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Suicídio: como prevenir este ato?

De acordo com a Organização Mundial da Saúde (OMS), são registrados mais de 700 mil suicídios por ano em todo o mundo. Isso sem contar os casos subnotificados, que ainda são muitos.

Apenas no Brasil são por volta de 14 mil casos ao ano, ou seja, uma média de 38 pessoas tirando a própria vida todos os dias.

Dados alarmantes como estes só têm um lado bom: reforçar a importância de falarmos sobre suicídio com normalidade para que as pessoas saibam quando e como procurar ajuda. E este artigo é uma das maneiras mais práticas e rápidas de se informar sobre o assunto, vamos lá?

O que é o suicídio?

O suicídio é definido como um ato deliberado executado pela própria pessoa, de forma intencional e consciente, com o objetivo de tirar a própria vida.

Por mais que o suicídio provoque choque, tristeza, culpa e muitos outros sentimentos, o mais importante é ter clareza de que se trata de um fenômeno possível de prevenir. Um indivíduo não decide se matar da noite para o dia, há todo um processo que, infelizmente, muitas vezes passa despercebido por amigos e familiares.

Quanto mais informação sobre assunto, menos tabus e estereótipos existirão sobre o tema e, assim, mais casos tristes desse tipo serão evitados.

Os principais fatores de risco do suicídio

Conhecer os fatores de risco, ou seja, que aumentam as chances de uma pessoa tirar a própria vida, é fundamental. São eles:

  • Tentativa prévia, pois pessoas que já tentaram se matar têm de 5 a 6 vezes mais risco de tentar outra vez;
  • Praticamente todos os indivíduos que tiram a própria vida convivem com algum transtorno mental, em muitos casos não diagnosticados ou tratados da maneira adequada;
  • Vivências de eventos estressantes, como a perda de um ente querido, serviço militar, problemas financeiros etc;
  • Abuso de substâncias, como álcool e drogas;
  • Ter uma condição médica que possa estar associada à depressão, por exemplo, doenças terminais;
  • Histórico familiar de transtornos mentais, abuso de substâncias, casos de suicídio;
  • Ter um transtorno psiquiátrico subjacente, como depressão grave, bipolaridade ou esquizofrenia;
  • Pessoas que sofrem com ambientes hostis devido à sua orientação sexual;
  • Casos de bullying.

O que são ideações suicidas?

As ideações suicidas nada mais são do que pensamentos ou o ato de planejar tirar a própria vida. Podem ser ideias passageiras ou um plano detalhado.

Os sinais de alerta nem sempre são claros, pois algumas pessoas deixam suas intenções escondidas. No geral, no entanto, há alguns sintomas que ajudam a identificar quando alguém está com ideações suicidas. São eles:

  • Falar sobre suicídio, fazendo declarações como “gostaria de estar morto”, “queria não ter nascido” ou “vou me matar”;
  • Isolamento social;
  • Mudanças de humor repentinas, com oscilações entre altos e baixos;
  • Buscar meios de tirar a própria vida, como comprar armas ou remédios;
  • Preocupação excessiva com a morte;
  • Abuso de álcool ou drogas;
  • Distribuir seus pertences ou colocar negócios em ordem sem razão lógica e aparente para isso;
  • Mudanças na rotina, como padrões de alimentação ou sono;
  • Sentimento de estar preso e sem esperança em relação a uma situação;
  • Fazer coisas arriscadas ou autodestrutivas, como dirigir de forma imprudente;
  • Dizer adeus para as pessoas como se não fosse mais vê-las;
  • Mudanças de personalidade ou sinais de ansiedade ou agitação extrema.

É preciso ter em mente que não é porque uma pessoa fala sobre suicídio que está querendo chamar a atenção. Longe disso! 

Ninguém fala sobre tirar a própria vida dessa forma se não estiver em profundo sofrimento, por isso, é preciso levar a sério se um parente ou amigo começar a demonstrar os sintomas citados acima.

A situação só poderá ser prevenida se as medidas necessárias forem tomadas a tempo.

Quais são as principais causas do suicídio?

O suicídio tem como causas uma combinação de fatores, no entanto, os transtornos mentais estão presentes na maioria dos casos. 

