Burnout como doença do trabalho: indenizações e novas práticas
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10 de fevereiro de 2022 | 6 min de leitura
Saúde Mental

Burnout como doença do trabalho: indenizações e novas práticas

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Em janeiro de 2022, a síndrome de burnout foi oficializada como uma condição de saúde mental atrelada ao trabalho de acordo com a 11ª Revisão da Classificação Internacional de Doenças (CID-11), da Organização Mundial da Saúde. Com isso, passa integrar a categoria de doenças ocupacionais.

Esta mudança é muito importante por dois motivos. Primeiramente, o transtorno ganha visibilidade e passa a ser levado mais a sério pelas pessoas. E, além disso, a partir de agora as empresas deverão ter mais responsabilidades e cuidados com o bem-estar dos colaboradores.

No Brasil, a estimativa é de que por volta de 32% da população sofra com o esgotamento mental ocasionado pelas condições de trabalho. Para entender o que muda na realidade das organizações com a nova classificação da OMS, continue a leitura deste artigo!

O que é a síndrome de burnout?

Antes de qualquer coisa, é necessário entender sobre o que se trata o burnout. É um distúrbio psíquico de estresse físico e mental crônico provocado por condições de trabalho desgastantes. Portanto, se caracteriza pelo acúmulo de estresse e tensão no dia a dia profissional.

É sempre muito importante ressaltar que o burnout está relacionado somente a fenômenos do contexto de trabalho e não deve ser utilizado para se referir a questões em outras esferas da vida.

Entre os gatilhos mais comuns que podem desencadear o distúrbio, podemos citar:

  • carga de trabalho excessiva, com muitas horas extras;
  • metas inatingíveis;
  • excesso de responsabilidades;
  • falta de autonomia;
  • muitos conflitos;
  • ausência de justiça;
  • chefes abusivos.

Quais são os sintomas do burnout?

Muitas pessoas confundem o burnout com o estresse, por isso é importante fazer essa diferenciação para evitar a ideia de que o transtorno é apenas um cansaço passageiro.

O estresse é a forma que o corpo reage diante de várias situações que exigem grande esforço emocional. O problema ocorre quando as situações estressantes não são superadas, tornando-se frequentes ou prolongadas. O estresse não é uma doença, mas pode ser um gatilho. Além disso, diferentemente do burnout, é decorrente de questões relacionadas a diversas esferas da vida, não se limitando somente ao contexto profissional.

Há três elementos principais que caracterizam o burnout que são importantes para diferenciá-lo do estresse:

  • exaustão: sensação de que a pessoa está indo além dos limites e não tem mais recursos físicos e emocionais para lidar com conflitos e situações do trabalho;
  • ineficácia: sentimento de incompetência, em que a pessoa se sente desqualificada, sem reconhecimento e improdutiva;
  • ceticismo: postura negativa diante de dificuldades e falta de interesse e preocupação com o trabalho.

Além disso, é preciso ficar de olho nos seguintes sintomas:

  • cansaço extremo físico e mental;
  • alterações bruscas de humor;
  • irritabilidade;
  • insônia;
  • dor de cabeça frequente;
  • dificuldade de concentração;
  • mudanças no apetite;
  • agressividade;
  • presenteísmo;
  • absenteísmo;
  • baixa autoestima;
  • dores musculares;
  • cansaço;
  • sudorese;
  • palpitação.

O que muda para as empresas a partir de agora?

Agora que o burnout integra a categoria de doenças ocupacionais, algumas mudanças importantes acontecerão dentro das organizações. O reconhecimento pela OMS tem um efeito direto em processos trabalhistas relacionados ao transtorno e caso o colaborador opte por recorrer à Justiça, a empresa pode ser responsabilizada e até mesmo pagar indenização.

Por mais que essa implicação de responsabilidade já acontecesse, era um processo bem difícil. A ideia é que, a partir de agora, seja mais simples para o funcionário lutar pelos seus direitos.

Na Justiça, o processo de responsabilização da empresa será avaliado a partir dos seguintes pontos:

  • laudo médico que comprove o diagnóstico de burnout;
  • histórico do profissional;
  • avaliação do ambiente de trabalho por meio de relatos de testemunhas e provas de degradação emocional e fatores que causam o transtorno, como assédio moral, metas inatingíveis e carga excessiva de trabalho.

Além disso, do mesmo jeito que respondem por indicadores de acidentes de trabalho,  as empresas passarão a responder por casos de burnout para acionistas, investidores e para a matriz. E esse é um ponto que mexe muito com a reputação da organização.

Como as empresas devem lidar com o burnout?

Até então, o burnout preocupava as empresas somente pela falta de engajamento, queda da produtividade e turnover. Agora, além disso, a questão também contempla fatores de riscos financeiros e jurídicos.

Tudo isso pode impactar a imagem da empresa diante do mercado, interferindo negativamente na atração e retenção de talentos, além de reduzir o interesse de possíveis investidores.

Por isso, é necessário que as empresas se posicionem em relação à saúde mental dos colaboradores e coloquem em práticas iniciativas que visem oferecer condições de trabalho mais saudáveis.

Apesar das discussões sobre cuidados com a saúde mental terem ganhado visibilidade com a pandemia, pesquisas revelam que a realidade ainda é difícil: 64% dos trabalhadores não têm acesso a programas corporativos e benefícios voltados para a saúde mental.

Hoje, é muito comum as empresas colocarem salas coloridas, escorregadores e jogos no escritório para garantir um dia a dia divertido. Mas é preciso reforçar que esse bem-estar momentâneo não é o suficiente. Os colaboradores precisam de segurança psicológica, ou seja, um ambiente acolhedor e saudável.

