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Da falta de tempo para si mesmo

Da falta de tempo para si mesmo
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Vive-se em uma correria, um constante fazer. O amanhã sempre em mente. O passado já foi, o presente não se sente. E para o futuro corre-se. Aí apresenta-se a morte e diz que tudo acabou. Como assim? A sensação é de que se fez tão pouco, aproveitou-se tão pouco. Morre-se cansado, mas sem ter tido o tempo suficiente para tirar proveito. Sim, pois passa-se a vida sempre a construir e nunca a usufruir, pois não há tempo para isso.

Se pararmos para pensar, temos pequenas mortes todos os dias, pois ao dormir temos uma pequena sensação dela, ao nos desligarmos de tudo e ficarmos ausentes da vida que corre. É um movimento necessário, não é possível viver sem dormir. E mesmo assim, não há tempo para isso. O sono, tão fundamental e constitutivo do humano, é cada vez menor. Se olharmos pela ótica psicanalítica, a principal função do sono é justamente desligar a pessoa daquilo que é real (deixar seu Ego descansar) para que o seu Inconsciente possa trabalhar, se mostrar. Até mesmo para nos organizar psiquicamente. E reluta-se para isso. Não se permite nem esse tempo para si mesmo.

Vive-se para o outro

Observamos que todos encontram algum tempo para sair com os amigos, ir ao cabeleireiro, ao futebol, ao happy-hour. Espreme-se a agenda, dorme-se menos, mas não se deixa ter esses momentos. Paga-se caro por um jantar onde muitas vezes estão sentados à mesa mas cada um no seu celular. Paga-se caro por uma nova roupa, que será usada para que os outros vejam. Vive-se para o outro, portanto. Vive-se para estar e se mostrar ao outro, no pouco tempo que se permite.

E o tempo para si mesmo, onde está? Quantos não têm tempo de ir à uma terapia, ou recursos para tal? Não se dão a esse direito, muito embora até desejem, mas não se permitem. Desde que o externo esteja bom, o que se apresenta ao outro, ficam satisfeitos, mesmo que essa satisfação não seja verdadeira. Como é importante se dar um momento, uma hora na semana que seja só para si mesmo… Aquele instante em que não há mais ninguém de fora, que concentra tudo em si mesmo. Um momento de reclusão por um lado, de encontro com o seu interior. Por outro, um presente para sua pessoa.

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Mentes cansadas e ansiosas

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Vive-se para o fazer, o sentir fica em segundo plano. O ócio, que já foi valorizado em outras épocas, hoje em dia não existe e não é visto como positivo. E como ele é necessário… O que se vê são mentes cansadas, cheias de pensamento, que não desligam. É um grande barulho interno. É um barulho que cala os pensamentos, que abafa sua escuta, sua escuta importante, reveladora, não aquele pensamento do tipo “tenho que fazer isso, agir daquele jeito”, mas o pensamento profundo.

Esse momento de encontro com seu eu não é valorizado. Protege-se, ou melhor, esconde-se atrás das desculpas de falta de tempo e de dinheiro para tal. Mas, novamente, esse tempo existe, e esse dinheiro que é gasto muitas vezes com coisas menos importantes está ao alcance. Há muitos profissionais com diversos horários disponíveis e abertos a negociações dos custos.

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Tempo para pensar

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Corre-se tanto e para que? Para não parar e pensar talvez. Correr tem o seu lado de fuga. Fugimos de um perigo correndo. E correndo fugimos daquilo que nos parece ameaçador. Corremos no dia a dia para não ter que se a ver consigo mesmo. Fugimos do sono, dessa pequena morte, para não entrarmos em contato com nosso íntimo. Para que não tenhamos que em algum momento encarar aquilo que sabemos que nos incomoda, e que sabemos que temos que lidar. Há tantos recursos hoje em dia disponíveis para cada pessoa, para que ela possa se melhorar, se sentir melhor, mas para isso tem que haver disposição.

Infelizmente o que se percebe são pessoas cada vez mais voltadas para o externo do que para o interno, como se eles caminhassem em separado, em paralelo. Não se dedicam ao que é mais precioso, aquilo que estão tão distantes e que ao mesmo tempo têm como o mais certo, sem dar o devido valor, o seu Eu.

E aí a vida acaba, e quantos se perguntam: o que fiz para mim? Os eventos se apresentam, os fatos acontecem, e o sujeito, tão descolado de si mesmo, vivendo tão fora de si, tão na correria, quantas vezes não usufrui deles.

Letícia Rangel é psicóloga e psicanalista parceira da Vittude. Ela atende adolescentes e adultos. Marque já sua consulta!

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