Mulher triste, aprendendo a lidar com tristeza,

Não existem mais pessoas tristes

Não existem mais pessoas tristes
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Por que pessoas tristes não existem mais? Ao passear por Instragram, Facebook e redes sociais de modo geral, o que mais vemos são posts de momentos felizes, celebrações, comentários exaltando alegria. E onde estão o sofrimento, a tristeza, o “baixo astral”? Não existem mais?

A dor incomoda. O ser humano, claro, não gosta de senti-la, seja ela física, emocional, psíquica. Mas tampouco consegue lidar com a alheia. Por um lado há aquele sentimento de “estou melhor do que tal pessoa”, que traz alívio. Por outro há um estranhamento e uma sensação ruim que logo faz com que os que estão à volta, em contato, comecem a consolar, a achar coisas positivas que tirem o indivíduo dessa posição.

Curtidas para sair do baixo astral

A sociedade impõe padrões onde todos têm que estar bem, felizes, contentes. Se não estiverem, postem alguma coisa do gênero (por mais bobas que sejam as publicações). Algumas “curtidas” os farão sentir bem, e aquilo que está incomodando, tirando dessa posição de eterna satisfação, esconde-se de você mesmo, em um lugar que não é visitado. Mas essas “sujeiras” varridas para baixo do tapete, alguma hora formarão um morro. Formarão um elevado tão grande que, mesmo encobertas, acabarão por se mostrar. E aí? O que fazer nessa hora, já que falar sobre tristeza é feio, é desagradável e ninguém quer ouvir?

Pois é, nessa hora, as pessoas vêem que estão sozinhas, pois mesmo com muitos amigos nas redes sociais (a maioria nem cumprimentaria caso cruzasse seu caminho na rua), não há com quem dividir sentimentos. Nessa hora, os amigos de verdade (aqueles que tiverem disponibilidade, estado cada vez mais raro de encontrar hoje em dia) são bons ouvidos. Mas ouvidos que ficam  desconfortáveis, que não conseguem sustentar uma tristeza, uma insatisfação, uma dor alheia. E, com isso, partem para o consolo ou o “deixa disso”. E aquele que está mal, que sofre, não encontra respaldo. Até poderá se contentar com o que ouviu e, pelo menos, por um tempo ficar consolado.

Mas mesmo que inconscientemente sinta, bem no interior, sem perceber na razão, pode vir aquela sensação de não poder sentir, de não ter esse direito de ficar triste. E isso, vamos ser sinceros, não é nada saudável, não é nada bom, a pessoa fica sentindo-se pior ainda. Mal porque não está feliz e mal porque não se sente nesse direito, de sentir-se para baixo. Por que não mais podemos sentir tristeza?

Tristeza que se transforma em angústia

Aí vem aquela sensação ruim, que é chamada de angústia. Aquele momento de vazio, de não saber, de ter algo que incomoda e que não se sabe como lidar, pois não se sabe o que é. E isso assusta! Assusta porque é um sentir que brota, sem controle. Algo que jorra de dentro, sobre o qual não há controle. É um sentir sem objeto, sem se saber a causa. Mas será que a causa não é justamente esse não pode sentir tristeza? Esse eterno “tenho que ser feliz” ou ao menos demonstrar que sou?

tristeza pessoas

Mesmo em meio à multidão, muita gente se vê sozinha e não consegue dividir seu sentimento de tristeza

Aprendendo a lidar com sentimentos verdadeiros

Mas a angústia vem, e o que fazer com ela? Como lidar com o sentimento, já que não estamos habituados a fazê-lo? Então, vamos falar sobre ela? Vamos conhecê-la? Vamos investigá-la? Vamos dar voz a ela? Vamos sentir! E vamos deixar que sintam. E vamos aprender a lidar com ela! Que tal sair dessa máscara, dessa performance e ser e demonstrar aquilo que realmente é verdadeiro? Esse verdadeiro, tão íntimo, tão escondido, que é tão desconhecido… Mas é o que há de mais real em cada um…Não é importante conhecer?

Não se trata de uma “ode à tristeza”, mas uma “ode ao sentir”. O que seria do belo se não fosse o feio? Como saberíamos reconhecê-lo? Se tudo é feliz, se tudo é alegre, onde está o seu oposto? Se ele não existe, a felicidade tampouco. Sejamos nós mesmos, com todos os defeitos e as qualidades, para que possam haver relacionamentos, para que possam haver trocas de fato, para que as pessoas se relacionem realmente umas com as outras, com suas complexidades, com suas alternâncias.Permitamos, respeitemos! Se não o fizermos, ao menor sinal de problema, no momento em que o que é sempre agradável mostrar uma face diferente, não saberemos como lidar, e, o que acontece com frequência, relacionamentos se desfazem.

É um caminho, uma trilha, com percalços e, sim, com tristezas, mas com um desfecho positivo, feliz. E sobretudo com respeito ao que há de mais inato ao ser humano: o sentir.

Letícia Rangel é psicóloga e psicanalista parceira da Vittude. Ela atende adolescentes e adultos. Marque já sua consulta!

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