Ser mãe é padecer no paraíso

Ser mãe é padecer num paraíso

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A frase do título é bastante famosa e faz parte de um poema de Coelho Neto. E quantas vezes as mães comentam isso? Usam a máxima de “padecer num paraíso” como elogio à maternidade. O paraíso, é claro, denota o quanto ser mãe é bom. Mas aí vem o padecer, cujo significado é ser atormentado, afligido, martirizado por algo. E isso acontece mesmo. Vende-se uma imagem de que a maternidade é um amor instantâneo. De que ser mãe é a melhor coisa que uma mulher pode alcançar. Ninguém fala sobre as agruras, as dificuldades, as dúvidas que acompanham esse novo ser que agora faz parte da família. Tudo isso gera insegurança, sofrimento, e pior, culpa. Afinal, como posso estar me sentindo triste, incapaz, cansada, desanimada quando deveria estar “soltando fogos de artifício”, comemorando, rindo à toa?

Outro dia recebi uma corrente de internet de autor desconhecido com dizeres: “A mãe perfeita não grita, não se desespera, não perde a calma e, sobretudo, não existe!” Achei bastante sábio e o compartilhamento veio a calhar. É bom sempre lembrar: mães são humanas!

Claro que existe um lado maravilhoso e gratificante de ser mãe. No entanto, há atualmente algumas mães que têm “saído do armário”. São mulheres corajosas que nas redes sociais postam sentimentos e questionam onde está essa maravilhosa maternidade.  O que percebem são momentos difíceis, já que sentem-se frustradas, cansadas e até mesmo incapazes às vezes. Em um primeiro momento, tais revelações foram tomadas como choque. Alguns perfis e posts foram retirados de circulação, tamanha a revolta de quem os leu.

Nem tudo são flores para uma mãe

Sem querer julgar o que é certo ou errado, essa realidade exposta chama a atenção para certas dificuldades opostas à “propaganda enganosa”, que veicula somente o lado maravilhoso de ser mãe e doura a pílula. Por exemplo, há um consenso de que amamentar é fundamental, mas será que é necessário achar ou melhor sentir que esse ato é a “maior maravilha do mundo”? E aquelas mães que sentem dor, desconforto ou que não conseguem amamentar? Vamos culpá-las, castigá-las? Isso acontece o tempo todo e percebemos que os sentimentos de culpa e frustração só aumentam, pois elas não têm abertura para falar claramente sobre isso, o que se torna um grande tormento.

Ao ter a coragem de expor que há momentos em que ser mãe é extremamente complicado, em que o cansaço e o desânimo tomam conta, em que repensa-se até a vontade de ser mãe, essas mulheres nos trazem uma reflexão sobre algo sobre o lado muito humano das mães. É a exposição de uma verdade, de uma realidade que ajuda àquelas que estão passando por percalços a terem a consciência de que não são más mães por causa disso.

Ser mãe nem sempre é um mar de rosas

Muito se fala do amor materno incondicional. Sim, mãe é aquele ser supostamente capaz de dar a vida pelos filhos. Mas e quando isso não brota? Quando não é instantâneo? Quando a frustração de um bebê não corresponder às suas expectativas realmente existe? Como lidar com isso? É um sonho que se desfaz, na verdade até um luto por algo que não se cumpriu. O que dizer para as mães cujos filhos nasceram com microcefalia ou qualquer condição médica grave, não sendo aqueles seres perfeitos que foram imaginados durante a gestação? Não temos total domínio do amor. A mãe que passa por essa situação costuma partir sempre de uma autocrítica. “Não sou suficientemente boa. Não nasci para ser mãe”.

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Críticas externas

Isso sem contar as críticas externas, que muitas vezes chegam por meio de conselhos que apontam o que esta mãe está fazendo de errado, sempre com as ‘melhores intenções’. Que tal se, ao invés dessa postura, ouvíssemos esses discursos frustrantes e tristes, procurando entender este outro lado e concordando que a maternidade não é um mar de rosas, um paraíso o tempo todo. Muitas vezes o padecimento é tão grande que impede o encontro do paraíso. O amor pelos filhos não é macarrão instantâneo, pronto em 3 minutos. Ele cresce, é construído, um sentimento que vai surgindo, não brota imediatamente ao olhar o seu bebê. 

Essas mães, no fundo, estão mostrando à sociedade que existe um lado duro da maternidade e que não há vergonha em desvelá-lo.  Não é uma decisão a ser tomada: “a partir de agora, passarei a amar meu filho e a ser a melhor mãe do mundo, sem sofrimento, apenas com coisas boas”. É uma construção. O primeiro passo, sempre, é reconhecer aquilo que incomoda e que faz com que a pessoa queira mudar para que novos caminhos sejam encontrados. Muitas vezes, essa é uma mudança de olhar para uma realidade. Sem críticas e sem inverdades. Trabalhando-se na realidade daquela que sofre, e não daquele que a vê sofrer.

Por fim, vale a ressalva de que, em muitos destes casos, o cuidado com a saúde mental tem extrema importância. Plataformas como a Vittude podem facilitar a busca por um psicólogo que atenda a requisitos específicos para atender a todos que precisem de acompanhamento. Acesse nosso site e confira você mesmo todas as oportunidades oferecidas!

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Artigo revisado em: 15/10/2019

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Tatiana Pimenta

CEO e Fundadora da Vittude. É apaixonada por psicologia e comportamento humano, sendo grande estudiosa de temas como Psicologia Positiva e os impactos da felicidade na saúde física e mental. Cursou The Science of Happiness pela University of California, Berkeley. É maratonista e praticante de Mindfulness. Encontrou na corrida de rua e na meditação fontes de disciplina, foco, felicidade e produtividade.