Escolhas: quantas vezes você escolheu de verdade hoje? Parte 1

Eu gostaria de nesse primeiro texto começar questionando sobre escolhas, algo intimamente ligado à autonomia. Nunca na história de nossa espécie tivemos tantas opções dentre as quais escolher como nos dias de hoje. Teoricamente isso implicaria em mais liberdade e autonomia. Mas será que isso ocorre de fato?

Desde coisas simples como marca de shampoo, que roupa usar, ou que série ou filme assistir, ou onde comer, para onde viajar, até que profissão escolher, em que área atuar, ou nos vários apps, com qual crush sair, se casamos ou compramos a tal bicicleta. O quanto você realmente escolhe ou segue o fluxo? De verdade, falando quantitativamente, você sabe quantas escolhas (importantes ou banais) faz ao longo do dia? Garanto que o resultado será surpreendente se você anotar minunciosamente todas as decisões que tomou, começando por desligar o despertador ou colocar no soneca.

A questão das escolhas é tão importante que há linhas filosóficas e psicológicas que as tomam como base. Há vários estudos relacionando comportamento de consumidores ou transtornos de ansiedade a um grande número de escolhas. Há inclusive personalidades como Steve Jobs ou Mark Zuckerberg desenvolveram o hábito pelas mesmas peças de roupa como forma de economizarem nas decisões diárias.

Entretanto, deixando um pouco de lado o caráter quantitativo de nossas escolhas, eu queria lhe convidar para pensar sobre três pontos:

Quais das suas escolhas são realmente significativas?

Quais das suas escolhas você realmente fez?

O que determina suas escolhas?

Para não ficar um post longo, resolvi desmembrar cada uma dessas questões num momento diferente. Mas já dando um pouco de spoilers, falaremos sobre como dentre muitos dos produtos disponíveis, o que muda às vezes é só a embalagem. Que diferentes coisas que assistimos têm a mesma receita pronta, seguindo um formato consagrado. São avalanches de “mais do mesmo”.

Veremos que as escolhas que estão disponíveis dependem de nosso acesso a informação, das formas de transporte, de atitudes governamentais, do nosso poder aquisitivo, de nosso estado de saúde, e muitas outras variáveis das quais nem sempre temos consciência. Há estudos¹, por exemplo, que mostram como um supermercado afeta os hábitos alimentares de sua região por conta de quais produtos ele se propõe a vender.

Contudo, muitas de nossas escolhas têm consequências mais intensas que um cabelo seco ou oleoso, ou o número de temporadas às quais dedicaremos nosso tempo num seriado. Sinal disso é que às vezes vem aquele nó na garganta por não termos nos expressado. Aquela decepção em ter agido de determinada forma somente para agradar alguém. A tristeza de abrir mão de algo que é importante para nós. O arrependimento de ter deixado uma situação ruim permanecer.

O problema é que geralmente nessas ocasiões aquilo que se apresenta como “escolha”, na verdade não o é. Faz parte da atuação daquilo que oprime responsabilizar o oprimido por sua situação ruim. E muitas vezes fazemos uma “escolha” com base em algum medo, seja real ou imaginário. Mas, se o medo é limitante, se somos coagidos por ele, somos privados de nossa autonomia. Consequentemente, não temos como escolher de fato.

“Ninguém é autônomo primeiro para depois decidir²”. Esse processo de nos tornarmos autônomos requer respeito de quem nos cerca, pois eles fazem nossa mediação com o mundo, mas também nos pede tempo e esforço, visto que:

“Ninguém é sujeito da autonomia de ninguém. Por outro lado, ninguém amadurece de repente, aos vinte e cinco anos. A gente vai amadurecendo todo dia, ou não. A autonomia, enquanto amadurecimento do ser para si, é processo, é vir a ser. Não ocorre em data marcada².”

Continua aqui:

Parte 2

Parte 3

Parte 4

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¹Exemplos disso são várias pesquisas nesse sentido foram realizadas pelo Instituto de Pesquisa em Riscos e Sustentabilidade da UFSC.

²FREIRE, P. Pedagogia da Autonomia. Saberes necessários à prática educativa.

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