Cirurgia bariátrica

Cirurgia bariátrica: emagrecer também mexe com a cabeça

Cirurgia bariátrica: emagrecer também mexe com a cabeça
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Os números são alarmantes: levantamento feito pelo IBGE aponta que quase 60% dos brasileiros estão acima do peso. Isso significa 82 milhões de pessoas com IMC (índice de massa corporal) igual ou maior do que 25 (sobrepeso ou obesidade). A obesidade é uma epidemia e traz riscos físicos (como diabetes, dislipidemias, problemas respiratórios, cardiovasculares, osteoarticulares e digestivos); psíquicos (baixa autoestima, depressão, ansiedade, alterações do comportamento alimentar) e sociais (isolamento social). A cirurgia bariátrica – popularmente conhecida como cirurgia de redução de estômago – é uma opção de tratamento que, quando bem indicada, pode levar a uma melhora grande de comorbidades relacionadas. Mas não se trata de milagre e o emagrecimento não acontece da noite para o dia. Por isso, é importante escolher bons profissionais para orientar sobre suas necesecidades e também cuidar da cabeça durante o processo.

“É indicado ao paciente passar por um psicólogo antes e depois da cirurgia, visto que se trata de um procedimento que exige novos hábitos”, explica a psicóloga Soraya Albuquerque Sartori, de São Paulo, parceira da Vittude. Preparamos um especial sobre cirurgia bariátrica, também com a consultoria do médico Eduardo Grecco, gastrocirurgião e endoscopista do Instituto Endovitta, de São Paulo. Confira a seguir!

Ansiedade e depressão andam juntas com aumento de peso. Some estresse e sedentarismo e o combo obesidade está pronto. “A comida é fonte de prazer e satisfação. Fora que existem outras fantasias e imagens culturais no que tange a comida, como fonte de força, prosperidade, satisfação, alegria. O ser humano busca o prazer desde bebê. Quando choramos, nos é apresentado o leite que, além de alimentar, traz afeto e amor. É fácil associar isso a uma forma de acabar com angustias e fracassos. Assim, pessoas ansiosas e imediatistas podem recorrer ao alimento como forma de aplacar angústias”, explica a psicóloga.

Indicações para a cirurgia bariátrica

Cirurgia bariátrica - recomendações médicas

A cirurgia bariátrica pode ser indicada levando em consideração a massa corpórea, idade e tempo de doença do paciente

A cirurgia bariátrica não é uma solução mágica e tem indicações precisas. Segundo a Sociedade Brasileira de Cirurgia Bariátrica e Metabólica (SBCBM), o procedimento pode ser indicado levando em conta as seguintes situações:

# Massa corpórea: IMC > 40 kg/m2, independente da presença de comorbidades; IMC entre 35 e 40 kg/ m2 na presença de comorbidades; IMC entre 30 e 35 kg/m2 na presença de comorbidades. As doenças precisam ter, obrigatoriamente, a classificação “grave” por um médico especialista na respectiva área da doença. Também é obrigatória a constatação de “intratabilidade clínica da obesidade” por um endocrinologista.

# Idade: abaixo de 16 anos não há estudos suficientes que corroborem essa indicação, com exceção aos casos de Prader-Wille ou outras síndromes genéticas similares. Nessas situações excepcionais, o paciente deve ser operado com o consentimento da família. Entre 16 a 18 anos, sempre que houver indicação e consenso entre a família e a equipe multidisciplinar. Entre 18 e 65 anos: sem restrições. Acima de 65 anos, é preciso uma avaliação individual pela equipe multidisciplinar, considerando risco cirúrgico, presença de comorbidades, expectativa de vida, benefícios do emagrecimento.

# Tempo da doença: sempre que o paciente apresentar IMC e comorbidades em faixa de risco há pelo menos dois anos. Além de ter realizado tratamentos convencionais prévios e tido insucesso ou recidiva do peso. Essa exigência não se aplica em casos de pacientes com IMC maior que 50 e para pacientes com IMC entre 35 a 50 com doenças de evolução progressiva ou risco elevado.

