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Amizade: o poder de cultivar boas relações de parceria

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Amizade é uma relação de afinidade, reciprocidade, ajuda mútua, respeito e confiança criada entre duas ou mais pessoas. Segundo Winnicott, a amizade remete às noções de intimidade, espaço potencial, reconhecimento da alteridade e concernimento.

Criar uma relação de amizade é um vínculo que se escolhe, por isso tem um peso diferente da família. Os amigos contribuem para a construção da nossa própria identidade, ideias e valores, sensação de pertencimento e objetivos de vida. Além disso, bons amigos são um antídoto para doenças físicas e emocionais. Isso mesmo, a amizade faz bem à saúde.

O Brasil comemora o dia do amigo duas vezes ao ano, em 20 de julho e 18 de abril. Só esse fato já nos mostra a força da amizade em um país que cultiva relações de parceria. Ao estudar as relações de amizade, cientistas descobriram coisas como o fato de que compartilhamos mais genes com amigos que com desconhecidos, que somos mais atraentes quando estamos com um grupo de amigos e que com apenas 9 meses de idade já entendemos o conceito de amizade.

Vários estudos comprovam que, pelo menos entre os chimpanzés, babuínos, cavalos, hienas, elefantes, morcegos e golfinhos, os animais podem formar vínculos vitalícios com indivíduos que não são de sua família. No Quênia, já foi documentada uma amizade entre uma tartaruga centenária e um hipopótamo jovem.

Por que formar vínculos de amizade?

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O que nos leva a formar vínculos de amizade? Em todos os estudos sobre a amizade, se reconheceu que pessoas que possuem bons amigos tem saúde melhor, menos estresse e mais sucesso reprodutivo, razão pela qual a amizade é uma característica cada vez mais comum na espécie – isso é o que assinala o cientista Carl Zimmer.

Quando criamos relações de amizade, desenvolvemos mais empatia, sentimos junto com o outro. Nos sentimos ameaçados quando nossos amigos estão em perigo, por isso nos associamos à outros da mesma espécie para prosperar.

Iniciar ou cuidar dessas relações provoca a liberação de ocitocina, hormônio que reduz os níveis de tensão e gera um efeito calmante. Independente de gênero, ter amigos é bom. As pessoas com uma rede ampla de amizades têm tensão mais baixa, sofrem menos estresse, suas defesas são mais fortes e elas têm vida mais longa. Os amigos propiciam os bons hábitos, espantam a depressão, ajudam a superar doenças e produzem satisfação, prazer e felicidade.

Vários amigos x Amigos de qualidade

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Em 1993, o antropólogo Robin Dunbar, da Universidade Oxford, estudando os grupos sociais dos primatas, descobriu que cada indivíduo só pode manter até o máximo de 150 relações significativas ao mesmo tempo. Mesmo assim, a maioria dos adultos só tem dois melhores amigos.

Na era das amizades de facebook, o conceito de relações de amizade verdadeira, a partir do compartilhamento frequente de experiências e sensações reais ficou desgastado. Dos 500 amigos de facebook, podemos contar nos dedos aqueles que convivem com nossas alegrias e dores, que ajudamos sem pensar duas vezes.

Criar relações verdadeiras têm maior peso emocional do que sustentar diversas relações superficiais. Conexões feitas a partir de parceria e cumplicidade são aquelas que nos trazem maior solidez e conforto para a vida.

Ainda que muita gente acredite que ter poucos amigos gera solidão, a solidão não é sobre não ter amigos. Se sentir só independe da quantidade de pessoas que está ao seu redor. Essa sensação negativa tem muito mais a ver com não se sentir conectado, não se sentir pertencente, não gerar vínculos reais com os seres e com o mundo.

Como é uma amizade verdadeira

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As práticas sociais e os sentidos da amizade, da mesma forma que os sentidos do amor, são constituídos historicamente e se transformam, dependendo das culturas e das épocas históricas.

Por isso, uma amizade considerada verdadeira pode ser muito diferente para cada pessoa e em cada período. Entretanto, a grande maioria das amizades se baseia principalmente no sentimento de empatia, ou seja, de se colocar no lugar do outro e desejar o bem. Este sentimento, muitas vezes chamado de amor genuíno, é o que faz da amizade essa relação tão leve e positiva para a vida de todos.

