psicólogo. Só de uma boa viagem!”. Anos antes, a 99Taxis também teve a sua versão, em que alegava “O psicólogo está caro? Converse com o taxista!”. Todas estas empresas, depois, desculparam-se em notas de esclarecimento. Mas todos nós já ouvimos, dissemos ou pensamos coisas semelhantes, comparando fazer compras, conversar com um amigo, comer chocolate ou qualquer outra coisa a fazer terapia, como se fossem atividades equivalentes.

Isso revela que ainda há muita incompreensão sobre o que é a psicoterapia e o processo terapêutico que ocorre no desenvolvimento da relação paciente-psicóloga(o). Às vezes, quando não estamos nos sentindo bem, se estamos com algum problema, ou só tivemos um dia ruim, fazer algo que nos coloca pra cima, nos distrai ou que nos dá prazer e alívio naquele instante, faz com que nos sintamos melhor. Ou seja, estas coisas podem ter efeito terapêutico, pois fazem com que nos sintamos restabelecidos, nos fazem sentir melhores do que instantes antes.

A psicoterapia, no entanto, é um processo mais complexo, que não busca só uma sensação de conforto imediato. O processo terapêutico faz com que nos voltemos a nós mesmos, nosso jeito de ser, de funcionar e de nos relacionar com o mundo e com as outras pessoas. Promove a reflexão sobre nossa própria história, nossos valores e nossas escolhas. Isso tudo, obviamente, não acontece de uma hora pra outra, e nem sempre nos faz sentir aliviados. É algo que pode levar semanas, meses e até anos. Sim, pode demorar mais do que uma ida ao bar, mas as mudanças produzidas também são mais profundas e duradouras.

Algumas pessoas ainda tendem a achar que a psicoterapia, por se estabelecer em forma de diálogo, na maior parte das vezes, é só uma conversa. Ué, conversar o taxista também pode conversar. Ou a vizinha, um amigo ou qualquer outra pessoa. Mas estas conversas não são a mesma “conversa” que acontece na psicoterapia. O (bom) profissional da Psicologia passa a vida estudando, faz cursos, especializações, vai a congressos, lê, faz supervisão e também tem (ou já teve) sua própria psicoterapia. Assim, a escuta deste profissional é uma escuta qualificada, preparada para ouvir e acolher as angústias, desabafos e revelações do paciente sem julgá-lo, recriminá-lo ou culpabilizá-lo. Além disso, é alguém neutro, que está fora das situações que ocorrem no dia a dia, podendo enxergar coisas que quem está no olho do furacão não consegue ver. Apesar disso, não é um profissional “bonzinho”, que vai passar a mão na cabeça e concordar com tudo o que o paciente traz para a sessão. O papel do psi é trazer reflexão, ajudar a construir/descobrir um novo olhar para si e para a vida.

Coisas como viajar, fazer exercícios e ter amigos em quem você confie para desabafar são  importantes e podem nos ajudar a conquistar e manter uma qualidade de vida bacana. Mas atenção: seus efeitos terapêuticos podem ser acréscimos à psicoterapia, porém não são substitutos dela.

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