Todos

Luto complicado: o que é e como superar

A perda de um ente querido é um processo muito doloroso. Apesar de ser normal se sentir triste nesse período, o problema ocorre quando a superação se torna mais difícil do que o habitual, se caracterizando como um luto complicado.

Quando não há um fim para todos os sentimentos que são normais em um processo de luto, como ansiedade, raiva, tristeza e culpa, pode ser um sinal de que é necessário buscar ajuda profissional para lidar de maneira mais saudável e evitar maiores prejuízos.

Entender sobre o luto complicado é importante, afinal, todas as pessoas passam por esse momento ao longo da vida. Que tal ler este artigo até o final para tirar as suas dúvidas sobre o assunto?

O que é o luto complicado e como se diferencia do luto “normal”?

O luto complicado acontece quando a pessoa apresenta uma desorganização prolongada que a impede de retomar a sua rotina e atividades com qualidade. Isso significa que há grandes dificuldades em aceitar a perda e voltar à vida normalmente após o período que seria considerado um “luto habitual”.

Normalmente, os doze meses iniciais após a morte do ente querido tendem a ser os mais difíceis, pois é o período em que acontecem as primeiras datas comemorativas, como Natal, Ano Novo, aniversários, entre outros. Isso não significa que necessariamente o luto acontece por um ano para todos.

O processo pode ser diferente para cada um, mas costuma ser bem sucedido quando o indivíduo é capaz de, em algum momento, superar a perda e seguir em frente sem que a ausência ocupe um lugar de destaque em sua vida.

Nos casos em que a pessoa não consegue passar por essa fase, entra no que é chamado de luto complicado. É mais comum que isso aconteça com quem sofreu uma perda de maneira mais repentina, como em casos de acidentes, tragédias, suicídios ou perdas precoces. 

O mais comum em situações desse tipo é que a pessoa enlutada deixe de realizar as atividades cotidianas, até mesmo aquelas que proporcionam prazer. 

Quais são as fases do luto?

A diferença entre o luto complicado e o luto habitual estão muito pautadas no fato de que a pessoa fica presa às emoções negativas relacionadas à perda, sem condições de seguir em frente com a sua vida independentemente do tempo que passa.

As conhecidas fases do luto não são lineares, mas é importante conhecê-las para entender pelo o que o enlutado pode passar ao longo do processo:

1. Negação

A negação se trata de uma resposta instintiva ao choque, em que a pessoa cria uma barreira temporária para se proteger da perda e do impacto emocional causado.

Normalmente, se manifesta por meio de pensamentos como “isso não pode ser verdade”, mas com o tempo a negação perde força e dá espaço para outras emoções. Caso se prolongue demais, significa que há dificuldades para enfrentar a perda.

2. Raiva

A raiva aparece no momento em que se começa a aceitar a realidade da perda e a pessoa se sente injustiçada. Costuma ser uma emoção direcionada a outras pessoas, como familiares, amigos, médicos ou inclusive focada em quem partiu.

Os questionamentos mais comuns costumam ser “por que isso aconteceu comigo? não é justo”.

A raiva deve ser sentida e expressada, mas de maneira saudável. Conversas com amigos, parentes ou um profissional da área de saúde mental podem ser bastante valiosas para superar essa fase do luto.

3. Barganha

A barganha se trata de um forte desejo de reverter ou aliviar a dor causada pela perda, por isso, a pessoa faz promessas a si mesma ou a Deus, por exemplo, com o objetivo de que isso amenize o seu sofrimento.

Nessa fase, são comuns pensamentos como “se eu mudar minha forma de agir, posso evitar outras perdas”.

É quase um comportamento desesperado por algum tipo de controle sobre a situação do luto. A tendência é que, com o passar do tempo e o avanço no processo do luto, essa necessidade de barganhar seja reduzida.

4. Depressão

A depressão é o momento em que se sente o verdadeiro peso da ausência de quem partiu, ou seja, a pessoa experimenta sentimentos profundos de tristeza e desânimo, inclusive desinteresse por atividades cotidianas.

Alguns dos sintomas mais comuns são alterações no apetite, sono e no foco. Pode ser necessário buscar apoio profissional caso haja agravamento dos sintomas e dificuldade prolongada de sair dessa fase.

5. Aceitação

Por mais que não haja uma linearidade entre as fases anteriores, a aceitação tende a ser o estágio final, que é quando a pessoa já está mais adaptada à nova realidade após a perda.

Isso não significa que ela tenha se esquecido do ente querido ou superado a perda totalmente, mas que está conseguindo lidar de maneira mais saudável e conviver com a ausência da partida.

Novos interesses, objetivos e conexões podem ser realizados nesse período e, apesar de ainda haver riscos de oscilação, a tendência é que haja melhorias contínuas.

Quais são as origens mais comuns do luto complicado?

O luto complicado pode ser decorrente de várias causas.

Um deles é o caso de um vínculo muito forte com o falecido ou uma relação de dependência extrema. Diante da perda, a pessoa encontra grandes dificuldades para se reconstruir sozinha porque encontrava em quem partiu um equilíbrio, uma proteção ou uma razão de viver.

