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Suicídio. Infelizmente aconteceu… E agora?

  |  Tempo de leitura: 6 minutos

O Setembro Amarelo chama a atenção para a prevenção ao suicídio. Infelizmente, em algumas situações a tragédia acontece. Entra em cena a posvenção, ou seja, os cuidados com os sobreviventes.

Sabemos das fases apresentadas pela Dra. Kübler-Ross, que se aplicam a diversos tipos de perda. Elas podem ocorrer em qualquer ordem ou mesmo não ocorrer:

  • Negação: “Isto não pode estar acontecendo.”
  • Raiva: “Por que comigo? Não é justo.”
  • Negociação: “Deixe-me viver apenas até ver.”
  • Depressão: “Estou tão triste.”
  • Aceitação: “Vai ficar tudo bem.”; “Eu não consigo lutar contra isto, é melhor preparar-me.”

São fases para a elaboração dos vínculos afetivos rompidos.

Trata-se de tema de difícil abordagem, pois o tabu social sobre suicídio afasta o assunto de nossos pensamentos e conversas, atuando inclusive sobre os profissionais de saúde.

Enfrentar a morte significa considerar o desconhecido e o medo provocado pelas incertezas. Um medo universal. Entretanto, o suicídio vai além. Fragmenta vidas, acarreta uma maior gama de sentimentos e apresenta situações distintas e delicadas para os sobreviventes.

A imagem

Se nos dias de hoje a morte é antisséptica, limpa, assistida, às vezes esperada, e acontece quase sempre no hospital, já no suicídio, o quadro é outro.

A família se depara com imagens trágicas, que maculam locais até então comuns. Aquele banheiro, aquela estação, aquele prédio, passam a ser marcados com tristeza e morte.

Algo que se preferiria privado, pois fala de nossa dor íntima, explode no domínio público. Não morreu conosco. Se jogou do prédio. Teve polícia, TV, curiosos.

A idade

Cada sobrevivente possui sua história, sua personalidade, suas visões de mundo. Dependendo de sua idade no momento do suicídio, poderá nem ter acesso ao que aconteceu. Poderá conseguir lidar melhor ou pior – o impacto será diferente em cada momento do desenvolvimento humano.

A raiva

Afloram diversos motivos para a raiva. Um sobrevivente comenta que seu pai foi vítima de um assassinato. E ele próprio foi o assassino.

Abandonou a família, será que nunca nos amou? Quem éramos para ele? Como num ataque cardíaco, não há adeus. É como se a pessoa nos tivesse deixado falando sozinhos, simplesmente virado o rosto para nós e ido embora.

E algumas pessoas ainda utilizam o suicídio como última retaliação, uma arma apontada para os sobreviventes. Acaba com o sofrimento de quem se matou, e quem fica?

A culpa

Por que não percebemos? Fizemos todo o possível? Naquele exato dia, tínhamos uma prova, um encontro, ou simplesmente, cansados, não fomos auxiliar. E agora? Fomos nós que causamos? O que faltou?

E quando surge a sensação de alívio, de que o sofrimento da família terminou? É correto, é justo?

A vergonha

Algumas religiões punem os suicidas na outra vida e até proíbem os ritos de passagem. São Tomás de Aquino sustenta que o homem não tem esse direito, vai contra o sexto mandamento (“Não matarás”). Um velório em que cochichos têm um tema constante… O que será que houve? Ou pior, cada um dizendo suas teorias. Ocultamento, distanciamento e fuga se tornam evidentes.

Provavelmente, a dinâmica da família já se caracterizava como disfuncional e, nesse momento, tudo é exposto a todos. Os problemas, antes restritos ao lar, se tornam públicos. Querendo ou não, a família é obrigada a ter consciência de seus relacionamentos inadequados.

O estigma

O sobrevivente passa, num processo dolorido e que não foi causado por ele, de pessoa normal, a “parente de louco”. Muitas vezes, relacionamentos são desfeitos, estereótipos se formam no trabalho, as amizades se alteram.

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O tema suicídio aparece no filme “Como eu era antes de você”, mexendo com toda a família do personagem Will

As referências

Quanto conheci de quem se foi? O que faço, quais hábitos, quais posturas aprendi? Irei me matar também? Serei um bom pai? Ou uma boa mãe? São bons ou maus exemplos? O modelo de vida do suicida se desqualifica. Acusações e comparações que serão uma provável constante na vida dos sobreviventes.

Os papéis

A família se reestrutura, se reconfigura. Tios viram pais, avós viram pai e mãe. Quem comprava o pão, quem ia ao supermercado, quem buscava crianças na escola, quem trabalhava – os papéis na família se transformam profundamente. Muitas vezes, maiores responsabilidades são impostas a cada um.

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O medo

A retirada abrupta do suicida de nosso convívio pode ficar marcada em nossas memórias e nos levar a perguntar sempre quem mais irá nos abandonar. Fica difícil deixar o filho ir sozinho para a escola, o cônjuge viajar a negócios, até mesmo nós ficarmos sozinhos.

O segredo que ronda o suicídio

Surge um silêncio na família e nos amigos sobre o assunto. Fotos são perdidas, a existência do suicida é praticamente negada, seu suicídio é escondido. Sua história e o que representava, se perdem no tempo. Mas antes era importante na família. Como excluí-lo?

Muitas perguntas, o que fazer?

O suicídio não decorre de uma única causa. É um acontecer, que concretiza e finaliza um processo de sofrimento individual e coletivo. Poderíamos até dizer que é uma soberania do homem em relação a sua existência.

O luto exige muito respeito pela dor e situação. Ocorre um lento processo de cicatrização, com a percepção e responsabilização sobre o controle da vida, redimensionamento dos papéis, criação de nova identidade, reconhecimento da dor, dos riscos envolvidos em viver. Meu nascimento é um fato, a minha morte também o será.

Aqui, a partilha de sentimentos com um psicólogo será bem útil. Perceber os “e se?” que permaneceram, falar das consequências da morte, enfrentar as perguntas sem respostas, as explicações sem comprovações, as ausências de familiares e amigos, lidar com especulações sobre a vida do que se matou e o que se poderia ter feito…

PARA SABER MAIS

Suicídio e Luto: Histórias de Filhos Sobreviventes, entre outros trabalhos da Dra. Karina Okajima Fukumitsu, apresenta diversas reflexões confortantes. Também Crise Suicida, do Dr. Neury José Botega, amplia as condições de avaliação e manejo, sendo uma importante referência para os profissionais de saúde.

Artigo revisado em: 25/10/2019

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Tatiana Pimenta

CEO e Fundadora da Vittude. É apaixonada por psicologia e comportamento humano, sendo grande estudiosa de temas como Psicologia Positiva e os impactos da felicidade na saúde física e mental. Cursou The Science of Happiness pela University of California, Berkley. É maratonista e praticante de Mindfulness. Encontrou na corrida de rua e na meditação fontes de disciplina, foco, felicidade e produtividade.