sentimento de culpa

Sentimento de Culpa – Como lidar?

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Você sabe lidar com o Sentimento de Culpa?

Quantas vezes você deixou de se divertir em uma festa porque pensou que deveria estar na sua casa, estudando para aquela prova? E você, que é mãe, sente de vez em quando aquela sensação de observar que os filhos estão crescendo, mas não consegue acompanhar esse momento tão lindo pois seu trabalho está consumindo muito do seu tempo? E quem nunca se arrependeu por ter falado coisas que não deveria para a pessoa que tanto ama?

Ah, a culpa… aquele sentimento que surge quando nos arrependemos por alguma atitude que tomamos – ou simplesmente quando deixamos de fazer algo e quando percebe o tempo já passou.

Vamos falar um pouco sobre isso?

Culpa: afinal, o que é?

Há uma pesquisa bem interessante de um estudioso chamado Lewis (1971) que diz que o sentimento de culpa é quando nos julgamos negativamente ao acreditarmos que não conseguimos viver de acordo com os nossos próprios padrões ou padrões impostos pela sociedade. Sabe quando a gente passa por uma situação e, ao nos arrependermos por qualquer motivo, queremos sair correndo porque estamos envergonhados? Outras vezes, ao invés de vir o sentimento de vergonha – ou junto à ele – aparece aquela sensação de raiva de si mesmo e/ou da situação, junto com pensamentos do tipo: “Por que eu fiz isso?”.  

Assim como as diferentes emoções que sentimos, a culpa tem uma função adaptativa, ou seja, ela é própria da natureza humana. Há uma região no nosso cérebro chamada Sistema Límbico que é responsável por todos os nossos julgamentos morais e também pela sensação de culpa e vergonha. É quando sentimos aquele misto de preocupação e remorso que faz com que repensemos sobre as nossas atitudes depois que elas foram tomadas. Os psicopatas, por exemplo – que também são conhecidos como sociopatas – não sentem o remorso de ter feito algo ruim para um outro por não ter empatia. Há pesquisas que mostram que há uma certa disfunção na região límbica dessas pessoas que não é ativado o sentimento de culpa. Ao contrário, eles consideram-se como os juízes deles mesmos, não levando em conta o julgamento do outro ou sentimento de vergonha por alguma atitude que tomou. Portanto, se você sente culpa por algo que fez ou deixou de fazer, pense pelo lado positivo: você está no grupo da maior parte dos seres humanos! Saiba que quem sente culpa tem maior capacidade de empatia e conexão com o outro.

Considerando-se seres humanos com um desenvolvimento psicológico saudável, é natural que tenhamos esses sentimentos, muitas vezes seguidos por remorso, raiva e vergonha pois eles nos direcionam para a nossa própria evolução pessoal. E também é importante que eles permaneçam em nós pelo tempo que for necessário para que possam nos servir como um aprendizado.

A pesquisadora Brené Brown (2012) descreve que a culpa é considerada saudável quando nos move em direção à pensamentos e comportamentos positivos. Com ela, podemos criar novas alternativas e saídas para sair daquela situação desconfortável que já aconteceu – e na grande maioria das vezes, não temos controle pois está no passado. Esse tipo de reflexão saudável nos prepara para novas rotas e evitamos que tomemos as mesmas atitudes que tragam novamente o sentimento de culpa novamente. É a sensação de “lições aprendidas” e “vida que segue”.

Por outro lado, a culpa torna-se preocupante quando pensamentos e comportamentos são direcionados de uma maneira que parece não se chegar à lugar nenhum a não ser à autodestruição. Ao cometer um erro, ao invés de pensar “Me desculpe, eu cometi um erro”, a culpa tóxica nos leva a dizer “Me desculpe, eu sou um erro” (Brown, 2012). É aí que o alerta vermelho aparece…

Quando a Culpa torna-se preocupante?

A culpa só se torna preocupante quando nos traz a sensação de que estamos paralisados. É como se a pessoa que se arrepende voltasse todos os seus pensamentos para um ideal constante de negatividade. Pensamentos do tipo “Como eu fui estúpido(a)!” ou “Você nunca vai conseguir mudar mesmo” são alguns exemplos de autodepreciação que, se fixados apenas neles, não trará nenhum tipo de reflexão ou benefício para uma evolução pessoal. Ao invés de impulsionar a pessoa para frente, esses pensamentos a impedem de aceitar qualquer consideração positiva sobre si mesmo.

É claro que, em maior ou menor grau, em algum momento de nossas vidas, nós já nos sentimos culpados dessa maneira. A questão é nos policiarmos para não ficar em um ciclo que nos deixa estáticos e ainda gera muita angústia e muito sofrimento.

