Será que sou dependente químico? Quem pode me ajudar?

Amplamente utilizado, o termo “dependência química” pode nos atrapalhar a compreender a situação a que ele se refere. Quando falamos em “química”, podemos pensar que a questão é simplesmente biológica: uma substância vem e se instala em nosso corpo, tal como um parasita, e começa a controlá-lo. Este sentido é reforçado pela palavra “dependência”, que aponta para um aprisionamento em que, sem a substância química, o corpo já não pudesse viver.

Seguindo esta lógica, o caráter problemático de um uso exagerado de álcool e outras drogas estaria apenas na relação entre o corpo e a substância. A questão, no entanto, é bem mais complexa.

Em meu livro “Narrativas de usuários de crack: o dizer sobre si e o mundo através do audiovisual”, acompanho o processo de 5 ex-usuários de crack, que contaram suas histórias de vida em vídeo de curta metragem e conversaram comigo sobre esta experiência. Durante a escrita, foi possível perceber que o crack não entrou na vida destas pessoas como algo que contrariava suas histórias de vida; ao contrário, fazia sentido diante das dificuldades psicológicas e sociais que enfrentavam e do entorno social que possuíam. Apareceu como apenas mais um dos (poucos) meios possíveis de agir no mundo, lidar com ele.

Assim, para além de se perguntar se está ou não quimicamente dependente de uma substância, a pessoa que vem fazendo uso abusivo precisa se perguntar sobre suas relações, seu modo de vida. Mesmo quando não apresenta sintomas de abstinência, é importante se perguntar que lugar o consumo tem em sua vida. Ele é algo esporádico, personagem coadjuvante, ou é o personagem principal, aquilo de que jamais se abre mão? Pessoas e oportunidades importantes para mim são deixados de lado porque acabo sempre escolhendo consumir a ponto de ficar sem condições de cumprir outros desejos e compromissos que assumi de bom grado? Estou deixando de buscar melhorar algo em minha vida, e sufoco minha dor de não mudar ficando ébrio?

Caso se perceba, ao tentar responder estas perguntas, que este consumo tem sido desfavorável, é momento de repensar no padrão de consumo e tomar decisões. Caso se decida, por exemplo, que é importante buscar um auxílio para reorganizar este padrão, pode ser que seja necessário consultar uma ou mais especialidades, que contribuam para os diferentes aspectos da questão. Neste sentido, uma possibilidade, embora não a única, é procurar um(a) psicólogo(a), para analisar todas as variáveis envolvidas, compreender a relação estabelecida entre o sujeito, o mundo e a “substância”, e avaliar a necessidade de procurar outros profissionais para agregar ao processo terapêutico.

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