Paranoia ou precaução

Paranoia ou precaução? Estamos medrosos demais?

  |  Tempo de leitura: 7 minutos

Diariamente recebemos notícias que nos levam ao medo, ansiedade e preocupação. Exemplos disso são as recentes quedas de aviões, golpes políticos seguidos de violência nas ruas e ataques terroristas na Europa e nos EUA. Isso sem contar as notícias sobre possíveis bombardeios durante as Olimpíadas do Rio 2016. Será que esse medo é paranoia ou precaução? 

Os pensamentos que vem à cabeça são vários. “Nossa, o mundo está muito perigoso!”. “Se eu for pra lá, vou me colocar em risco”. “Será que isso pode acontecer onde eu moro?”. “O que posso fazer pra proteger a mim e minha família?”

Contudo, diante dessa cascata de pensamentos e emoções, algumas pessoas tendem a desistir de viajar ou de ir a lugares externos. Você já fez isso alguma vez na vida? Conhece alguém que fez?

Traçar a linha entre medos normais, ansiedade e paranoia pode ser difícil. Isso é especialmente verdade quando os medos, aparentemente paranoicos de uma pessoa, se tornam verdadeiros. Assim, saber onde traçar essa linha e como decidir se um medo é razoável ou não, pode ajudar as pessoas a procurar cuidados psicológicos adequados.

O que é paranoia?

A paranoia é uma ansiedade persistente sobre um medo específico. Ansiedades paranoicas geralmente se concentram em perseguição, sendo vigiadas ou tratadas injustamente. Assim, o ponto-chave que define uma paranoia é que ela é enraizada em uma crença falsa.

Pessoas com pensamentos paranoicos também podem ter crenças falsas sobre seu próprio poder ou importância. Ou seja, em alguns casos, a exposição a traumas ou estresse severo pode tornar as pessoas mais propensas a desenvolver uma paranoia.

As pessoas que experimentam pensamentos paranoicos costumam estar determinados a fazer com que outras pessoas aceitem suas crenças como verdadeiras. De tal forma que elas podem fazer escolhas incomuns, projetadas para se protegerem das fontes de ansiedade.

Momentos fugazes de paranoia são comuns e não significam necessariamente que uma pessoa tenha uma condição de saúde mental. A paranoia também é distinta da ansiedade:

  • A paranoia está focada em uma fonte específica de ansiedade;
  • As pessoas que experimentam paranoia geralmente têm crenças falsas sobre si mesmas, o mundo ou as pessoas que conhecem;
  • Uma pessoa com pensamentos paranoicos pode ter problemas perceptivos. 

Será paranoia ou precaução?  

Todo esse comportamento tem um motivo: evitar que a possível catástrofe ocorra. Tal fenômeno pode ser explicado pela Psicologia Cognitiva como uma Heurística de Disponibilidade. Ele acontece quando baseamos nossas previsões, decisões ou a frequência de alguma atitude em informações que estão mais acessíveis ou fáceis em nossa memória.

Neste caso, a evitação parte de uma previsão catastrófica com base na frequência com que os meios de comunicação noticiaram o perigo ou acontecimentos negativos. Repare só: toda vez que as pessoas dizem que um determinado bairro está perigoso, começamos a prestar atenção em todos os detalhes do bairro que podem “comprovar” o nosso receio e medo. 

Vencendo a ansiedade

Esse mesmo “alarme” ressoou nos aeroportos e nas equipes de polícia do Rio de Janeiro que, após todas essas notícias, redobraram seus esforços para segurança a fim de proteger a população, tornando-se ainda mais rígidos em relação à visita ou estadia de pessoas no Brasil.

Esse pânico geral na segurança pública gerou aumento dos comportamentos de segurança, nos dando a ideia de que estamos mais seguros. Porém, você realmente se sente mais seguro, aliviado e calmo quando observa todos os detalhes de um ambiente? As pessoas tendem a dizer que não!

Esse excesso de busca por segurança e evitação torna-se um grande ciclo vicioso que se alimenta dele mesmo. De tal forma que isso leva ao aumento dos pensamentos catastróficos e emoções. Busca-se mais e mais por segurança, causando evitação. Neste ciclo, as decisões são cada vez menos baseadas em uma avaliação racional da situação, mas sim nas emoções e pensamentos disfuncionais.

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A que ponto o medo nos leva?

Com tanto medo de que algo ruim possa acontecer, mesmo que a probabilidade seja mínima, perdemos a chance de viver uma vida de forma plena e agradável. Contudo, é claro que nós não devemos sair andando como se fôssemos imortais! Acontece que toda essa proteção nos deixa com o radar do perigo muito mais ativo. Assim, nos sentimos muito mais tensos e preocupados. Paranoia ou precaução?

Vale mencionar um estudo realizado por um psicólogo chamado Steven Pinker, que estuda a agressividade e violência no planeta. Ele realizou análises sobre esse tema e observou uma diminuição da violência e agressividade entre os humanos. Ainda por cima, contatou aumento da ideia de colaboração, compartilhamento e paz.

Segundo Pinker, até mesmo os crimes cometidos hoje são menos “terríveis” e “cruéis” do que no passado. Claro que, baseado no que estamos vendo em nossos meios de comunicação, temos sempre a sensação contrária. Parece que o perigo tem uma equipe de publicidade melhor, não é?

O fato é que, na maioria das vezes, adiar ou cancelar não nos livra de algo ruim que possa acontecer e ainda faz com que deixemos de experienciar a alegria de uma viagem ou passeio, algo muito mais provável de acontecer. Assim, sem perceber, aumentamos a dimensão do perigo e começamos a ter outros comportamentos de segurança que nos geram mais e mais sofrimentos.  

Será que estou exagerando? Paranoia ou precaução?

Finalmente, como tomar uma decisão nessas situações? Uma dica é pensar na probabilidade de algo ruim realmente acontecer e fazer um “balanço” sobre as vantagens e desvantagens de cada hipótese. Depois, pensar quais recursos estão disponíveis para resolver um possível problema (por exemplo: comprar um seguro-viagem antecipadamente). Aí, resta pesar o que de melhor pode estar por vir.  

Caso perceba que o medo e a evitação estão atrapalhando sua vida, consulte um(a) psicólogo(a)!  

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Artigo revisado em 16/10/2019

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Tatiana Pimenta

CEO e Fundadora da Vittude. É apaixonada por psicologia e comportamento humano, sendo grande estudiosa de temas como Psicologia Positiva e os impactos da felicidade na saúde física e mental. Cursou The Science of Happiness pela University of California, Berkeley. É maratonista e praticante de Mindfulness. Encontrou na corrida de rua e na meditação fontes de disciplina, foco, felicidade e produtividade. Você também pode me seguir no Instagram @tatianaacpimenta