Em seguida, confira mais detalhes sobre o que pode desencadear o ato de tirar a própria vida:

1. Depressão

A depressão é uma doença psiquiátrica crônica e recorrente, marcada pela tristeza profunda e sentimento de desesperança. Infelizmente, quando o caso é grave e não é tratado, pode levar ao suicídio.

Isso costuma acontecer porque o indivíduo costuma conviver com sentimentos de culpa e a sensação de que seus problemas não têm solução, sendo a morte o único caminho para acabar com o sofrimento.

2. Problemas familiares ou amorosos

A perda de entes queridos ou conflitos frequentes com pessoas próximas também podem ser um fator desencadeante que, se não for cuidado, posteriormente é capaz de desencadear transtornos mentais e levar ao suicídio.

Esse tipo de situação pode gerar tristeza e angústia intensas, além de reações impulsivas. 

3. Uso de drogas ou alcoolismo

A utilização de drogas e álcool é capaz de ocasionar o suicídio por afetarem a capacidade de julgamento e o comportamento da pessoa. As substâncias muitas vezes são consumidas em excesso para “esquecer” os problemas e evitar o contato com sentimentos de angústias.

Essa intoxicação, em alguns casos, faz com que a pessoa perca a noção do que está fazendo e se envolva em acidentes e outras situações perigosas que colocam a vida em risco.

4. Bullying

O bullying é muito comum na infância e na adolescência, e acontece quando um indivíduo é intimidado ou assediado continuamente, seja por meio de palavras, comportamentos ou mensagens.

Nem sempre quem está ao redor percebe as graves consequências do bullying, até porque muitas vezes acontece disfarçado de brincadeiras.

As provocações costumam deixar marcas na saúde mental das vítimas, que sofrem com insegurança, baixa autoestima e timidez. Em alguns casos, o adoecimento mental pode levar às ideações suicidas, pois o bullying fortalece os sentimentos de exclusão e desvalorização, fazendo com que procurem na morte uma saída para o sofrimento.

5. Traumas emocionais

Traumas emocionais decorrentes de situações de intenso estresse, como violência física ou acidentes, podem desencadear o suicídio.

É comum que o indivíduo se sinta culpado, estressado e ansioso ao recordar os eventos passados que geraram o trauma. Se não receber o tratamento adequado, os sintomas crescem a ponto de não conseguir lidar com a dor e buscar uma saída na morte.

6. Diagnóstico de doenças

Alguns diagnósticos de doenças físicas, como câncer e HIV, são capazes de gerar emoções bastante negativas, como tristeza e desesperança, podendo desencadear um quadro de depressão profunda.

Assim, se não for tratado adequadamente, o caso pode evoluir para ideações suicidas.

7. Esquizofrenia

A esquizofrenia se trata de um transtorno psiquiátrico que causa alucinações, confusão mental e delírios.

O transtorno afeta 1% da população mundial, contribuindo com mais de 10% dos casos de suicídio. O diagnóstico e tratamento adequados são fundamentais para controlar os sintomas e prevenir quadros em que o paciente tenta tirar a própria vida.

8. Transtorno bipolar

O transtorno bipolar é a doença mental que mais causa suicídios. Entre 30% e 50% dos portadores brasileiros tentam tirar a própria vida, sendo que 20% alcançam o objetivo.

A pessoa com bipolaridade convive com episódios de alternância entre depressão e euforia. As crises podem variar em termos de frequência, duração e intensidade de acordo com o subtipo da bipolaridade.

O facetas do suicídio em diferentes fases da vida

O suicídio pode ocorrer em qualquer idade, independentemente de gênero, classe social ou raça.

No caso de crianças e adolescentes, o assunto se torna ainda mais delicado, afinal, se trata de alguém muito jovem pensando em tirar a própria vida. Mas é necessário reforçar que muitos problemas de saúde mental podem aparecer até mesmo antes dos 14 anos de idade.

O número de suicídios jovens no Brasil, aumentou muito nos últimos anos. De acordo com dados do Sistema de Informação sobre Mortalidade, do Ministério da Saúde, de 2016 a 2021, a taxa de mortalidade por cem mil relacionada a essa causa aumentou 45% na faixa de 10 a 14 anos e 49,3% de 15 a 19 anos.

É muito importante que os pais ou guardiões legais dessas crianças e adolescentes prestem atenção em mudanças de comportamento, como alterações no sono ou peso, tristeza constante, isolamento social, perda de prazer em fazer atividades, entre outros.

