compaixão

Compaixão: os benefícios de desenvolver um olhar compassivo ao outro

Compaixão: os benefícios de desenvolver um olhar compassivo ao outro
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Compaixão é a capacidade de compreender o estado emocional de outra pessoa ou de si mesmo. Muitas vezes confundida com a empatia, a compaixão tem o elemento adicional de ter um desejo de aliviar ou reduzir o sofrimento do outro.

Ter compaixão por alguém envolve mais do que colocar-se em seu lugar e genuinamente querer compreendê-lo ou mesmo ajudá-lo. Envolve começar a ter uma perspectiva totalmente diferente quando se trata de como você percebe os outros.

O olhar da compaixão

Com o passar de nossa vida, vamos desenvolvendo milhares de relações cada vez mais viciadas. Olhamos aos outros e a nós mesmos sempre a partir de perspectivas restritas. E, muitas vezes, danosas: minha mãe é sempre minha mãe, meu irmão sempre meu irmão, meu namorado, meu ex, meu amigo, meu inimigo. Todas as suas manifestações são julgadas a partir disso, fechadas em condições construídas por nós.

Acabamos esquecendo de reconhecer o outro como um ser livre e complexo, tão único e cheio de experiências como nós. Quando não prendemos as pessoas em nossas cápsulas mentais, nos roteiros que criamos diariamente com elas mesmo que elas não estejam presentes, damos liberdade para um maior cuidado. O olhar mais amplo, que libera nós e os outros das dores e sofrimentos, é o olhar da compaixão.

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O que é a compaixão?

Ter compaixão é justamente dar essa liberdade para o sentimento nosso e dos outros. Criar empatia pelas vivências das pessoas incondicionalmente e indo além, buscando por maneiras de ajudá-las.

Etimologicamente, a palavra compaixão tem origem no latim compassionis, que significa “sentimento comum” ou “união de sentimentos”. A compaixão, essa junção nossa com o sentimento do outro, leva automaticamente à solidariedade, ao altruísmo, ações essenciais para a existência e sobrevivência da humanidade.

Isso independe das condições, não se trata de gostar ou não de alguém. Não é preciso passar a gostar de alguém para ter compaixão. É preciso sentir e fazer o bem com todos, mesmo com aqueles que nos trazem sentimentos negativos. Essa característica, chamada de equanimidade ou imparcialidade, é uma das mais fundamentais dentro de atos compassivos.

“Lembre-se que nenhum de nós pode estar o tempo todo com as pessoas que gostamos, e então, quando você estiver com pessoas das quais realmente não gosta, tente focar sua mente em pensamentos bons, ainda que pareçam fracos, falsos ou hipócritas. Lembre-se que sua reação aos outros é meramente a sua própria interpretação sobre o que eles são, e tente se colocar no lugar das pessoas que te incomodam. Lembre, eles se sentem tão paranóicos quanto você, e estão igualmente dominados por suas emoções poderosas.”

— Dzongsar Jamyang Khyentse

As relações de compaixão

É possível e saudável construir relações a partir da compaixão. Quando não nos relacionamos com o outro através de nossa visão restrita e de mundos limitados, somos capazes de olhar para o sofrimento, sentir junto com o outro e, a partir disso, encontrar soluções mais lúcidas para os problemas.

Quando construímos relações a partir do desejo que o outro seja feliz, independente de suas ações ou de meus sentimentos sobre a pessoa, libertamos o outro das prisões de nosso julgamento e, consequentemente, nos libertamos de ser uma prisão. Apoiar e ser apoiado por outras pessoas é um dos caminhos para a felicidade.

A alegria que vem dessa intenção altruísta de compaixão é um remédio poderoso para nossas aflições, nossas dores. Ver o outro como igual e tão complexo como nós gera a sensação de não estarmos sozinhos, de não nos fecharmos em nossos problemas individuais, de entendermos que somos parte de um meio e podemos agir a favor disso para o nosso bem e de todos.


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Como gerar um olhar compassivo

Nas últimas semanas, depois da morte de Marielle Franco no dia 14 de março, o que temos visto é uma explosão de atos de compaixão por todo o Brasil e pelo mundo. Sim, Marielle representava a luta de muitos grupos e isso reforçou a indignação e o movimento pelo bem. Mas é essencial saber que não é preciso que ninguém tão significativo ou que tenha uma relação com nós morra para despertarmos essa compaixão diariamente.

Quando treinamos o olhar compassivo, ele passa a nascer como o cuidado de uma mãe por seu filho: é uma preocupação espontânea, natural pelo bem-estar do próximo. No momento em que realizamos que todos os seres estão buscando por saúde, felicidade, conforto e lutando contra as dores e sofrimentos, conseguimos ser mais empáticos e agir a favor desse movimento.

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O olhar compassivo também nos incentiva a cultivar um interesse genuíno pelos outros, sem autocentramento. Quando uma pessoa ouve o que você está falando olhando nos seus olhos e escutando verdadeiramente cada palavra, a conversa parece mais sincera, mais gostosa, não é? Entretanto, são raros os casos em que nos abrimos verdadeiramente para o outro e, principalmente, permitimos que o outro se abra para nós, com atenção plena.

Olhar para o outro não como um instrumento de minhas vontades, mas como um ser inteiro dentro de si mesmo faz acender o sentimento de companheirismo e a surpresa de estarmos presenciando um espetáculo só em existir. Perceber isso nos faz falar menos de nós, pensar menos sobre como vai ser nossas respostas enquanto conversamos, mas ouvir com calma, perguntar, entender para nos manifestarmos de forma plena, aberta e sem julgamentos.  

“A atenção é o melhor presente que podemos dar ao outro. […] Nossa capacidade de amar depende da qualidade da nossa atenção.”

— Don Laurence Freeman

O caderno de seres

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Um dos exercícios para treinar essa compaixão é a construção de um caderno de seres. Pense por um momento em todas as pessoas que você já conheceu na vida. São muitas, não são? Quando você lembra delas, parte de alguma condição sua? Por exemplo: minha mãe, meu amigo de escola, meu colega de trabalho, o frentista do posto que frequento, a atendente do consultório, minha médica? Qual o nome de cada uma dessas pessoas, independente da relação delas com você? Quem elas são?

Pegue um papel e uma caneta e comece a anotar todos os nomes das pessoas que já passaram por sua vida. Nesse momento, você vai perceber que logo abaixo do nome do seu pai, por exemplo, pode estar o nome de um vizinho do qual você mal tem contato ou da diarista que limpa que sua casa. Quando fazemos isso, percebemos que não precisamos dar mais ou menos importância para ninguém. Podemos ser o melhor de nós mesmos para todos, ver todos os seres com compaixão.

Amar o estranho

“Você é capaz, ao menos por um momento, de perceber essas pessoas em sua autonomia, mistério, majestade, tragédia? Pode vê-las como fins em si mesmas, e não como meios para os seus fins? Pode notar a natureza restritiva e seletiva da imagem que você tem delas? Pode abrir mão do desejo de abraçar o amigo e banir o inimigo? Pode amar o estranho?”

—Stephen Batchelor

Se, depois desse exercício, você conseguir andar na rua focando melhor em cada rosto, sem se fechar em seus problemas e pensamentos, mas prestando uma atenção breve nas vidas que estão ao seu redor o tempo todo, já está funcionando. Quando saímos de nosso autocentramento para a compaixão, diminuímos o peso de nossos próprios problemas. E, consideramos o todo em que estamos envolvidos constantemente. A partir disso, podemos ajudar aos outros e a nós mesmas.