Precisamos falar sobre as emoções
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1 de março de 2021 | 7 min de leitura
Saúde Mental

Precisamos falar sobre as emoções

Como o que sentimos impacta nossas percepções, ações e decisões? Emoções existem para serem vivenciadas. Mas falar sobre elas também tem se mostrado cada vez mais importante para que tenhamos consciência sobre como o que sentimos impacta em como nos relacionamos no trabalho, em casa ou em qualquer outro contexto.

Podemos entender que as emoções ocorrem como em um fluxo de água, que às vezes pode nos molhar devagar, como um riacho em que colocamos os pés e, outras vezes, pode nos arrebatar como uma tormenta, quem sabe até um tsunami. Mas é a compreensão e a atenção sobre o que sentimos que nos torna capazes de administrar essa correnteza e fazer as emoções fluírem em nossas vidas de forma saudável.

No contexto do trabalho, quando não há essa consciência, podemos ser arrebatados, às vezes na forma silenciosa e cumulativa do estresse – que só vai cobrar o seu preço quando vivenciamos um “burnout” – ou as inúmeras situações de excesso de ansiedade, um transtorno no qual o Brasil lidera o ranking mundial, segundo a OMS.

Emoções mal gerenciadas podem desencadear situações que impactam nossa capacidade de pensar, de decidir. Podem modificar nossa capacidade de disponibilidade e empatia com o outro, alterar nosso tom de voz e limitar nossas possibilidades de diálogo. Também podem levar profissionais à falta de engajamento, baixa produtividade e até afastamentos. Hoje, dispomos de fatos e dados que indicam que algo não vai bem, a ponto do “burnout” ser tema de capa de edição da Revista Exame em 2020. 

Mas essa é só a ponta de um grande “iceberg”. 

Antes de falar sobre emoções ou “burnout”, precisamos falar sobre a saúde mental das pessoas, não somente da porta da empresa para fora, mas da porta da empresa para dentro. Esse é um pedido que já vem sendo feito por muitos colaboradores, como mostrou a pesquisa da Qualtrics/SAP com mais de 1.500 pessoas publicada pela Harvard Business Review em 2019, em que mais de 60% dos profissionais diz não falar sobre saúde mental no trabalho mesmo sentindo necessidade e 86% considera que suas organizações deveriam abordar o tema internamente. 

Aqui no Brasil, temos alguns ingredientes adicionais ao nosso caldeirão de sentimentos que, sem dúvida, contribuem para que sejamos líderes mundiais em transtornos de saúde mental, como aponta nessa entrevista a pesquisadora Mariângela Gentil Savoia – Doutora em Psicologia Clínica do do Instituto de Psiquiatria da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo. Violência, instabilidade econômica, aspectos de socialização na cultura brasileira e a forma com que lidamos com a tecnologia são alguns desses fatores.

Então, se no nosso contexto o problema é ainda mais intenso, cabe às empresas – suas lideranças com o RH – trazer estrutura para trabalhar sobre o tema. Isso envolve refletir sobre o quanto suas práticas e até o vocabulário que empregam no dia-dia podem afetar a saúde mental das pessoas.

Vou compartilhar aqui um pouco das práticas que tenho buscado trazer para a RD, onde atualmente lidero a área de Talent Management. Começarei pela visão que venho construindo após muitas desconstruções.

Ser vulnerável X ser resiliente

Faz um bom tempo que escuto no meio corporativo o termo “resiliência” trazido como uma competência essencial, uma habilidade necessária, assim como o controle das emoções. No entanto, ainda percebo um receio de que expor os sentimentos pode ir na contramão de ser resiliente, por expor supostas fraquezas.

Para mim, se colocar de forma vulnerável pode ser justamente uma grande fortaleza para se alcançar mais resiliência (sobre o tema, recomendo pelo menos o TED da Brene Brown). Só quem se dedica a expressar suas emoções pode aprender a nomeá-las e a se relacionar com seus próprios sentimentos e os dos outros. Por isso, tenho me esforçado em entender como criar espaços para que as pessoas se sintam confortáveis para serem mais leves e abertas, um passo essencial para se aprender a lidar com as próprias emoções. E tenho aprendido que isso não é algo que uma pessoa faz sozinha.