Também é fundamental ficar de olho na possibilidade do indivíduo estar sofrendo algum tipo de bullying no ambiente escolar, afinal, esse é um fator de risco para o suicídio.

Por outro lado, em uma faixa etária bem mais elevada, há muitos casos de idosos que também tiram a própria vida, até mesmo usando meios mais letais do que os jovens. No Brasil, a média de casos é de 7,8 a cada 100 mil, o que é superior à população geral.

No caso dessa parcela da população, a motivação para o suicídio pode estar muito atrelada ao luto pela perda de pessoas próximas, limitações físicas e o isolamento social. A falta de rede de apoio, solidão e depressão são fatores de alto risco.

Por isso, é tão importante olhar com cuidado para a saúde mental dos idosos. São indivíduos que estão em uma fase muito desafiadora também, afinal, precisam aceitar uma nova realidade e lidar com o fato de que a vida está chegando ao fim.

Como ajudar alguém com risco de suicídio?

Identificar os sinais de ideações suicidas não é simples, mas a partir do momento em que você entende que alguém próximo está pensando em se matar, o que fazer?

Essa etapa também é fundamental, pois amigos e familiares desempenham um papel importante na prevenção.

Para auxiliar alguém que está vivenciando essa situação tão grave, é importante fazer o seguinte:

1. Conversar sem julgamentos

A comunicação transparente e sem julgamentos é muito importante se o objetivo é ajudar quem está passando por esse momento tão difícil e prevenir o ato de tirar a própria vida.

A abordagem deve ser acolhedora e empática sendo essencial demonstrar interesse em escutar e ajudar.

Nesses casos, vale entender quais são as melhores perguntas para se fazer a fim de entender em que fase do processo a pessoa em sofrimento está. Lembrando que, para chegar ao estágio de tirar a própria vida, ela já atingiu um estado de desesperança muito grande em que acredita que nenhum tratamento será capaz de resolver.

A recomendação é que essas conversas aconteçam em locais fechados, em ambientes confortáveis, que transmitam segurança para que o diálogo possa acontecer com naturalidade.

Também é muito importante evitar expressões que diminuam o que o outro está sentindo ou que o façam se sentir ainda mais culpado, por exemplo:

  • “Isso não é nada”;
  • “Tem gente em situação muito pior”;
  • “Não avisei que isso ia acontecer?”;
  • “Foi você quem procurou isso”.

2. Prestar atenção aos sinais

Em boa parte dos casos é possível identificar uma progressão, ou seja, um caminho que conduz a pessoa desde a ideação até a sua efetivação.

No começo, não há necessariamente a ideia clara de se matar, mas um pensamento vago sobre como seria melhor morrer. Em seguida, vem a ideação, ou seja, o pensamento de tirar a própria vida a fim de aliviar o sofrimento e, enfim, pesquisas sobre como fazer isso.

Inclusive, não é incomum que a pessoa comunique de alguma forma os amigos e familiares antes de realizar o ato.

Todo esse processo pode ser interrompido se houver o tratamento médico e psicológico adequado. O mais importante aqui é que as pessoas entendam que perguntar sobre o suicídio não induz quem está sofrendo a cometer o ato, na realidade, é uma forma de demonstrar acolhimento e auxílio.

3. Encaminhar para suporte profissional

Caso o indivíduo com ideações suicidas ainda não esteja em tratamento, outra forma de ajudar é, a partir das conversas, se oferecer para acompanhá-lo às consultas com médicos e psicólogos.

Para algumas pessoas, é muito difícil fazer o tratamento sem o suporte de amigos e familiares. Além disso, visto que existe muito preconceito sobre o assunto, alguns ficam receosos em tomar remédios ou fazer terapia.

Vale a pena explicar que nada disso é um problema e que é necessário para voltar a se sentir saudável e feliz. Caso haja muita resistência em procurar ajuda especializada, é importante conversar com profissionais da saúde para entender como conduzir o caso da melhor forma possível.

Como prevenir o suicídio?

Apesar de ser uma situação bastante grave quando uma pessoa chega a pensar ou tentar tirar a própria vida, há formas de prevenção e tratamento até mesmo para evitar que se atinja este ponto.