“A amizade é uma predisposição recíproca que torna dois seres igualmente ciosos da felicidade um do outro.” – Platão

Nesse sentido, a amizade verdadeira se mostra a partir do interesse pelo bem-estar do outro, do entendimento sem julgamento. Com um bom amigo, você é sua melhor versão. Cada ser se esforça para crescer junto, compartilha experiências, alivia as dores, escuta. Com quantas pessoas você consegue se sentir bem ao sentar em silêncio por algumas horas? Essas são provavelmente suas melhores amizades.

A importância de transformar a amizade masculina tóxica

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É muito comum que a amizade masculina se manifeste a partir de comportamentos tóxicos, como sentimentos competitivos, agressão verbal e provocações. Essa necessidade de basear qualquer conexão em manifestações de desinteresse funcionou como mecanismo de defesa por muito tempo, do homem macho que não admite suas necessidades emocionais.

Com a desconstrução de ideais machistas, como os de que o homem tem que ser forte, não pode demonstrar sensibilidade, precisa estar à frente das decisões sempre, não chora, não sofre, aguenta calado, as amizades também se abrem para laços mais profundos e verdadeiros.

A amizade masculina tóxica pode ser transformada em relações verdadeiras. Em parcerias que vão além das brincadeiras para o compartilhamento de dores, sentimentos e questões existenciais. Sensibilidades e afetos também nos conectam e isso não é nenhuma exclusividade feminina.

Não faça da amizade uma cobrança

Uma das principais razões para transformarmos as amizades em sentimentos negativos é a cobrança. Criar expectativas gera estados de ansiedade e angústia que danificam a potência das relações de parceria.

Quando desenvolvemos um interesse genuíno pelo bem-estar do outro, saímos de nossas posições egoístas e autocentradas. Assim, encontramos um estado de equilíbrio mesmo diante de situações inesperadas.

A leveza das relações de amizade vem com essa posição de liberdade ao outro, com a aceitação de uma vida fluida, que se transforma a todo instante. Ainda que, comprovadamente, ter amigos traga mais felicidade, é importante não esperar que isso seja uma obrigação. A felicidade depende da nossa mente e de como visualizamos as situações.

Outras suposições como: amigos são para sempre, amizades verdadeiras se sustentam por si só, amigos compartilham tudo e nunca nos decepcionam, também são extremamente danosas. Assim como tudo na vida, as pessoas mudam e as circunstâncias também.

Amizades não se sustentam sozinhas, é preciso estar presente e sua dedicação pelo bem-estar do outro tem importância. Nossas decepções acontecem por conta de expectativas. Por que somos todos seres humanos errôneos e isso também se aplica em relações de extrema confiança.

Liberar a amizade dessas amarras é a melhor forma de cultivar melhores relações e de se conectar verdadeiramente com outras pessoas. Não apenas como uma forma de sobrevivência, mas como um sentimento sincero de alegria pela felicidade do outro.

Criar novas conexões é fundamental

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Tão importante quanto cultivar amigos do passado, criar novas relações de parceria no presente é fundamental. Você provavelmente já se reencontrou com algum amigo de muito tempo. O sentimento é de como se voltasse a se tornar a pessoa que era antes, quando o conheceu.

Esse peso que carregam os amigos de infância, a nostalgia que nos leva a outro tempo, não deixa de ser positiva. Entretanto, deve vir acompanhada de relações que reflitam novos momentos de nossas vidas.

Como somos seres transitórios, precisamos nos esforçar para criar laços com pessoas a partir de outras épocas de nossas vidas. Formar relações diferentes, sem uma bagagem do passado e com a liberdade que carrega os novos contatos.

Criar e cultivar amizades nos faz mais crescer emocionalmente, traz alegrias e saúde. Para isso, é preciso desenvolver o cuidado conosco e com os outros. Como canta Lenine:

“O que eu sou

Eu sou em par

Não cheguei

Não cheguei sozinho”.

Juliana Battistelli

Formada em Comunicação e Multimeios pela Universidade Estadual de Maringá, trabalha como redatora de conteúdos. O que mais encanta e move Juliana no mundo são as tentativas constantes e impossíveis de compreender o outro.