Há alguns estudos que investigam os motivos que levam algumas pessoas a não conseguir enxergar uma “luz no fim do túnel” para sair dessa “sensação paralisante”. Um dos possíveis fatores é o grande medo de sentir-se vulnerável. A vulnerabilidade aumenta ainda mais a chance da sensação incômoda de vergonha surgir. É por isso que ficar continuamente remoendo uma situação que já passou é uma forma do ser humano proteger-se de mais uma vez experimentar essa mesma sensação.  

Lewis (1971) comenta que os indivíduos que continuamente remoem o passado possuem medo do descontrole. Seguem a ideia do “não posso jamais errar” como um imperativo de vida – às vezes de forma inconsciente. É como se a sensação de “estar vulnerável” trouxesse um enorme vazio e para isso, cria-se a ilusão de alcançar expectativas impossíveis – imaginárias ou irreais. Uma delas, por exemplo, é a constante busca de alcançar o ideal de “perfeição” e, para isso, precisa estar “sempre certo”. Ora, a vida é formada por uma série de acontecimentos que não podemos controlar! E que bom! Porém, para essas pessoas o diálogo autocrítico é tão forte que para escapar da culpa, buscam encontrar uma justificativa do erro em qualquer lugar (seja no outro ou na situação em si), mas jamais poderão admitir para si mesmo que errou.

Em alguns casos, essa forma de se autodepreciar pode ser tão forte que pode até mesmo causar uma auto-agressão. A raiva sobre si, por exemplo, pode levar uma pessoa a ingerir grandes quantidades de álcool ou drogas como uma forma de amenizar a sensação de vulnerabilidade e falta de controle sobre a vida. Outros ainda podem desenvolver doenças emocionais tais como a depressão. Nesses casos, as pessoas que apresentam essa culpa, continuamente pensam “Eu sou um fracasso” e não “Eu errei dessa vez, mas vou me policiar para que nas próximas eu não cometa o mesmo erro”. Esse tipo de mentalidade voltada para um perfeccionismo prejudicial está altamente ligada à uma dor interior. Elas sofrem e isso é um fato.

Sabemos que todos nós já experimentamos uma situação que sofremos por nos arrepender de algo que fizemos ou deixamos de fazer. A diferença entre cada um de nós está na forma como lidamos com esse sentimento. E essa forma de lidar é aprendida e construída ao longo da nossa vida: desde a nossa infância até os dias de hoje.

Como surge o Sentimento de Culpa?

Muitos pesquisadores estudaram a forma como surge o sentimento de culpa em nós. Alguns seguem uma linha dinâmica enquanto outros tendem a ser mais comportamentais. Independente da teoria, sabe-se que o desenvolvimento da culpa inicia-se na nossa infância a partir das relações que construímos ao longo do tempo com os nossos pais/cuidadores, professores, amigos, entre outros.

Cada uma dessas relações moldam a maneira como a criança vai aprender e interpretar cada ação que toma diante do mundo. Aqueles comportamentos que uma menina desenvolve e que não atendem às expectativas de um adulto, por exemplo, podem ser interpretados com repressões e caras feias. A forma como cada criança lida com a sensação de ansiedade diante de situações como essa, faz com que a personalidade dela seja desenvolvida, assim como a culpa.

Imagine uma situação em que um menino com 5 anos de idade derrama o leite no tapete da sala, acidentalmente. Há duas maneiras da mãe reagir. A primeira delas é olhar para o filho e, mesmo cansada ou chateada, a mãe diz: “Que coisa feia, mas não se preocupe, acontece! Vamos limpar juntos, mas da próxima vez tente ser mais cuidadoso!”. A segunda maneira é a mãe, com raiva e muito cansada, falar para a criança: “Como você é desastroso! Toda a vez é a mesma coisa e parece que você não presta atenção!”.

Veja que no primeiro exemplo, a mãe demonstra que a situação está errada, mas transmite uma certa segurança ao filho. Com isso, o menino tem mais chances de entender que cometeu um erro e refletirá para que nas próximas vezes seja um pouco mais cuidadoso com o leite. Já no segundo exemplo, a mãe está cansada e não consegue saber separar a sua raiva na situação. Se em vários momentos ela permanecer com a mesma reação, há mais chances do filho entender que é realmente um desastrado.  

É claro que isso é apenas um exemplo que ilustra a maneira como a culpa se desenvolve em nós e na maneira lidaremos com ela em diferentes situações no mundo. Lembre-se que versos outros acontecimentos ao longo da nossa vida vão moldar a forma como enfrentamos e enxergamos as situações que nos afetam.

Não há um único fato que resulta na forma como lidamos com a culpa, mas uma série de acontecimentos que, de forma complexa e interligada, forma a maneira de enfrentarmos e enxergamos como somos hoje e como enfrentar as situações. 

Como lidar com a Culpa?

