Psicoterapia

TCC: tudo sobre essa abordagem da psicologia

Entre tantas abordagens da psicologia, a TCC (terapia cognitivo comportamental) é uma das mais conhecidas e utilizadas no mundo todo, principalmente por trazer resultados significativos.

Os estudos sobre essa linha terapêutica começaram nos anos 60 e, desde então, ela só vem ganhando mais força por ser recomendada para o tratamento de diversas questões emocionais e transtornos mentais.

Ficou interessado em saber mais sobre a TCC? Neste artigo, você tem acesso a um conteúdo completo sobre o tema. Continue a leitura!

O que é a TCC e como funciona?

Apesar da TCC ganhar maior aceitação nos anos 70, os estudos começaram na década de 60.

O seu grande nome é o Dr. Aaron Beck, psicanalista e professor de psiquiatria da Universidade da Pennsylvania. Com os seus colaboradores, ele realizou estudos fundamentais sobre essa linha de pesquisa a fim de desenvolver a terapia cognitivo comportamental.

Para entender a TCC é preciso ter clareza sobre o conceito de cognição, que se caracteriza pelo conjunto de habilidades que uma pessoa tem para interpretar, prever, conhecer e perceber estímulos, gerando respostas para os mesmos. 

Ou seja: é a forma que percebemos tudo aquilo que nos cerca por meio dos cinco sentidos.

Dito isto, a terapia cognitivo comportamental tem como foco modificar os pensamentos do indivíduo e, consequentemente, comportamentos que podem estar trazendo prejuízos para a sua vida.

Visto que a TCC tem como base o modelo cognitivo, acredita que as emoções e comportamentos são influenciados pela maneira que a pessoa interpreta as situações ao seu redor.

Vamos a um exemplo… O seu líder no trabalho te chama para conversar e, assim que o convite é realizado, você pensa coisas como:

  • “Vou ser demitido”;
  • “Fiz alguma coisa errada”;
  • “Vou levar uma bronca”.

Tais pensamentos podem até mesmo gerar sintomas como coração acelerado, náusea, respiração rápida e mãos suadas. Tudo isso por acreditar que algo ruim vai acontecer, mas pode ser que o motivo da conversa seja outro.

Esses pensamentos, por sua vez, são automáticos e estão atrelados às crenças pré-estabelecidas na mente do indivíduo, que fazem com que ele se distancie do contexto real e torne a experiência como um todo negativa. Com isso, são gerados comportamentos e até mesmo respostas fisiológicas que podem ser bastante desconfortáveis.

Para entender ainda melhor essa abordagem, é importante destacar três elementos:

Emoções

As nossas emoções ditam o nosso comportamento. Esse processo ocorre tão automaticamente que muitas pessoas não conseguem pontuar quais emoções as motivaram a agir de determinada maneira. 

Um dos objetivos da TCC é modificar padrões comportamentais nocivos através do ensinamento de como lidar com a abundância de emoções. Dessa forma, situações demasiadamente negativas ou estressantes são administradas de modo mais sadio pelos pacientes da terapia. 

Pensamentos disfuncionais

Esta abordagem psicológica também leva em conta os pensamentos disfuncionais e o seu impacto no comportamento humano. Um pensamento disfuncional é caracterizado pela distorção da realidade. Ou seja, a pessoa faz uma interpretação errônea de uma situação e acredita fielmente nela. 

A partir das emoções geradas por esses pensamentos, surge o comportamento disfuncional. Se a pessoa não encontrar uma maneira de refreá-lo, ele poderá causar sofrimento a longo prazo. 

A TCC busca justamente quebrar esse padrão comportamental nocivo e substitui-lo por um padrão capaz de promover o bem-estar emocional dos pacientes. 

Crenças nucleares

A terapia cognitivo comportamental também trabalha com crenças nucleares, formadas a partir da história de vida de cada um. As experiências de vida que nós temos após a formação de uma crença ajudam a consolidá-la ou a contrariá-la. 

