Simsimi: um app que pode prejudicar a saúde mental dos seus filhos

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Desenvolvido pela empresa SimSimi Inc., o aplicativo SimSimi tem causado preocupação nos pais de crianças e adolescentes no Brasil. De acordo com relatos, o programa expõe os usuários a conteúdos inadequados.

Disponível para os sistemas Android, IOS e também pelo computador, o objetivo do aplicativo SimSimi é simular uma conversa entre o usuário e um personagem virtual. Na descrição do software, os desenvolvedores destacam que o aplicativo representa uma aplicação de inteligência artificial. Essa é capaz de manter diálogos amigáveis, complexos e com linguagem elaborada.

Porém, as informações que estão se espalhando nas redes sociais e em grupos de Whatsapp expõem uma realidade diferente. Há relatos de que o aplicativo realiza afirmações em tons ameaçadores, faz xingamentos, propostas sexuais e em alguns casos, utiliza-se de falas que podem gerar desconforto emocional ao usuário.

Resolvemos averiguar pessoalmente os recursos do aplicativo para identificar seu funcionamento. Verificamos que mesmo quando o aplicativo está configurado para utilizar uma linguagem amigável com o usuário, em várias ocasiões observa-se o uso de expressões ofensivas e invasivas. Algo que chamou a atenção é que em alguns momentos, mesmo ao tentar desenvolver um diálogo amigável, o aplicativo agiu de forma inadequada utilizando xingamentos.

É possível restringir o uso pela idade?

Apesar de ter sido criado para usuários com 16 anos ou mais, o aplicativo não possui recursos que restrinjam a idade dos participantes. Portanto, uma maneira de gerenciar o acesso a este conteúdo é por meio dos recursos oferecidos no Google Play ou App Store. 

Uso de termos ofensivos e palavrões

O aplicativo oferece um recurso para diminuir ou aumentar o uso de termos ofensivos e palavrões. No entanto, conforme ressaltamos, mesmo ao configurarmos o aplicativo no nível mínimo, houve a incidência de tais termos durante o diálogo e sem que o software fosse incitado para tal.

Aplicativo Simsimi e o Abuso on-line

Essencialmente, o que verificamos no aplicativo é que de fato ele pode oferecer uma experiência negativa ao usuário por meio de diálogos hostis. Em dados momentos podem representar um abuso online contra as pessoas à medida que ameaça, xinga, realiza propostas de cunho sexual, entre outras coisas.

Nesse sentido, grupos como a organização britânica NSPCC, cujo objetivo é o de proteger o abuso infantil no Reino Unido, nas Ilhas do Canal e na Ilha de Man, oferecem conselhos sobre como identificar sinais de assédio online de crianças. Assim como práticas para construção de conexão emocional, criação de vínculo e as melhores formas de evitar que este tipo de situação aconteça, que podem nos ajudar.

Configura-se como abuso on-line qualquer tipo de abuso que ocorra na web, seja por meio de redes sociais, jogando jogos online ou utilizando smartphones. As crianças podem vivenciar cyberbullying, aliciamento, abuso sexual ou abuso emocional.

Em algumas situações as crianças podem pensar que não há como fugir do abuso online. Por exemplo, há relatos de que o aplicativo SimSimi já ameaçou pessoas que informaram que iriam desinstalar o aplicativo por meio de afirmações do tipo: “Eu sei onde você mora, eu vou atrás de você.”.

Quem é afetado pelo aplicativo Simsimi?

Considerando a complexidade do ser humano, definir quem pode ser afetado por este tipo de situação não é uma tarefa simples. Diferentes circunstâncias na vida de uma pessoa podem torná-la mais vulnerável.

Em relação à idade, os pré-adolescentes e adolescentes representam um grupo especialmente vulnerável para casos de abuso online. Habitualmente, crianças de 11 a 12 anos iniciam o contato com o mundo online e começam a assumir alguns riscos. Por mais que ainda não tenha desenvolvido por completo habilidades para reconhecer o perigo e para agir de forma resiliente frente a situações que poderiam causar perturbações.

Nesta fase, os jovens também podem iniciar a exploração de sua sexualidade. Eles podem encontrar pornografia ou iniciar relacionamentos online com pessoas que não conhecem (Munro, 2011; Livingstone, 2012).

Diferença entre gêneros

Uma pesquisa realizada por Livingstone (2009) identificou que meninos e meninas diferem nos tipos de riscos que assumem online. De acordo com os pesquisadores, os meninos são mais propensos a:

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  1. Procurar pornografia ofensiva ou violenta e;
  2. Encontrar pessoas que conheceram online.

Já as meninas, são mais propensas a:

  1. Ficarem perturbadas com conteúdo pornográfico online violento ou ofensivo;
  2. Conversar online com pessoas que elas não conhecem;
  3. Receber comentários sexuais indesejados e;
  4. Receber mais pedidos para que forneçam informações pessoais.

Sinais, indicadores e efeitos

Destaca-se que, independentemente do tipo de abuso sofrido, muitos dos sinais apresentados pelas crianças são os mesmos. Assim, uma criança pode estar sofrendo algum tipo de abuso online se:

  1. Gastar muito, muito mais ou muito menos tempo online, seja escrevendo, jogando ou navegando;
  2. Demonstram chateação ou indignação após o uso da internet;
  3. São reservados sobre com quem estão conversando e/ou o que estão fazendo on-line;
  4. Apresentam muitos novos números de telefone, textos ou endereços de e-mail em seus aparelhos (smartphone, laptop, tablet, etc.).

Nesses casos também é possível observar sofrimento emocional e sintomas psicológicos podem surgir. Ansiedade, angustia, alterações de humor, dificuldades para dormir e irritabilidade são alguns exemplos de estados que as pessoas podem experimentar e que devem ser tratados por um psicólogo.

É importante que os pais estejam atentos a todos estes detalhes e a mudanças bruscas no comportamento dos seus filhos. Os pais devem se mostrar abertos ao diálogo e disponíveis para conversar sobre qualquer tema. Além disso, é altamente aconselhável procurar a ajuda de psicólogos ou especialistas quando estes sinais forem identificados.

 

Felipe Fernandes Lima (CRP 06/127700). Psicólogo pelo Centro Universitário Salesiano de São Paulo – UNISAL e Especialista em Avaliação Psicológica pelo IPOG. Atua como pesquisador na Vetor Editora Psicopedagógica, é Responsável Técnico na Vittude, professor do Instituto de Pós-Graduação e Graduação (IPOG) e professor convidado da Pós-graduação em Psicologia do Trânsito na Unip. Possui experiência em construção de instrumentos psicológicos para avaliação da personalidade e fenômenos cognitivos. Ministra aulas relacionadas à personalidade, avaliação psicológica, ética e elaboração de documentos produzidos por psicólogos. Atualmente, é membro colaborador do Laboratório de Psicodiagnóstico e Neurociências Cognitivas (LaPeNC).

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Tatiana Pimenta

CEO e Fundadora da Vittude. É apaixonada por psicologia e comportamento humano, sendo grande estudiosa de temas como Psicologia Positiva e os impactos da felicidade na saúde física e mental. Cursou The Science of Happiness pela University of California, Berkley. É maratonista e praticante de Mindfulness. Encontrou na corrida de rua e na meditação fontes de disciplina, foco, felicidade e produtividade.