Suicídio juvenil

Suicídio Juvenil

Discorrer sobre suicídio na adolescência é uma necessidade. Primeiramente, as estatísticas apresentam um aumento mundial nessa taxa ao longo dos últimos anos, apontando que os jovens passaram a se suicidar mais que os adultos com idade acima de 45 anos, sendo o suicídio a segunda causa de morte na faixa etária dos 15─29 anos (Psic, 2011; WHO, 2014). Nesse contexto, atentar-se para os modos de ser e viver a juventude é importante, pois a adolescência costuma ser marcada por modificações biopsicossociais que podem ser acompanhadas de conflitos e angústias (Abasse, Oliveira, Silva, & Souza, 2009; Hildebrandt, Zart, & Leite, 2011; Pisani et al., 2012).

Suicídio juvenil: o ápice de uma ideia

Assim, ter, ocasionalmente, ideias suicidas no período da adolescência não é anormal, uma vez que pode ser considerada parte do processo evolutivo, pois o intento suicida pode ser uma forma encontrada pelo jovem para solucionar imaginariamente problemas existenciais. No entanto, é importante ter clareza do que se torna patológico na adolescência e o suicídio é um tema de particular importância nesse sentido (Borges & Werlang, 2006; WHO, 2014).

A depressão, a ideação ou a tentativa prévia de suicídio são considerados como os principais preditores para o suicídio juvenil (Botega et al., 2005; Hawton, Saunders, & O’Connor, 2012; Psic, 2011). Dessa forma, acredita-se que em mais de 50% dos suicídios entre adolescentes a depressão estava presente e, destes, 25% realizaram o intento suicida prévio, dentre os quais 15% consumaram o ato (Pisani et al., 2012).  Além disso, estima-se que em meio à população total de crianças e adolescentes, 40% já tiveram alguma ideação suicida compreendida como séria ao longo da vida e 60% dos que consumaram o suicídio, idealizaram-no previamente. Assim, o ato suicida é visto como a finalização de um processo que se fortalece diariamente (Marquetti, Kawauchi, & Pleffken, 2015; Silva et al., 2006).

Sinais comportamentais

Para lidar com a questão, o Ministério da Saúde brasileiro já destacou que uma das maneiras mais eficazes para prevenir o suicídio é por meio da identificação de sinais comportamentais (crenças e comportamentos em determinados contextos), os quais indicariam o risco de uma atitude suicida (Marquetti et al., 2015).  Nesse contexto, a literatura mostra que são usualmente circunstâncias/contextos de risco para o suicídio juvenil: a baixa autoestima/sentimento de inadequação, separação dos pais/conflitos familiares, desilusão amorosa/ término de namoro e a opressão e vitimização pelo grupo (bullying) (Araújo, Vieira, & Coutinho, 2010; Gonçalves, Freitas, & Sequeira, 2011; Hawton et al., 2012; Hildebrandt et al., 2011).

Aliado aos contextos de maior ocorrência das tentativas e do suicídio propriamente dito, alguns fatores considerados suicidógenos na adolescência apontados pela literatura são: a carência do suporte familiar, escolar e profissional, a impulsividade/desespero e ideias de morte. Assim, acredita-se que, em contextos considerados de risco, a existência desses fatores aumenta a probabilidade do ato suicida, demonstrando que há mais de um problema em cada suicídio, bem como riscos cumulativos (Pisani et al., 2012; Borges & Werlang, 2006).

Investigando o suicídio juvenil

Estudos na temática também fazem o uso do termo “suicídio contagioso” para se referir ao suicídio na adolescência. Essa concepção pressupõe que o comportamento suicida pode ser aprendido por meio de imitação, sugerindo que aqueles que conhecem alguém que se matou tenderiam a ter mais pensamentos suicidas do que os que não tiveram tal conhecimento (Aquino, 2009; Waiselfisz, 2014). Assim, considerando essa possível relação, o contato com contextos (reais ou imaginários) do suicídio pode ser considerado uma via de análise da probabilidade de tentativa, pois isso permitiria avaliar a crença dos indivíduos diante da situação experienciada por algum outro próximo ou parecido consigo.

Ao se investigar tal aspecto, especialmente em contextos imaginados, torna-se factível identificar crenças que estariam mais ou menos fortemente associadas à crença de plausibilidade do comportamento suicida em cada contexto, objetivando entender como eles avaliam, explicam o ato de um outro indivíduo que tenha tentado (com ou sem sucesso) o suicídio. Entende-se por crença desejos que guiam e moldam a ação humana, seria uma indicação mais ou menos segura de se encontrar estabelecido algum hábito que determinará as ações (Peirce, 1877).

Fatores suicidógenos e contextos facilitadores

No que se refere ao suicídio na adolescência, acredita-se que a crença favorável ou não a esse ato pode ser ativada pelo contexto social ao qual o individuo está inserido, compreendendo-o como possível resposta a um conflito entre crenças para a vida e para a morte (Aquino, 2009). Logo, acredita-se que a crença de maior ou menor favorabilidade em relação ao suicídio pode ser influenciada por diferentes fatores suicidógenos e contextos facilitadores desse comportamento, ou seja, em determinadas situações, o indivíduo pode avaliar como mais justificável (crença favorável) ou menos justificável (crença desfavorável) o ato suicida de outrem. Isso pode ajudar a entender seu próprio comportamento perante uma possível tentativa de suicídio, pois ele pode se encontrar (no presente ou no futuro) em uma situação similar àquela que julgou compreensível a tentativa de suicídio de outra pessoa.

Suicício juvenil – Referências Bibliográficas

Parte 1

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Parte 2

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