Perda de uma pessoa querida

Reflexões sobre a perda de uma pessoa querida

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O expediente de sexta-feira chega ao fim, após uma semana cansativa. Chego em casa e decido deixar o celular de lado. Uma forma de me presentear com alguns minutos livres do smartphone e do mundo hiperconectado.

Lembro do celular, procuro por ele na bolsa e vejo várias chamadas não atendidas. Algo parece errado nesta noite. Vejo as chamadas perdidas e um monte de mensagens no whatsapp. De repente uma notícia parece não ser real. Uma mensagem dos meus pais pedindo que eu ligasse em casa e informando o falecimento de uma tia querida. As pernas ficam trêmulas, o coração palpita e as lágrimas correm instantâneamente.

Uma notícia ruim

Ligo para casa e percebo que ninguém sabe exatamente o que falar. As notícias são desencontradas, tudo parece não passar de um pesadelo. Infelizmente, não era um sonho ruim. Era real. Uma das pessoas mais doces, fortes e de fé inabalável que já conheci não estava mais entre nós.

As horas que se seguem são tumultuadas. Tentativas frustradas de comprar uma passagem aérea somam-se às preocupações com meus pais que estão distantes. Meu pai, ilhado em sua cidade de interior, já havia concluído que não conseguiria estar junto de seus outros irmãos neste momento triste. Depois de muitas tentativas concluo que também não conseguiria me deslocar e fico presa aos meus pensamentos.

Meus pensamentos são perturbadores. Vejo diversas fotos da família e me pergunto por que ficamos tanto tempo distantes? Por que não organizamos um encontro? Reflito, diante da morte, que a vida é curta. E que sim, a única certeza neste plano é de que a morte é certa

Como elaborar a perda e o luto

Apesar de inevitável, a morte não é discutida em nosso dia a dia. Nos limitamos a pensar nela, somente quando ela é fato através da partida de uma pessoa querida.

Elaborar uma perda não é um processo fácil. Cada indivíduo processa o luto de uma maneira diferente. Alguns choram, se questionam, se arrependem de terem ou não feito alguma determinada coisa. Podemos simplesmente nos entregar à tristeza, ao arrependimento e sucumbir. Por outro lado, é preciso ser forte para apoiar quem precisa do nosso colo e das nossas palavras de conforto.

Particularmente não sabia se chorava ou se ficava forte. Me questionam, era uma pessoa próxima? Tenho mais vontade ainda de chorar. Apesar do imenso carinho que sinto, me dou conta de quanto tempo estive distante. O excesso de trabalho, a falta de tempo e o frenesi das nossas próprias rotinas e cobranças nos fazem por vezes ficar longe de quem amamos.

E eu, que no último ano decidi dedicar  tempo a compreender a psicologia, me pergunto o que sempre questiono aos outros. Você tem parado para se ouvir?

A elaboração psicológica do luto

A elaboração psicológica do luto está atrelada à maneira como um grupo social pensa sobre a morte e se comporta diante dela. Em uma cultura que vê a morte de modo tranquilo, como parte da ordem natural das coisas, por exemplo, os lutos tendem a ser menos sofridos. Em outra cultura que percebe a morte como o afastamento indesejável de alguém querido, o luto costuma ser doloroso, com sentimentos intensos.

Freud, em sua obra “Luto e melancolia”, afirma que a pessoa enlutada tem algumas características marcantes: o desânimo profundo e penoso, a perda de interesse pelo mundo externo, a perda da capacidade de amar e a redução de suas atividades ao mínimo necessário. Estas características se devem ao fato de o enlutado estar voltado para seu próprio sofrimento, que faz com que ele se interesse por poucas coisas além daquilo que está sentindo. O mundo do enlutado parece, portanto, vazio e pouco interessante. As características do luto são reações não-patológicas à perda sofrida, e tendem a desaparecer naturalmente com o tempo.

O papel do tempo

Realmente, o tempo é capaz de suavizar as dores e fazer ressignificar a vida.

As questões relativas à morte estão completamente fora do conhecimento humano. Nunca se sabe quando a morte chegará para cada um.

Portanto, deixo aqui minha reflexão, diante da perda. Porque não aproveitamos a vida? De que vale tanto tempo preso aos afazeres, à rotina e ao trabalho

Que façamos de cada dia algo com sentido e baseado em nossos valores. Que possamos compartilhar nossas pequenas vitórias, como a de estar respirando e com saúde, com aqueles que amamos e que realmente são importantes para o nosso caminhar.

 

Tatiana Pimenta é CEO e fundadora da Vittude. Neste 11 de novembro, perdeu uma tia muito querida.

 

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Tatiana Pimenta

CEO e Fundadora da Vittude. É apaixonada por psicologia e comportamento humano, sendo grande estudiosa de temas como Psicologia Positiva e os impactos da felicidade na saúde física e mental. Cursou The Science of Happiness pela University of California, Berkley. É maratonista e praticante de Mindfulness. Encontrou na corrida de rua e na meditação fontes de disciplina, foco, felicidade e produtividade.