Tipos de cirurgia

“Recentemente o Conselho Federal de Medicina  (CFM) ampliou o leque de indicações da cirurgia. O novo texto detalha mais as doenças que, em pacientes com IMC entre 35 e 40, justificam a realização da bariátrica, citando mais de 20 comorbidades, entre as quais depressão, refluxo, infertilidade e incontinência urinária. No caso de pacientes com IMC maior que 40, a cirurgia pode ser indicada mesmo sem a presença de comorbidades”, diz o gastrocirurgião Eduardo Grecco.

Entre os diversos tipo de cirurgia bariátrica, existem atualmente cinco técnicas conhecidas e reconhecidas pelo CFM e Ministério da Saúde. São elas: Banda Gástrica Ajustável, Gastrectomia Vertical, Bypass Gástrico, Derivação Biliopancreática (Cirurgia de Scopinaro) e Derivação Biliopancreática com Duodenal Switch. “O importante é avaliar individualmente cada paciente e escolher o melhor procedimento para tratar as comorbidades causadas pela obesidade”, diz Grecco.

Psicólogo é fundamental

De acordo com o especialista, tão importante quanto escolher um bom médico, é encontrar um psicólogo. “Por se tratar de um procedimento que traz mudanças  profundas ao estilo de vida do paciente, o seguimento psicológico  é fundamental.”

Para acompanhar os casos de bariátricas, a indicação é recorrer a um psicólogo clínico. “Não faço aqui apologia a alguma linha de atuação especifica, porém, recomendo que o profissional esteja familiarizado com os procedimentos envolvidos, testes psicológicos para avaliação pré-operatória e tenha se dedicado ao tema da obesidade e suas consequências psicossociais”, diz a psicóloga Soraya.

Como corpo e cabeça reagem

“As primeiras mudanças ocorrem logo após o cirurgia devido ao trauma cirúrgico e às restrições calorias. Mas, com devido acompanhamento multiprofissional essas alterações são rapidamente suplantadas e os benefícios da cirurgia rapidamente sentidos. Em alguns casos, podem começar a aparecer manifestações de ansiedade e depressão “, revela Grecco.

Os primeiros meses após a cirurgia são de adaptação. “A pessoa não tem mais fisicamente o mesmo estômago! Não é mais possível comer como antes. Há relatos de vômitos frequentes, desmaios, mal-estar, perda de vitaminas, queda de cabelo, dificuldade de engolir. Há ainda casos de depressão. Porém, a maioria não se arrepende e entende o processo como parte da nova vida que desejava. Mas é preciso reprogramar a cabeça antes da cirurgia. E fazer um acompanhamento depois. Visto que o sucesso está intimamente associado a capacidade psíquica e social do indivíduo”, analisa a psicóloga Soraya.

Após a cirurgia bariátrica é preciso reprogramar a mente

É preciso reprogramar o cérebro antes da cirurgia bariátrica e rever a relação com a comida.

Porém, a especialista diz que há casos onde o estigma da obesidade gera uma “muleta” e desculpas para fracassos. “E então cria-se uma defesa. Alguns não conseguem abrir mão de suas defesas que estão simbolizadas na gordura. Acabam por boicotar o tratamento ingerindo comidas calóricas, ainda que em pequenas quantidades, e engordam. Em outros casos, os pacientes podem se alimentar demasiadamente, chegando comprometer o trabalho cirúrgico. Olhar a realidade sem ter o que culpar pode ser dolorido demais. O psicólogo além de ajudar na identificação das defesas, assessora na assimilação dessa nova imagem e seus ganhos”, explica a psicóloga .