Aqui vão algumas orientações importantes:

Acesso à informação

Informação é a ponta do iceberg. Enquanto boa parte da população não souber o que está por trás do suicídio, as pessoas continuarão achando que é “coisa de louco” e estigmatizando que sofre com o problema.

A normalização da pauta é o ponto central aqui e gera um efeito cascata. Afinal, quanto mais informação, maior é a conscientização e mais pessoas buscam tratamento (além de conseguirem ajudar umas às outras).

Campanhas de conscientização

O Setembro Amarelo é a principal campanha de conscientização e prevenção ao suicídio.

Infelizmente, o assunto ainda é um grande tabu e muitas pessoas acreditam que evitar falar faz com que o problema não exista. Pelo contrário: deixar de falar contribui para que mais pessoas sofram em silêncio e deixem de buscar ajuda.

Campanhas como essa são fundamentais para gerar conversas relevantes e colocar o holofote na questão para que mais gente procure ajuda.

Acesso ao tratamento adequado

Pessoas que têm ideias suicidas ou chegam a executar a tentativa de tirar a própria vida o fazem porque, na maioria dos casos, estão sofrendo com um transtorno mental que altera radicalmente a sua percepção da realidade.

O excesso de sofrimento faz com que a atitude seja tomada porque o indivíduo não enxerga mais nenhuma solução para a sua situação. Portanto, ter acesso ao tratamento é fundamental para prevenir esse tipo de ato.

Boa parte dos casos poderia ser evitada se as vítimas recebessem ajuda, tanto de profissionais especializados como de parentes ou amigos.

Mas é importante se lembrar de que a busca por tratamento passa pelo passo anterior que é o acesso à informação e, é claro, a eliminação de tabus sobre o assunto. Isso porque muita gente, sem o diagnóstico adequado, não tem clareza sobre o que está enfrentando, além de lutarem contra a vergonha por se sentirem dessa forma.

Terapia

A terapia, por sua vez, é outra ferramenta importante quando se fala sobre prevenção e tratamento.

Ao oferecer um espaço de acolhimento, o psicólogo é um profissional capacitado para oferecer o suporte necessário a fim de conduzir o paciente rumo à construção de uma vida mais saudável e equilibrada. 

Ao longo das sessões, são trabalhadas as questões que causam perturbação, dor e angústia com o objetivo de entender as causas, gatilhos e padrões de comportamento.

Assim, com o passar do tempo, e em conjunto com outras ações (como hábitos saudáveis e medicação psiquiátrica), é possível se reequilibrar novamente.

A terapia, no entanto, não precisa (e não deve) ser abandonada assim que os problemas são trabalhados e solucionados. Em muitos casos, o acompanhamento contínuo por muitos anos é recomendado para evitar recaídas e, é claro, garantir o suporte emocional e psicológico necessário que o paciente precisa para viver melhor.

Centro de valorização da Vida (CVV)

O CVV é um instrumento poderoso na prevenção ao suicídio, pois se trata de um número no qual as pessoas podem lugar para conversar com voluntários.

Não é um trabalho de diagnóstico, aconselhamento e muito menos julgamento. O papel dos voluntários é apenas ouvir e, por meio da conversa, indicar possibilidades de suporte específico e gratuito para que o indivíduo busque ajuda.

Informar para cuidar, diagnosticar e tratar

De acordo com a OMS, 90% dos casos de suicídio poderiam ser evitados, ou seja, há esperanças.

Conforme você aprendeu ao longo deste artigo, o suicídio se trata de algo extremamente complexo, com diversas causas e prejuízos, mas a boa notícia é que pode ser evitado.

Tudo começa com o acesso à informação e aos cuidados com a saúde mental. A partir disso, é possível superar tabus sobre o tema para chegar a um diagnóstico e tratamento adequados.

Dessa forma, com responsabilidade, empatia e seriedade, há a possibilidade de reverter o quadro e garantir uma vida longa mesmo a quem já pensou um dia em tirar a própria vida.

Gostou deste artigo? Continue lendo conteúdos sobre saúde mental no blog da Vittude.

Bruna Cosenza

Escritora, produtora de conteúdo freelancer e LinkedIn Top Voice 2019. Autora de "Sentimentos em comum" e "Lola & Benjamin", escreve para inspirar as pessoas a tornarem seus sonhos reais para que tenham uma vida mais significativa.

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