As crenças podem ser tanto positivas quanto negativas. Além de serem influenciadas por pensamentos disfuncionais e emoções, as interpretações do meio e de outros indivíduos também são impactadas pelas crenças nucleares. 

Quando uma pessoa chega à terapia com uma crença negativa reforçada por experiências de vida e sentimentos, se diz que ela possui uma crença rígida. A TCC usa técnicas específicas e incentiva a reflexão para fazê-la enxergar os prejuízos emocionais causados por sua crença.  

As crenças nucleares podem ser divididas em três categorias:

  • Crenças de desamor: o indivíduo acredita ser indesejado ou incapaz de ser amado, então prefere a solidão e não se abre para relacionamentos;
  • Crenças de desvalor: o indivíduo se sente ineficiente, defeituoso e fracassado independente da situação; e
  • Crenças de desamparo: o indivíduo se sente emocionalmente frágil e vulnerável, além de acreditar que não consegue lidar com as próprias emoções.

Os comportamentos que surgem a partir dessas crenças levam o nome de comportamentos de segurança, pois visam proteger as pessoas de uma situação desconfortável. Todavia, nem sempre eles são adequados. 

Às vezes esses comportamentos impedem que as pessoas confrontem os seus medos e, assim, elas vivem em sofrimento até conseguirem modificar as suas crenças. 

Para que serve a TCC?

A TCC se destaca pela sua base científica, pois os seus precursores partiram do método científico. A sua ideia central é mudar as crenças básicas que o paciente tem sobre si mesmo, a sua realidade e as outras pessoas.

A abordagem foca em analisar a relação de cada indivíduo com seus pensamentos, sentimentos e modos de agir. O terapeuta, por sua vez, entende que tudo aquilo que o paciente faz se baseia em como ele pensa e se sente diante das situações.

O trabalho inicial do profissional que atua com a TCC costuma ser identificar padrões de comportamento, compreendendo as emoções, pensamentos e ações do indivíduo. A partir disso, são realizadas intervenções diretas a fim de mudar aspectos disfuncionais e substitui-los por processos mais saudáveis.

8 técnicas utilizadas na terapia cognitivo comportamental

Na TCC, após a identificação dos problemas e do que está por trás de cada um deles, o terapeuta utiliza técnicas de intervenção, sendo algumas das mais utilizadas:

1. Psicoeducação

Nada mais é do que a explicação sobre as questões mais importantes relacionadas ao tratamento psicológico, por isso, deve ser feita de maneira didática.

A psicoeducação aborda o diagnóstico e as atividades que serão realizadas durante as sessões de terapia.

E por que isso é importante? Para aumentar as chances de adesão à terapia, pois o terapeuta está contribuindo para que haja envolvimento ativo durante todo o tratamento. Além disso, também ajuda a reduzir as inseguranças e ansiedades no processo.

2. Questionamento socrático

A atuação clínica da terapia cognitivo comportamental é baseada no questionamento socrático, que significa que o terapeuta realiza diversas perguntas com o objetivo de auxiliar o paciente no aprofundamento da sua própria compreensão sobre seus pensamentos.

Visto que muitas pessoas agem no automático, sem consciência sobre as emoções e pensamentos por trás de suas ações, é importante que sejam questionadas a fim de aprofundar a reflexão e pensar sobre todas essas relações.

É importante reforçar que, ao fazer perguntas, a função do terapeuta é possibilitar que os pacientes compreendam melhor os seus pensamentos e possam tomar melhores decisões.

3. Registro de pensamentos disfuncionais

Para identificar os elementos disfuncionais, o terapeuta pede ao paciente que registre os pensamentos desagradáveis que vão aparecendo em determinadas situações.

No caso de quem sofre com a ansiedade, por exemplo, é importante entender o que se passa pela cabeça da pessoa quando está com muito medo e ansiosa diante de alguns acontecimentos. 

