Terapia: como isso funciona?

Terapia: como isso funciona?

Resolvi escrever esse texto para falar um pouco de uma das principais dúvidas que as pessoas costumam ter quando se fala em buscar um psicólogo/terapia: como uma terapia funciona? É a mesma coisa conversar com um psicólogo e conversar com meu amigo, um padre ou coisa do tipo?

Como nossa profissão ainda é muito “novinha” (foi regulamentada no Brasil só em 1962) essa dúvida é muito compreensível. Por isso resolvi falar um pouco disso usando um filme muito bom, chamado “Um senhor estagiário” (“The intern”, Warner Bros, 2015). Se você não assistiu ainda, recomendo fortemente que assista. Sempre gostei muito de assistir filmes e ler, e acho que esse filme pode ajudar a deixar as coisas um pouco mais claras.

ATENÇÃO: Tentei não revelar muito da trama, para não prejudicar quem quiser assistir ao filme em algum outro momento. Porém, mesmo assim, este texto contém spoilers. Caso ainda não tenha assistido o filme, considere esse alerta com carinho. 

 

Antes da terapia, um pouco de história

 

Era uma vez um simpático senhor aposentado chamado Ben Whittaker (Robert De Niro). Ben trabalhou durante muitos anos em uma fábrica de listas telefônicas, mas depois da sua aposentadoria vive se sentindo meio cansado de não ter uma rotina fixa, conversar com pessoas diferentes, enfim, como ele mesmo diz: “[…] quero me sentir necessário”. Até que, andando pela rua, Ben encontra um folheto com uma chamada para “Estagiários Seniores” numa empresa que abriu recentemente em seu bairro. Ele se candidata, é admitido e passa a trabalhar nessa empresa como assistente pessoal de Jules Ostin (Anne Hathaway).

Jules é a fundadora da empresa, que apesar de ter apenas 18 meses de existência já conta com mais de 200 funcionários. Com uma rotina atarefada e cheia de compromissos, a trama apresenta várias dificuldades que Jules tem que lidar, mas quero destacar especialmente nesse texto o fato de que os investidores da empresa que ela mesma fundou estarem requisitando a contratação de um CEO, alguém que tomaria as decisões da empresa no lugar dela, que iria decidir os próximos passos de seu próprio negócio.

Essa situação tira a paz de Jules. Ela sente que pode cuidar de sua empresa, mas parece faltar aquela convicção pessoal de que realmente é capaz disso. Isso a deixa muito fragilizada… Ela tem outras dificuldades relacionadas a sua família, e somadas, as situações do trabalho a deixam cansada e desanimada. Assim, as dificuldades no trabalho afetam a relação familiar, que se desgasta ainda mais e afeta seu desempenho no trabalho, que faz com que os diretores sugiram a contratação do CEO.

Confiança sendo trabalhada

Pausa: Você já reparou como as várias partes da nossa vida se influenciam? Às vezes estamos irritados ou tristes, as pessoas perguntam o porquê e às vezes não sabemos responder direito, são tantas as coisas que passam na nossa cabeça e nada está muito claro pra gente. Esse era o caso de Jules.

Voltando. É aqui que nosso bom e velho Ben Whittaker entra nessa história mais uma vez. Já contei que ele foi admitido como assistente pessoal de Jules, certo? Pois bem, ele vai convivendo com ela, conhecendo melhor suas qualidades, mesmo que num primeiro momento ela se mostrasse meio resistente quanto a presença dele por ali. Talvez tivesse medo de uma relação mais íntima, não sei. Elas assustam mesmo… Mas isso é só uma hipótese. O fato é que ao longo do tempo Jules passa a confiar em Ben, e a relação deles se fortalece com base nessa confiança.

E é aí que uma coisa muito interessante começa a acontecer: Ben, ao conhecer melhor Jules, vê o seu potencial e acredita nesse potencial, mesmo quando Jules duvida de si mesma e de suas capacidades. Essa crença nela, somada à presença constante de Ben e suas palavras e atitudes realmente interessadas em Jules vão formando uma espécie de base, na qual Jules pode se lançar, se projetar, e começar a ver melhor as diversas situações pelas quais ela está passando. Isso permite a ela crer em si mesma. A partir disso ela encontra uma saída para seus dilemas, escolhendo não contratar o CEO, porque agora, mais calma e com a situação vista de forma mais clara, ela vê que dá conta do seu cargo e das suas obrigações.

 

Mas o que tudo isso tem a ver com terapia?

 

Bom, do meu ponto de vista, tudo.

A relação de Ben e Jules se desenvolve com base no respeito mútuo, na confiança e na empatia. É isso que se busca em terapia num primeiro momento: que profissional e paciente estabeleçam uma relação de confiança onde possam juntos buscar o melhor para a vida do paciente.

Outro ponto importante é que Ben está presente ao lado de Jules com um interesse genuíno nela, e nas dificuldades que ela vem apresentando. Ele é muito paciente e acolhedor, sabe quando ela permite (e se permite, necessita) que a relação dos dois vá se desenvolvendo, se aprofundando. Ele respeita o tempo dela sem se deixar abalar pela indiferença inicial de Jules. Um terapeuta nato, meu caro Whatson.

Paralelos do filme com a terapia

Uma sacada muito boa do filme, e que dificilmente acontece numa relação de amizade comum, é que Ben não usa de sua vida ou suas experiências como uma régua para medir a vida de Jules. Ele “caminha” com ela com base nas necessidades dela, e não com base no que ele acha importante. Outro paralelo com a terapia: nela, não existe algo como “se eu fosse você, faria isso”, porque essa não é a questão. A questão é apoiar o paciente em suas dificuldades sem a necessidade de impor convicções ou opiniões próprias do profissional.

Quando se consegue uma relação assim, é possível dar espaço para que a pessoa em questão (o paciente, ou no caso do filme, Jules) possa se encontrar. Diferente de uma relação comum, uma conversa com os amigos ou coisa parecida, em terapia o trabalho é voltado para o paciente a partir do que o próprio paciente traz. Esse é um exercício lindo! Em terapia não se julga ou aconselha com base nos valores próprios do terapeuta, mas se constrói uma relação sólida onde as dificuldades pessoais do paciente podem ser ouvidas, acolhidas e analisadas, e a partir disso, o paciente pode retomar uma caminhada muitas vezes interrompida pelas dificuldades da vida.

 

Concluindo

Você conseguiu perceber a sutileza da relação entre Ben e Jules? Cada detalhe faz com que ela confie mais nele e possa utilizar a relação dos dois para trilhar um novo rumo. Eu acredito que essa seja uma boa alegoria para a relação terapêutica e para o funcionamento de uma terapia.

É claro que cada terapia é única e diferente das outras, porque cada paciente é único e tem uma história de vida particular, mas esse processo de construção da relação baseada no respeito ao tempo do outro, na confiança e no interesse verdadeiro é algo que acontece em todos os processos, e é essa a raiz de toda terapia bem sucedida. Isso, é claro, do meu ponto de vista.

Queria agradecer pelo seu interesse de ter ficado até aqui comigo nessa história. Espero que com essa pequena explicação eu tenha deixado mais claro algo que muitas vezes não pode ser explicado. Contudo, precisa ser vivido para ser um pouquinho compreendido.

Se você ficou com alguma dúvida, meu contato está lá no perfil, sinta-se à vontade para mandar uma mensagem, ficarei muito feliz em falar com você.

 

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