Setembro amarelo: Adolescentes em pauta

A campanha Setembro Amarelo, iniciativa do Centro de Valorização da vida (CVV), uma ONG voltada à prevenção e apoio emocional em relação ao suicídio, desta vez, coloca seu foco no adolescente.

A campanha Setembro Amarelo chama-nos de volta a ocupar nosso lugar.

Qual é esse lugar? O cuidado dos nossos jovens. Mesmo porque, no Brasil, a maior incidência de suicídios ocorre nos jovens entre 15 a 25 anos. Os dados são alarmantes, mas a ideia não é criar pânico, senão sensibilização e medidas preventivas desde a infância.

Para desenvolver medidas preventivas coletivas e promover saúde é necessário conhecer do que estamos falando. Sendo assim, cabe lembrar que a adolescência é uma fase do desenvolvimento caracterizada pela vulnerabilidade emocional e a fragilidade psíquica do jovem. Tristeza, isolamento, desamparo e rebeldia são algumas das emoções mais potentes no psiquismo de um adolescente.

Somado a isso, as mudanças repentinas de uma estado de ânimo a outro, desafiam a maturidade emocional de pais e professores. Talvez seja por isso, pelo mal estar emocional que produzem em nós essas atitudes exacerbadas e mutáveis que, independente da nossa vontade, acabamos abandonando-os e privando-os do suporte e apoio afetivo que tanto precisam.

Compreender e guiar nossos filhos nesta etapa da vida é um das tarefas mais ingratas e mais difíceis. Parece que nunca estão satisfeitos com as nossas propostas, rejeitam sistematicamente nossas solicitações e, apesar dos nossos esforços, dificilmente conseguimos empatizar com suas necessidades reais.

De pequeno era tão amável

Onde é que se perdeu meu filho? Por que meu filho está tão diferente e já não encontra satisfação em nada? Essas são as perguntas mais frequentes que pais de adolescentes trazem ao consultório. De uma hora para outra, aquele menino obediente e alegre apresenta rompantes de raiva, fica desgostoso com tudo o que antes era do seu agrado, briga exageradamente com os irmãos e, frequentemente, encerra-se em seu quarto a chorar.

Todo pai de adolescente já passou por isso e, se você ainda tem filhos pequenos, melhor se prepare, porque logo você também vai passar. A puberdade e a adolescência são as etapas do desenvolvimento humano em que ocorrem as maiores mudanças corporais, psíquicas, e sociais. Mudanças acompanhadas de drásticas turbulências emocionais.

A puberdade refere-se ao conjunto de modificações físicas que transformam o corpo de um indivíduo. O menino e a menina passam, rapidamente, de terem um corpo de criança a um corpo de adulto apto para reproduzir outra vida. A adolescência, por sua parte, é definida como um período psicossociológico caracterizado pela transição entre infância e vida adulta, que conta com a puberdade como base biológica impulsora das mudanças múltiplas que se manifestam em todas as áreas do ser.

Durante toda essa fase, junto às mudanças físicas, também ocorrem as mudanças psíquicas que provocam no jovem confusão e agitação. Como falamos, tristeza, isolamento, desamparo e rebeldia são algumas das emoções mais potentes no psiquismo de um adolescente, todas produto do processo de metamorfose em que se encontra.

Importante ter em conta que tais mudanças são as que induzem ao jovem a estabelecer sua própria identidade, desenvolvendo sua maturidade, responsabilidade social, bem como assumindo novos papéis, em distintos grupos – amigos, escola, namorados, entre outros.

O jovem, na procura de estabelecer sua identidade, ao mesmo tempo em que deseja ser diferente, mimetiza-se com seu grupo. Essa necessidade de identificação faz parte dos critérios que essa fase da vida apresenta. Entretanto, pela falta de informação ou de aceitação, considero que seja essa uma das atitudes do jovem que mais mobiliza a seus pais.

Quando o jovem segue os conselhos dos seus amigos em detrimento das orientações dos pais, os pais sentem-se feridos e acabam estabelecendo, ainda sem desejar, dinâmicas conflitivas que acalentam a ira e induzem ao isolamento do adolescente.

Como é ser adolescente?

Um estudo comparativo sobre adolescência nas diversas culturas, realizado por Knobel, nos fala da “Síndrome normal da Adolescência”, no qual se reconhecem alguns comportamentos exagerados como parte do processo de adolescer.

São parte desta síndrome a busca exacerbada pela liberdade, a busca da identidade, as tendências grupais, querer estar mais com os amigos e consequentemente se afastar da família, a necessidade de intelectualizar e fantasiar, as crises religiosas que o levam a extremos – como adorar demais ou dizer ser ateu, a deslocalização temporal, as manifestações sexuais, as atitudes reivindicatórias, as contradições, querer uma autonomia diante dos pais e ter constantes mudanças de humor.

Adultos: Estamos na hora de mudar!

Diante da falta de conhecimento das características próprias desta difícil fase da vida, frequentemente, pais e professores não conseguem dar o apoio que os jovens necessitam. Alegam sentir-se amedrontados e desafiados pelos comportamentos imprevisíveis e os ataques inesperados por parte de seus filhos e/ou alunos e reagem afastando-se emocionalmente deles. Sendo assim, perdem a oportunidade de tornar-se um porto seguro para o jovem e deixam de estabelecer os limites adequados, fundamentais para dar um norte às vivências conturbadas do jovem.

Negligenciar atenção a um adolescente pode levar a consequências ainda mais graves. Os jovens afastados de seus pais e/ou dos vínculos adultos protetores tendem a procurar refúgio no grupo, no qual buscam identificar-se para conseguir aceitação e aprovação.

Sem ter condições de discernir valores e perigos, em razão da busca pulsional pelo reconhecimento social, o adolescente está propenso a transgressões que podem desencadear problemas físicos, psíquicos, espirituais e até legais. Todavia, como falamos no começo, o risco de acabar com a própria vida.

Por isso é fundamental considerar a vulnerabilidade do jovem nessa fase da vida e preparar-se para responder habilmente a suas demandas. Tarefa nada fácil, pois as atitudes hostis do adolescente espelham nossas próprias limitações de amor.

Com seu jeito irreverente o adolescente nos mostra a importância de rever valores e paradigmas, de exercitar a tolerância, de flexibilizar crenças e amolecer a afetividade, de insistir no diálogo e no respeito mútuo e, acima de tudo, confiar no poder do amor.

Grande abraço e boa reflexão!

Patricia Ingrasiotano

Psicóloga

CRP 12/14102

WhatsApp (47) 99604-0403

Perfil Vittude: https://www.vittude.com/psicologo/patricia-maria-ingrasiotano

Referências

DUPLATT, T. C. Adolescência…Bicho Papão?. Jornal on line Tema Livre Disponível em: <http://www.facom.ufba.br/com112_2000_1/esperteen/adolescente.htm> Acesso em: 20 mar. 2019.

KNOBEL, M. Síndrome da adolescência normal. In: ABERASTURY, A. & KNOBEL, M. Adolescência normal. 9ª ed. Porto Alegre, Artes Médicas, 1981.

OUTERIAL, José O. ADOLESCER: estudos revisados sobre adolescência. 2. ed. Rio de Janeiro, RJ: Revinter, 2003.

SANTOS, M. S. Psicologia do Desenvolvimento teorias e temas contemporâneos. Brasília: Liber Livro, 2009.

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