Registrar pensamentos, sentimentos e reações físicas ajuda o indivíduo a tomar consciência de si e sair do automático.

4. Técnicas de exposição

A TCC é muito eficaz no tratamento de problemas específicos, como fobias, porque utiliza técnicas de exposição, que são úteis justamente por transportarem a pessoa para aquilo que causa medo ou ansiedade.

Ao mesmo tempo, durante essa técnica, ela aprende modos de controlar as emoções negativas e lidar com a situação de uma maneira mais saudável.

5. Dessensibilização sistemática

Trata-se de expor o indivíduo, de maneira gradual, segura e guiada pelo psicólogo, aos elementos que causam medo. Dessa forma, aos poucos o paciente consegue substituir os sentimentos de tensão por relaxamento.

A exposição não é física. Normalmente, o psicólogo conduz o paciente na sua imaginação. Ao pensar sobre a situação que gera medo e ansiedade, deve colocar em prática as técnicas de relaxamento aprendidas.

6. Técnicas de relaxamento

As pessoas que sofrem com medo excessivo ou transtornos de ansiedade enfrentam dificuldades para se acalmar diante de situações que são gatilhos. É comum conviverem com sintomas físicos, como taquicardia, náuseas, suor intenso, entre outros.

Nesses casos, as técnicas de relaxamento são muito úteis porque ajudam o paciente a conquistar o autocontrole em momentos mais críticos.

O psicólogo, por sua vez, orienta o indivíduo em relação à respiração, que é fundamental para oxigenar o corpo e voltar ao equilíbrio nessas situações. Além disso, também são recomendadas técnicas de relaxamento muscular, que visam elevar a concentração, reduzir a tensão e aumentar o bem-estar.

7. Troca de papéis

Esta técnica utiliza a visualização ou imaginação para gerar maior tomada de consciência sobre algumas vivências, principalmente no que diz respeito aos conflitos interpessoais.

Ao realizar a troca de papéis, o terapeuta incentiva o paciente a se colocar no lugar de outra pessoa, o que contribui para que consiga avaliar a situação a partir de outro ponto de vista. Dessa forma, o paciente deve se comportar na terapia como se fosse a outra pessoa.

É um ótimo exercício para desenvolver a empatia e, assim, promover a melhoria das relações. Portanto, é uma técnica muito utilizada em treinos de habilidades sociais.

8. Observador distante

Em diversos casos, a pessoa não consegue superar seus problemas por não ter a capacidade de analisá-los com eficiência. Quando se está vivendo uma situação complexa, a solução nem sempre é óbvia.

Nessas situações, a visão de amigos e familiares que não estão passando pelo problema pode ajudar a enxergar caminhos para superar as adversidades.

Essa técnica do observador distante consiste em estimular o paciente a usar a imaginação para visualizar os seus problemas e desafios como se fossem uma representação. Assim, é possível reduzir as reações emocionais a fim de fazer uma análise mais lúcida e clara da situação.

Para quem a TCC é recomendada?

A TCC é recomendada em diversos casos, sendo os mais comuns:

  • Depressão;
  • Transtorno de ansiedade generalizada (TAG);
  • Transtorno bipolar;
  • Transtorno de estresse pós-traumático;
  • Fobia social;
  • Síndrome do pânico;
  • Gerenciamento de estresse;
  • Problemas de relacionamento;
  • Baixa autoestima;
  • Transtorno do Déficit de Atenção com Hiperatividade (TDAH);
  • Compulsões;
  • Distúrbios alimentares;
  • Irritabilidade;
  • Agressividade;
  • Comportamentos autodestrutivos;
  • Transtorno obsessivo compulsivo (TOC).

No caso de condições médicas, a TCC também é uma abordagem da psicologia muito indicada. Apesar de não curar problemas físicos, ajuda o paciente a lidar melhor com os sintomas. Os quadros que costumam se beneficiar são:

  • Enxaqueca;
  • Fibromialgia;
  • Hipertensão;
  • Doenças coronarianas;
  • Síndrome do cólon irritável;
  • Artrite reumatoide;
  • Síndrome da fadiga crônica.