Antes de responder à essas perguntas, vamos à um conceito de uma teoria da Psicologia chamada de Terapia Cognitivo Comportamental (TCC). Quanto mais nos engajamos em certos pensamentos, aumentamos a chance deles permanecerem em nossa rotina. Há muitas pesquisas comprovando o fato de pensamentos tornarem-se hábitos. Embora muitas vezes possamos achar que determinados pensamentos fazem parte da nossa personalidade, sabe-se que temos a competência de mudarmos os nossos pensamentos e, em consequência, os nossos hábitos. O nosso cérebro tem uma grande capacidade de “flexibilidade ou plasticidade”, ou seja, quanto mais nos engajarmos em novos pensamentos e comportamentos, maior a força de criar novas conexões no cérebro. Como resultado, maior a probabilidade de mudarmos os nossos pensamentos e isso influenciará na forma como nos enxergamos o mundo.  

Romper com o ciclo da culpa preocupante e que nos paralisa requer a vontade de estar aberto para um exercício constante de autorreflexão e uma certa dose de otimismo – mesmo que no momento esteja pequeno. Começar a mudar os seus próprios pensamentos e comportamentos diante de situações de culpa contribui para o desenvolvimento da inteligência emocional.

A superação desse ciclo, além de promover uma melhor autoestima e capacidade de expressão, aumenta a nossa a capacidade de empatia com o outro e consigo mesmo. Assim, reduz a vulnerabilidade à raiva e em última análise nos ajuda a viver uma vida mais satisfatória.

Com isso em mente, veja algumas dicas para saber como lidar quando a culpa aparece.  

Observe os seus pensamentos e como você reage à eles

Antes de começar, é preciso entender o que acontece. Quando a culpa vier à tona, pare e observe: como você reage à esse sentimento? Quais pensamentos veem à sua mente? Quais situações que despertam esse sentimento de culpa? Se preferir, faça uma lista com duas colunas. Na primeira, coloque os pensamentos e na segunda, os seus comportamentos e as suas reações. Antes de começar a pensar em alternativas, desenvolva a capacidade de observar de forma atenta como esse sentimento desagradável aparece. Mesmo quando a culpa não aparecer, repare os seus pensamentos diante de diferentes situações por 2 minutos/dia. Com o tempo, esse exercício vai te ajudar a conhecer e estudar os conflitos emocionais, ajudando a investigar o porquê de você se sentir dessa maneira.

Entenda a diferença entre responsabilidade e culpa

Responsabilidade é reconhecer que você é o responsável pelos seus atos. Você reconheceu o fato que errou. O que fazer daqui para frente? Quais são as suas ações de melhorias para evitar o mesmo erro?

A culpa é você sentir que precisa controlar o mundo ao seu redor, não se considerando como um ser humano comete atos que estão sujeitos à erros. Pense que você sempre será o responsável por suas ações, mas não cabe à você culpar-se caso algo venha a dar errado. 

Desenvolva maior compaixão consigo mesmo

É fácil falar, mas difícil fazer… será? Comece a desenvolver um diálogo interno no sentido de começar a aceitar mais a sua própria humanidade, ou seja, reconheça que, como todos os humanos, você tem falhas e fraquezas. Naturalmente, você comete erros e sofre com eles. Pense que você não está sozinho. Todos nós sentimos o mesmo. Desenvolver a compaixão como um antídoto para a culpa requer paciência e compromisso.

Expanda seu vocabulário consigo mesmo

Pode parecer um pouco estranho no começo, mas uma maneira de começar a pensar em algo diferente, é começar a expandir e cultivar um grupo de palavras novas de autoaceitação. No diálogo interno, você pode dizer à si mesmo “Sinto muito pela sua dor” ou “Não há problemas em se sentir o que você sente agora”. Quando estamos abertos ao próprio diálogo de sensibilidade consigo mesmo, reconhecemos e aceitamos as mágoas provocadas por situações traumáticas que aconteceram no passado, por exemplo. É preciso reconhecer que você agiu de acordo com as suas possibilidades naquela situação.

Procure a ajuda de um profissional especializado

Em alguns casos, é muito difícil conseguir enxergar e sair do ciclo paralisante da culpa. Enxergar novas saídas às vezes pode parecer impossível. O psicólogo, um profissional especializado, poderá lhe dar a orientação adequada para te auxiliar a seguir um percurso de autorreflexão e agir diante do problema.

Escreva uma nova história

A partir de um diálogo interno de autoaceitação, com o tempo, você irá perdoar-se por seus sentimentos, pensamentos ou suas ações de autoagressão.

Entender que aconteceu algo ruim no passado e começar a criar uma nova história a partir de hoje, é uma alternativa que você pode querer seguir. Não é esquecer o que aconteceu, ao contrário: é reconhecer o erro e aprender com a situação. Pegue um papel em branco e comece a escrever uma nova história.

Referências
1. Lewis, H. B. Shame and Guilt in Neurosis. Oxford, England: International Universities Press, 1971.
2. Brown, B. A coragem de ser imperfeito. 1ª edição. Editora Sextante, 2012.

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