Sexualidade em Psicanálise. É muito mais amplo do que parece!

Sexualidade em Psicanálise. É muito mais amplo do que parece!

Sexualidade é um termo em que, quase sempre que citado, comentado, expressado, gera uma conexão ou referência direta com a perspectiva da genitalidade, do sexo em seu ato propriamente dito. Entretanto, quando abordamos o tema da sexualidade em psicanálise com esse foco reduzimos toda a amplitude que esse extenso conceito nos possibilita abordar. A perspectiva do ato sexual, e a relação da sexualidade e a genitalidade são sim, importantes, mas não podem receber um rótulo totalitarista, levando a compreensão para um entendimento equivocado, preconceituoso e limitado. Impossibilitando, inclusive a discussão do tema em contexto que ainda encaram o tema como tabu.

È necessário elevar o olhar a um ponto que se permita pensar na ideia de sexualidade, num contexto bem mais amplo, num lugar conceitual como uma grande energia que direciona, impulsiona nossa vida. Uma energia que circula, perambula, corre para dentro e para fora do corpo do sujeito na busca de encontros e desencontros com objetos de desejos, significados e significantes.

A distinção entre sexual e genital

Um exemplo magnífico dessa energia libidinal que perambula pelo sujeito é uma cena do filme Bonequinha de luxo em que Audrey Hepburn, logo no início do filme, para em frente a uma vitrine da loja de Joias da Tiffany e observa uma joia. A luz do refletor iluminando a joia na vitrine, enaltece sua beleza que pelo olhar de Audrey, torna-se seu objeto, não de propriedade, mas de desejo. Ela para, olha, mexe sua cabeça e continua a olhar. Muda de expressão, inspira e come o Donuts, que está na sacola em sua mão. Olha mais uma vez a joia e vai embora comendo seu Donuts e tomando seu café com a boca cheia e as duas mãos ocupadas.

Podemos claramente perceber que não há nada de genital nessa cena. Entretanto, se analisarmos, há muito de sexual. Da sexualidade que Freud nos traz em seu conceito, da libido e de desejos circulantes que inclusive, passeiam, permeiam e norteiam a constituição do sujeito que, teórica e didaticamente, chamamos de fases de desenvolvimento psicossexuais.

O desejo de Audrey pela joia, é indubitável, entretanto também o é inalcançável. O objeto exposto na vitrine, gerou uma demanda de desejo. O desejo dela em adquirir aquele objeto. Esse desejo precisa ser descarregado de alguma forma em algum lugar. O circular da libido, possibilita a Audrey descarregar essa energia em suas rosquinhas e café, que ocupam o vazio de suas mãos. Então através da oralidade, regida pelo princípio do prazer, ela come algo que lhe satisfaz, proporciona prazer bem como a vazão de um desejo que até então não pode ser descarregado em seu objeto original(adquirir a jóia).

Podemos inclusive dizer, levando em consideração essa cena que deseja-se o inalcançável e goza-se como possível.

Mas reforço que nesse caso, nada de genital entrou em jogo. O que estava em jogo nesta cena era algo muito maior, responsável por reger a vida de Audrey(no caso a personagem que ela interpretava, Holly Golightly). Nada impede, entretanto, que essa descarga possa ser complementada num outro momento por ela, sim, num ato sexual genital.

A descarga de energia estimulada pelo desejo

É importante observar que a tendência é de se buscar uma descarga imediata da energia gerada ou estimulada pelo objeto de desejo. Levando em consideração que somos regidos pelo princípio do prazer, é interessante observar também, a forte correspondência com essa afirmação que, na cena, Audrey sequer sai da frente da jóia para começar a comer. Mas começa a comer as rosquinhas ainda olhando para a jóia. De maneira que não haja tempo para que entre em contato com a frustração do desejo não correspondido. E assim descarrega-o logo, proporcionando imediatamente sua satisfação. Pela oralidade: ao comer e beber.

Esse é apenas um exemplo para ilustrarmos a amplitude da teoria, que em contrapartida está longe de ser uma explicação completa sobre a sexualidade, mas espero poder elucidar ao retirar a visão da concentração única e equivocadamente no foco da genitalidade.

Obviamente que à partir desse conceito teremos uma série de desdobramentos, inclusive, o desenvolvimento de neuroses, baseadas nas fixações que o desenvolvimento psicossexual do sujeito irá possibilitar de acordo com sua evolução e maneira como cada um relaciona com cada fase de desenvolvimento.

Tentando consolidar a idéia aqui apresentada em uma espécie de resumo ou conclusão, podemos dizer que o conceito da sexualidade em psicanálise, então, é algo na função de uma energia que circula, regida por um princípio de prazer e norteada pelas noções de realidade, normas, regras e leis da sociedade que foram apresentadas ao sujeito. O conceito da sexualidade tem a ver com desejos, objetivos de vida e prazeres que podem estar tanto na ordem do sexo genital como da energia libidinal sexual que erotiza e eroginiza as diferentes partes do corpo. Podem também ser descarregadas em um ambiente, contextos sociais e culturais, aquisição de bens e materiais, atitudes, trabalho, carreira, posicionamentos e ações sociais, filantrópicos, artísticos e etc. ( Afinal, tudo isso pode ser objeto de desejo e descarga da energia libidinal, dependendo da maneira como o sujeito fantasia as relações com seus desejos e neuroses.)

Levando em consideração tudo o que foi aqui abordado, espero poder ter elucidado que o conceito de sexualidade em psicanálise é bem amplo e não pode ser abordado em uma perspectiva reducionista. A Psicanálise é o inverso disso. É libertária, é livre, é ampla. E um conceito tão complexo e belo como esse, precisa ser compreendido e receber o valor que lhe cabe na contribuição que pode proporcionar para evolução e compreensão do sujeito em toda sua amplitude.

Obrigado.

Fábio Bertacini. 

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