Escolhas: quantas vezes você escolheu de verdade hoje? Parte 2

Você encontra a Parte 1 deste texto aqui.

Quais das suas escolhas são realmente significativas?

A liberdade de escolhas é algo essencial para nossa autonomia. Entretanto, não são todas as escolhas que realmente contribuem para uma vida livre. Como dito no post anterior, nunca antes tivemos tantas opções dentre as quais escolher. O que vestir, como trabalhar, o que comer, o que assistir, o que ler, quem seguir, plano de saúde, plano de internet, celular, transporte e uma infinidade de outras coisas.

Mas quais dessas escolhas são realmente significativas? Quais ajudam em nosso desenvolvimento? O risco hoje é de investirmos muito tempo e energia em escolhas superficiais e deixarmos de nos dedicar àquelas que realmente importam.

Ter foco é difícil, eu sei

Primeiro que a principal estratégia do marketing é “estar presente”. Tendemos a escolher o que nos é mais familiar. Justamente por isso somos bombardeados com anúncios, nos afogamos numa cascata de branding. Outro ponto é que prestamos atenção ao que os outros fazem. Aprendemos assim desde a infância, por um processo chamado “aprendizagem vicariante”, no qual observamos as pessoas ao nosso redor, às imitamos e adquirimos mais repertório de ações.

Nisso, quando vemos alguém com um novo produto, comportamento ou ideia, adicionamos esta novidade em nossa gama de opções e a consideraremos na próxima vez que formos escolher.

A vida na sociedade moderna é exageradamente carregada de estímulos, principalmente se vivemos numa cidade grande ou acessamos constantemente as mídias digitais. Nossa espécie evoluiu conseguindo reduzir o tempo e a energia dedicada à atenção a tudo o que fazemos. Se você dirige, pense em como foi difícil aprender no início. Sempre consciente, prestando atenção em todos os processos que, depois de certa prática, passaram a ser “automáticos”. O mesmo serve para qualquer outra atividade.

Você acorda todos os dias, desliga o despertador, escova os dentes, toma banho, come alguma coisa, sai de casa. Cada uma dessas ações e a ordem em que você as executa (ou não) foram escolhidas (de alguma forma) em algum momento antes de se tornarem hábitos. O lado bom que certo automatismo traz é que você não precisa todos os dias deliberar essas pequenas coisas. Mas há o risco de naturalizarmos nossos hábitos, não refletirmos e acabarmos seguindo por caminhos que não foram escolhidos por nós. Ou seja, automatismo, como tudo, tem seu lado bom e ruim.

Há até pouco tempo, etnia, sexo, classe social, nacionalidade e outros aspectos que nos recebíamos ao nascer eram como barreiras intransponíveis. Não que atualmente eles não exerçam sua influência, mas é inegável que temos mais fluidez e mobilidade que as gerações anteriores. O que acontece hoje é que a tradição está cada vez mais fraca, e temos que descobrir tudo por nós mesmos. O que antes nos era dado de certa forma, agora precisamos realizar ativamente, criar nossos próprios vínculos. Não estou aqui afirmando que estamos melhor ou pior que antes. Só estou dizendo que é um momento diferente, que traz suas próprias possibilidades e limitações.

Provavelmente muitos de nós não gostaríamos de perder nossas liberdades de escolher, principalmente sobre coisas que consideramos importantes.

Mas até que ponto termos muitas escolhas nos traz benefícios?

Temos que ter em mente que, quanto maior o número de opções, mais esforço é requerido para tomarmos uma decisão. Quanto mais esforço colocamos em algo, maior é a recompensa que esperamos. Mas também é maior a frustração.

“Em cada escolha, uma renúncia”, diz o ditado. Mas quando temos muitas possibilidades, temos que lidar com muitas renúncias em detrimento da opção escolhida. É difícil pesarmos os prós e contras de várias alternativas para posteriormente abandonarmos todos aqueles prós pelos quais não nos decidimos. Consequência disso é não ficarmos felizes com o que escolhemos, e pensarmos que “a grama do vizinho é mais verde que a nossa”. Cada opção nova que surge traz consigo elementos dos quais saberemos que estamos abrindo mão.

Escolher de verdade requer tempo para pensarmos e termos consciência das consequências do que escolhemos. Inclusive para sabermos que nem sempre as opções disponíveis vão nos satisfazer. Infelizmente, nos tempos corridos de hoje, e com todo esse desfile de possibilidades que passam diante de nós requerendo nossa atenção, muita gente simplesmente pega uma delas e fica torcendo para que dê certo. Ou escolhem porque alguém escolheu primeiro. E se isso torna-se um hábito, corremos o risco de agir assim também nas escolhas importantes.

Quando não pensamos em nossas escolhas, ficamos inseguros imaginando se outros caminhos seriam melhores. Uma vida cheia de arrependimentos te impede de ficar feliz mesmo quando você “acerta”. Ficar se martirizando pensando em “como seria se” é sinal de que você fez uma escolha irrefletida. É “desejar sem saber” como falamos em outro momento.

Em meio a tantas escolhas e tão pouco tempo para ponderar, o que podemos fazer?

Deixar que escolham por nós fere profundamente nossa autonomia. Pensar em cada uma das escolhas seria humanamente impossível. Nos resta então “escolher nossas batalhas”. Nossa escolha primordial seria decidirmos quando devemos decidir, e pararmos de gastar energia naquilo que não importa. Para isso, precisamos descobrir quais de nossas escolhas são significativas para nós. O que vai realmente fazer uma diferença em minha vida? O que vai me ajudar de fato a atingir meus objetivos? O que vai me trazer bem-estar? O que me trará realmente as consequências que preciso?

Quando refletimos sobre o que é realmente importante, podemos criar algumas regras que nos ajudam a lidar com as escolhas. Não é ser inflexível, adotando uma postura de teimosia, mas de elaborar um norte. Lembremos que autônomo é “aquele que estabelece suas próprias leis”. Num exemplo prático, se ao avaliar sua vida, você vê que passar em determinada prova é importante, é possível estabelecer a regra de que falhar com compromisso de estudar não lhe serve. Dessa forma, você se poupará toda vez que tiver de escolher entre ficar de preguiça, ir a uma festa, assistir alguma coisa e estudar. Evitará de ficar pensando “e se”, ou ficar negociando consigo quando irá repor aquele tempo. Inclusive te poupará da angústia de estar se divertindo e no fundo estar pensando que deveria estar estudando. Ou a ansiedade de não sentir preparo suficiente quando a data da prova se aproxima.

Lógico, mais fácil falar que fazer. Mas já é um caminho. Ao entendermos o que realmente é importante para nós, paramos de perder tempo com as escolhas banais, podendo nos dedicar às significativas. Tendemos a evitar assim arrependimentos por escolhas impensadas, e frustrações pelas coisas não escolhidas.

Continua aqui:

Parte 3

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