Criando uma rede de apoio

Lidar com as emoções envolve suporte e criação de uma rede de apoio, que além de familiares e amigos, pode vir de pares profissionais e, especialmente, especialistas como psicólogos e psicoterapeutas. E, sem dúvida, de lideranças mais preparadas, que além de buscarem maior inteligência emocional também criam espaços inclusive se demonstrando mais vulneráveis, menos infalíveis.

Se é socialmente aceito que estejamos fazendo um tratamento médico, estético ou que estejamos fazendo atividades físicas de forma rotineira para sermos melhores ou evitarmos problemas de saúde, me parece adequado que tratemos nossa condição emocional de maneira equivalente, com o mesmo cuidado e respeito. 

Nessa direção, lançamos em 2018 na RD o programa Wise & Well, o qual citei em meu artigo anterior, que entre suas ações, envolve o subsídio à psicoterapia aos RDoers como um benefício. Um dos trabalhos que mais me influenciou na forma como penso esse programa foi o artigo que o professor Richard Davidson – pesquisador do Center of Healthy Minds da Universidade de Wisconsin e parceiro de uma das maiores autoridades em Inteligência Emocional, o Daniel Goleman – publicou no Huffington Post em 2015 que chama-se “Por que o bem-estar é uma habilidade que pode ser aprendida?“. Além de poder ser aprendida, a habilidade de estar bem talvez seja a mais essencial para profissionais e empresas que buscam prosperidade, crescimento sustentável, não apenas o atingimento de metas e a alta-performance. 

Foi o que pude observar em muitos pares e liderados que se transformaram a partir do Wise & Well, seja por contar com apoio profissional para lidar com suas emoções, seja adotando práticas de meditação ou outras estratégias para estarem mais presentes e centrados. E, claro, olhar para os outros tem feito eu olhar também mais para mim. 😉 

Toda observação é também uma auto-observação

Passei a buscar compreender cada vez mais as emoções que fluem em mim em diferentes momentos do meu dia, tendo aqueles com quem me relaciono como um espelho para essa auto-observação. Em casa nesses tempos de pandemia, tenho recebido muito o retorno de minha família de como meu tom de voz muda quando entro em uma reunião. Possivelmente esse era o meu tom de voz predominante quando eu estava no escritório. No fim do dia, eu tinha em torno de meia hora para virar essa chave antes de estar com a família, enquanto fazia o caminho pra casa, ouvindo música ou podcasts e me preparando para os abraços, outras tarefas e o descanso. Hoje, eu tenho no máximo 2 minutos para fazer essa mudança, o tempo de uma ida ao banheiro. E isso acontece algumas vezes ao dia, em momentos em que eu me vejo precisando pedir um tempo para tirar a cabeça de uma questão profissional em que eu estava envolvido e estar inteiro para minha família.

Trabalhando no meio da inovação e da tecnologia, com muita gente cheia de ideias e de energia, vejo como é recorrente a oscilação entre os pólos da tensão e da euforia. Por vezes, podemos estar em um time vibrando de alegria por conta de algum resultado e isso contrastar com emoções relacionadas ao clima de casa por alguma questão familiar. É valioso desenvolver o como navegar entre esses diferentes pólos de uma forma saudável, sem que uma emoção tenha que ser refutada ou precise suprimir a outra. Como podemos viver todo o espectro de emoções, dando um bom lugar a cada uma delas dentro da gente? Como entender não apenas o que nos deixa tristes, temerosos, irritados como também o que nos deixa entusiasmados, confiantes e tranquilos?

Uma dica de algo que uso muito pra fazer esse chaveamento e tenho buscado aprimorar: respirar! Talvez seja uma das principais habilidades que eu gostaria de ter desenvolvido 20 anos atrás, no início da minha carreira. E fica aqui o agradecimento a dois mestres no tema respiração consciente: Renan Vivas Zanotto e a Malu Fuchshuber.