Recaída após a cirurgia bariátrica

Alguns pacientes boicotam o tratamento ingerindo comidas calóricas, ainda que em pequenas quantidades, e engordam

Vida normal após a cirurgia bariátrica

O gastrocirurgião Eduardo Grecco diz que o ideal é manter o paciente o mais próximo possível de suas rotinas. Sempre, é claro, seguindo as orientações do médico e da equipe multidisciplinar. “A relação com os alimentos no começo estará muito diferente do habitual por conta da natureza do procedimento cirúrgico em si. Mas será gradativamente restaurada. A realização de atividades físicas de baixo impactado é estimulada precocemente. Liberamos atividades mais intensas de acordo com a resposta do indivíduo. É importante ressaltar que a perda de peso no pós-operatório envolve atividade física e uma dieta adequada.”

Mulher se exercitando após realização de cirurgia bariátrica

Exercícios físicos são recomendados após a realização da cirurgia

Após a cirurgia, segundo o médico, espera-se que o paciente perca em torno de 10% de seu peso no primeiro mês. No segundo mês a perda de peso média corresponde a 6% do peso inicial, passando a aproximadamente 4% no terceiro mês. “Em três meses o indivíduo terá perdido cerca de 20% do seu peso inicial.

Algumas pessoas, porém, podem passar por momentos em que o emagrecimento estaciona – é a chamada fase de platô. “Mas não é preciso se desesperar, visto que esta é uma reação normal do organismo à operação. Seguindo as orientações de médicos e nutricionistas, as fases de platô passam e a pessoa volta a emagrecer. Caso o paciente identifique que o período está se tornando extenso, ele deve procurar os profissionais que o acompanham para rever a dieta”, diz o médico.

Pessoas submetidas à cirurgia bariátrica só devem evitar se pesar todos os dias para não sofrer com ansiedade e estresse. A recomendação dos especialistas é subir à balança uma vez por mês, no dia da consulta com o cirurgião bariátrico ou nutricionista.

Pode haver recaída?

O sucesso na bariátrica significa, após cinco anos, ter perdido a metade do excesso de peso. Por exemplo: um indivíduo de 100 kg, cujo patamar ideal é 60 kg, precisa estar com até 80 kg. Para quem tem IMC entre 35 e 40, o sucesso é de 90%. Para IMC maior, a taxa cai para 70%.

“Estudos revelaram que pacientes podem recuperar algum peso, caso não sigam as recomendações médicas. Vale dizer que o ganho de até 10% do peso perdido após dois anos de cirurgia é considerado normal. Entre os fatores que ocasionam o reganho de peso está a compulsão alimentar ligada à ansiedade, que causa a dilatação do estômago operado. Mais: sedentarismo, ingestão de alimentos calóricos e bebidas alcoólicas. Em todos estes casos é fundamental a reavaliação com o cirurgião bariátrico e a equipe multidisciplinar”, explica Grecco.

Alimentação saudável ajuda a combater ansiedade

Manter uma alimentação saudável ajuda a controlar a ansiedade, estresse e evitar uma recaída

Podem ainda aparecer sintomas de compulsão, ansiedade e depressão depois da perda de peso com a cirurgia. “A compulsão, em uma análise superficial, normalmente é gerada pelo deslocamento do prazer de comer, antes tido como único e agora quase impossível nos primeiros meses. A compulsão pode aparecer ainda em forma de gastos (compras), sexo, exercícios, bebida alcoólica… A ansiedade e a depressão podem surgir ou se potencializar ao se perceber que a mágica esperada de que ser magro tornaria a vida melhor não ocorre. Pode ainda haver demora para assimilar a realidade de um novo corpo e estilo de vida. O indivíduo sente como se tivessem ‘roubado’ seu prazer, não podendo acompanhar atividades sociais. Assim, para evitar tudo isso, se isola. O tratamento é analisado caso a caso. Para alguns, apenas a terapia ajuda, para outros, pode haver a necessidade de medicamentos”, conclui Soraya.

Soraya Albuquerque Sartori é psicóloga clínica, coaching e parceira da Vittude. Marque sua consulta!

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