5 características importantes da TCC

Para finalizar este artigo, é interessante conferir um resumo com as principais características da terapia cognitivo comportamental:

1. Sessões com foco nos problemas atuais do paciente

Caso ainda não tenha ficado claro, o principal objetivo da TCC é tratar problemas e sintomas analisados no momento presente. 

Essa abordagem da psicologia, portanto, não foca em resolver questões do passado que não geram mais incômodo hoje em dia. 

No entanto, isso não significa que o terapeuta não leva em consideração todo o histórico de vida do indivíduo, afinal, faz parte do seu trabalho entender como experiências passadas podem impactar os problemas do presente.

2. A TCC é empírica

Os tratamentos sugeridos pela TCC são baseados em evidências científicas que comprovam a sua eficácia, ou seja, as técnicas aplicadas nas sessões são testadas em ensaios clínicos.

Além disso, é uma abordagem empírica porque tanto o terapeuta como o paciente observam constantemente os resultados das estratégias aplicadas a fim de atingir os melhores resultados.

3. É uma terapia prática

Conforme você aprendeu ao longo deste artigo, a TCC aplica diversas técnicas e, portanto, é bastante prática, orientada para a solução dos problemas trazidos nas sessões.

O terapeuta sugere que o paciente realize determinadas tarefas e experimentos com o objetivo de identificar e mudar padrões de comportamento e pensamento negativos.

4. A TCC é colaborativa

Juntos, paciente e psicólogo participam ativamente de todo o processo trocando informações.

Do lado do paciente, é necessário expor as suas dificuldades e desafios e analisar se as técnicas utilizadas pelo terapeuta são adequadas para a sua rotina. Assim, também é responsável por dar feedbacks e comentar sobre as suas percepções em relação às tarefas e exercícios.

O psicólogo, por sua vez, deve compartilhar as ferramentas que contribuem para o gerenciamento dos sintomas revelados pelo paciente e fazer os questionamentos certos.

5. O tratamento é mais rápido

Conforme as estratégias da terapia cognitivo comportamental são assimiladas e aplicadas, o paciente passa a ter mais autonomia no dia a dia.

Isso significa que as sessões de TCC têm como objetivo ensinar técnicas e desenvolver habilidades para que, aos poucos, o paciente possa utilizar tudo isso de forma independente.

Com isso, há um limite de tempo para o tratamento, que varia de acordo com as necessidades de cada indivíduo. Normalmente, as sessões chegam ao final quando as metas definidas no começo da terapia são atingidas.

Quais outras abordagens da psicologia existem além da TCC?

Nem todas as abordagens da psicologia são práticas e empíricas como a terapia cognitivo comportamental. Cada uma tem um viés diferente, com uma prática que pode variar bastante de acordo com a especialização do profissional.

Entre tantas abordagens, algumas das mais famosas são:

  • Psicanálise;
  • Behavorismo;
  • Fenomenologia;
  • Psicologia Analítica Junguiana
  • Gestalt-Terapia;
  • Abordagem centrada na pessoa.

Para entender qual é a mais adequada para você, é importante se aprofundar em cada uma delas e, é claro, tirar as suas dúvidas com o psicólogo. Não há ninguém melhor do que o próprio profissional para explicar melhor como funcionam as sessões.

Por aqui, você aprendeu mais sobre a TCC, uma das principais abordagens da psicologia, mas se quiser conhecer as demais, continue navegando pelo blog da Vittude para conferir outros conteúdos e aproveite também para baixar agora mesmo o Guia completo das principais abordagens da psicologia!

Bruna Cosenza

Escritora, produtora de conteúdo freelancer e LinkedIn Top Voice 2019. Autora de "Sentimentos em comum" e "Lola & Benjamin", escreve para inspirar as pessoas a tornarem seus sonhos reais para que tenham uma vida mais significativa.

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