Outra: conhecer as emoções. 

Traduzindo emoções em palavras

Daí vem a importância de entendermos o fluxo e a intensidade das emoções pela prática de nomear aquilo que sentimos, como forma de trazer consciência e clareza sobre essas emoções. De uma forma lúdica, o filme “Divertida Mente” da Disney/Pixar traz um repertório básico e bem caracterizado de emoções nos personagens Alegria, Tristeza, Raiva, Medo e Nojo. É uma ótima introdução a um tema que não estudamos na escola. Dentre os esforços que vejo muitas pessoas fazendo para colocar em prática o aprendizado sobre as emoções desde cedo para crianças e suas famílias, destaco também os livros de Todd Parr. Uma das obras, “O Livro dos Sentimentos”, traz situações que mostram as subidas e descidas dos sentimentos que todo mundo vive a vida inteira. Livros assim trazem de forma bem simples um pouco mais de luz sobre o como lidamos com o que sentimos e tem me feito bem também enquanto pai, marido e profissional. 

Por vezes, o senso comum lida com as emoções tomando sofrimentos e traumas como ponto de partida. Mas há vertentes como a Psicologia Positiva, na qual o Dr. Martin Seligman – autor e pesquisador sobre o tema – conceituou em seus modelos um volume maior de emoções que trazem sensações positivas. De acordo com essa linha, emoções como satisfação, contentamento, realização, orgulho e serenidade estão mais ligadas ao passado; alegria, êxtase, tranquilidade, entusiasmo e prazer estão conectadas com o presente; enquanto otimismo, esperança, confiança e segurança estão mais relacionadas ao futuro. É possível nomear uma série de emoções bastante boas considerando o que vivenciamos e sentimos em diversos momentos, olhando para trás ou para frente. 

Fico pensando se esse não é um vocabulário que poderia estar mais presente no dia-a-dia das empresas. Adianta dizer que há uma cultura de feedback sem criar um espaço para as pessoas falarem o que estão sentindo sem serem julgadas? É suficiente exigir performance sem estimular momentos de pausa, de atenção plena, onde a correnteza das emoções dentro de cada um pode se acalmar antes de sair arrastando tudo? De que serve falar em resiliência, empatia, vulnerabilidade, transparência, sem dar os nomes àquilo que realmente vive dentro das pessoas, tendo mais profundidade e capacidade de percepção prática sobre tudo isso?

É no aprendizado sobre as emoções que vejo a formação da habilidade essencial de estar bem. Lidando com as emoções de forma mais inteligente, ouvimos melhor, nos comunicamos melhor, negociamos melhor, tomamos decisões de forma mais adequada, nos relacionamos melhor, dormimos melhor e, por fim, a tendência é alcançarmos o bem estar em sua forma mais plena. 

Ao invés de nos mostrarmos fechados, irritados e agressivos em uma reunião, temos a oportunidade de dizer “não estou bem agora, talvez seja melhor eu pensar e responder sobre isso na próxima reunião”. Que tal? Da mesma forma, é muito mais saudável ir para o ambiente familiar e dizer “estou tão empolgado com algo que aconteceu no trabalho hoje que parece que ainda não me conectei com vocês, preciso de um tempo, vou tomar um banho” , ao invés de ficar aéreo no jantar e fazer com que seu filho tenha que te chamar 10 vezes antes de você conseguir ouvir.

Assim, podemos ter a nossa água nos hidratando na medida certa, nos refrescando, nos aquecendo, matando nossa sede, mas nunca nos afogando. 

Quero aprender mais sobre o impacto das emoções. Certo que precisamos mais disso nesses tempos pandêmicos. Vamos trocar mais sobre? Até o próximo post.

PS.: Não sou psicólogo, logo minha opinião aqui não é técnica. Busquei trazer o que tenho aprendido empreendendo, liderando e trabalhando para fazer o melhor que posso.

Anderson Nielson é Diretor de Pessoas da RD Station.

Por Autor convidado

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