Também há casos de relações conflituosas, em que a morte repentina elimina a possibilidade de comunicação, deixando ressentimentos e desentendimentos em aberto.

Outra situação problemática que pode originar o luto complicado é uma morte muito chocante, como acontece em casos de suicídio, homicídio ou acidentes, por exemplo. Além da dificuldade de assimilar a situação como um todo, em muitos casos a pessoa se sente completamente dominada pela culpa.

Por fim, também é necessário levar em consideração a personalidade e o histórico de vida de quem está vivendo o luto. Isso porque pessoas que sofrem com alguma questão de saúde mental, como depressão, podem enfrentar mais dificuldades para lidar com situações dolorosas como a perda de alguém próximo.

Quais são os tratamentos para o luto complicado?

Em 2022, a Organização Mundial da Saúde (OMS) incluiu o luto prolongado entre os 55 000 códigos da Classificação Internacional de Doenças (CID). Além disso, a condição também passou a integrar o Manual de Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais (DSM).

Em ambos os documentos a diferença entre luto normal e patológico segue critério cronológico, determinando que o diagnóstico do transtorno de luto prolongado é aplicado após dozes meses desde a morte a pessoas que apresentam anseio intenso pela presença daquele que se foi, como raiva, tristeza, culpa e amargura de forma crônica e aguda, o que leva à incapacitação para realizar as atividades do dia a dia normalmente.

Essa iniciativa que classifica o luto prolongado e intenso como patologia é essencial para que mais pessoas tenham acesso ao tratamento adequado, inclusive porque muitas vezes o quadro pode ser confundido com a depressão.

O diagnóstico do luto complicado leva em consideração vários sintomas, sendo alguns deles:

  • Dificuldade para aceitar a perda;
  • Foco excessivo na perda e lembranças do falecido;
  • Dificuldades para voltar à rotina e realizar atividades do cotidiano;
  • Desejo intenso de encontrar a pessoa que partiu;
  • Comportamento antissocial;
  • Sentimento de falta de sentido para a própria vida.

Cada caso deve ser avaliado individualmente por profissionais da área da saúde que sejam capacitados para identificar os sintomas de um luto complicado antes que o mesmo possa contribuir para o desenvolvimento de transtornos ainda mais sérios.

Quando é diagnosticada uma questão psicológica relacionada ao luto, há dois tipos mais comuns de tratamentos a serem considerados: 

  1. Prescrição de antidepressivos e ansiolíticos, que aumentam a concentração de dopamina, noradrenalina, serotonina e outros neurônios com o objetivo de amenizar os sintomas;
  2. Psicoterapia, que visa atuar como um acompanhamento contínuo mais profundo.

Qual é o papel da psicoterapia no luto complicado?

A psicoterapia tem um papel fundamental na superação do luto que se prolonga por muito tempo e se torna uma barreira para uma vida equilibrada e saudável.

O acompanhamento de um psicólogo tem como objetivo contribuir para o processo de aceitação e expressão da dor, da culpa e de tudo aquilo que gera algum tipo de angústia em relação à perda do ente querido. 

Muitas vezes, a pessoa não consegue compreender de onde vem os sentimentos ruins, como a raiva e a culpa e, sem saber lidar com tudo isso, sente que está sucumbindo e perdendo o controle.

Com o passar do tempo, a intenção é que o paciente consiga elaborar e manejar de maneira mais saudável as suas emoções para, aos poucos, voltar a se concentrar na construção da sua nova vida.
Se você está passando por um luto complicado ou conhece alguém que está vivenciando esta situação e precisa de ajuda, não deixe de procurar suporte profissional. Gostou deste conteúdo? Continue aprendendo sobre saúde mental no blog da Vittude.

Bruna Cosenza

Escritora, produtora de conteúdo freelancer e LinkedIn Top Voice 2019. Autora de "Sentimentos em comum" e "Lola & Benjamin", escreve para inspirar as pessoas a tornarem seus sonhos reais para que tenham uma vida mais significativa.

Recent Posts

Tristeza: entenda as causas e aprenda a lidar com esse sentimento

Aprender como lidar com a tristeza é fundamental para construir uma vida mais saudável e…

1 dia ago

Motivação: 7 Estratégias para se manter inspirado em qualquer situação

Entenda o que é a motivação e quais fatores internos e externos influenciam essa força…

3 dias ago

Benefícios dos exercícios de mindfulness + 5 exemplos para incluir na sua rotina

Os exercícios de mindfulness são uma ótima estratégia para encontrar um pouco de paz, silêncio…

1 mês ago

Qual é a relação entre saúde mental e qualidade de vida?

Entenda como saúde mental e qualidade de se relacionam e confira hábitos que você deve…

1 mês ago

Quais são os efeitos colaterais de medicamentos psiquiátricos?

Entenda quais são os efeitos colaterais que podem ser causados por medicamentos psiquiátricos e tire…

1 mês ago

Técnicas de relaxamento para ansiedade: 8 dicas para aliviar crises

De acordo com a Organização Mundial da Saúde (OMS), o Brasil tem a maior prevalência…

1 mês ago