Para ir além do discurso, confira algumas práticas que podem ser implementadas nas organizações com o objetivo de evitar complicações relacionadas ao burnout:

Cultura organizacional em prol da saúde mental

A cultura organizacional envolve o conjunto de valores, crenças, hábitos, missão e até mesmo regras formais e informais. O comportamento dos colaboradores e tudo o que acontece no dia a dia, portanto, está pautado na cultura.

A saúde mental precisa fazer parte de tudo isso para que os funcionários tenham consciência de que se trata de uma bandeira importante dentro da organização. A cultura irá pautar questões relacionadas à carga de trabalho, flexibilidade e muitos outros fatores que podem influenciar positiva ou negativamente o dia a dia.

Basta parar e pensar um pouco em quais empresas vem à sua mente quando falamos sobre cuidados com a saúde mental. Provavelmente os nomes que você pensou contam com uma cultura organizacional que valoriza este ponto.

Psicoterapia como benefício corporativo

A prevenção e o tratamento do burnout passam pela psicoterapia. É importante que as empresas entendam que em muitos casos somente o auxílio psicológico de um profissional especializado poderá ajudar a cuidar do problema.

Infelizmente, a terapia ainda é inacessível para muitos brasileiros e uma solução é oferecer este serviço como benefício corporativo. Além de ser uma ótima maneira de elevar a qualidade de vida dos funcionários, também é importante para trabalhar a marca empregadora e atrair e reter talentos na empresa.

Horários de trabalho flexíveis

Equilíbrio entre vida pessoal e profissional é um dos caminhos para prevenir a síndrome de burnout. Para que os colaboradores consigam dar conta de tudo, é necessário garantir a flexibilidade de horários, permitindo sair mais cedo ou entrar mais tarde para ir ao médico, levar o filho à escola etc.

Ter uma política clara de home office que facilite a organização das agendas pessoais e profissionais, portanto, é um pré-requisito.

Palestras e eventos sobre saúde mental

É fundamental munir os funcionários de informações confiáveis para que todos fiquem na mesma página e saibam sobre o que se trata o burnout. Essa é uma das maneiras mais poderosas de aumentar a conscientização sobre o assunto. Além disso, dessa forma todos se sentem mais confortáveis para relatar se estão com os sintomas do distúrbio.

Por meio de palestras com especialistas, como psicólogos e psiquiatras, é possível promover eventos e ações com o objetivo de debater o tema. E com estatísticas e dados é mais fácil transmitir a seriedade.

Outra maneira de levantar a pauta é convidando profissionais do mercado para contarem como descobriram e trataram o burnout. Uma boa história sempre prende a atenção e ajuda no processo de conscientização de forma mais humana.

RH preparado e aberto ao diálogo

A partir de agora, o RH é responsável por encaminhar colaboradores diagnosticados com burnout para consultas médicas e acompanhamento de um psicólogo. Além disso, é a área da empresa que precisa entender os fatores que estão desencadeando o distúrbio e o que precisa ser feito para prevenir novos casos.

Entre os pontos que podem ser observados, estão:

  • estrutura física;
  • relações com a liderança e pares;
  • metas;
  • clima organizacional;
  • número de horas trabalhadas diariamente.

Com todos esses pontos de atenção, é essencial que o RH receba maiores investimentos para contratação e treinamentos de profissionais na área de saúde ocupacional e aconselhamento psicológico.

Benefícios voltados para a saúde física

A saúde física também precisa de atenção, pois é uma grande aliada da saúde mental. Para incentivar a prática de atividades físicas, a empresa pode oferecer benefícios como:

  • descontos em academias;
  • ginástica laboral e/ou yoga durante o expediente;
  • atividades coletivas entre os colaboradores, como corridas de rua.

Treinamento de lideranças

Os líderes precisam ser muito bem treinados para serem capazes de detectar quando algo não vai bem com os membros do time e orientá-los a buscar ajuda especializada.

Além disso, as lideranças não devem incentivar cargas de trabalho e responsabilidades excessivas, que comprometam o equilíbrio entre vida pessoal e profissional.

Folgas

O LinkedIn deu um ótimo exemplo em 2021, quando deu uma semana de folga a todos os seus funcionários em prol dos cuidados com a saúde mental. O mesmo tipo de iniciativa foi realizada pela Nike.

Esse tipo de folga, principalmente em momentos de picos de estresse, como durante a pandemia, está se tornando cada vez mais frequente no mundo corporativo. É uma maneira de incentivar os colaboradores a se desconectarem do trabalho e cuidarem de si mesmos por alguns dias (e a ideia é que essa atitude de autocuidado reverbere para as suas vidas como um todo).

Como a sua empresa está prevenindo o burnout?

Com a nova classificação do burnout, a OMS está contribuindo muito para que as empresas se responsabilizem por condições de trabalho desgastantes e tomem as atitudes necessárias para mudar esse tipo de cenário.

Não é mais possível deixar para depois: a hora de focar nos cuidados com a saúde mental do colaborador é agora. Se a sua organização ainda não tomou providências, comece agora mesmo a traçar um plano de prevenção ao burnout.

Vale lembrar que esse foi um dos temas discutidos no Corporate Mental Health Week 2022, realizados nos dias 26 e 27/01/2022 em São Paulo.

No painel “Burnout como doença de trabalho: o que muda?” Elise Passamani, CCOO da Lew’Lara / TBWA e Luiz Massad, CHRO da Omie, conversaram com Marc Tawil sobre como o Burnout tomou outras proporções dentro das empresas após a determinação da OMS.

Confira na íntegra:

Para mais artigos, acompanhe o blog do Vittude Corporate!

Por Bruna Cosenza

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