Violência contra a mulher: quando o inimigo dorme ao lado

Violência contra a mulher: quando o inimigo dorme ao lado

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As questões de gênero se encontram hoje no centro dos principais debates sociais, culturais e políticos.   É preciso lutar para reduzir as alarmantes estatísticas de violência contra a mulher. E ainda buscar a igualdade de direitos e oportunidades. No mundo todo, 40% dos feminicídios (homicídios de mulheres) são cometidos por parceiros íntimos. No Brasil, a  exposição pública das agressões físicas sofridas pela modelo e atriz Luiza Brunet por seu ex-companheiro, o empresário Lírio Parisotto, trouxeram à tona outras tristes realidades: a alta frequência com que a violência doméstica acontece é inversamente proporcional às  denúncias e à procura por ajuda psicológica.

Dados do Senado Federal e da Secretaria de Políticas para Mulheres estimam que mais de 13,5 milhões de brasileiras, cerca de 19% da população feminina com mais de 16 anos, já sofreram algum tipo de agressão. Das que sofreram violência, 31% ainda convivem com o agressor, sendo que 14% continuam sofrendo violência.

Violência contra a mulher: quando o inimigo dorme ao lado

Cerca de 19% da população feminina com mais de 16 anos já sofreu algum tipo de agressão

Uma pesquisa do Data Popular para o Instituto Avon aponta que 3 em cada 5 mulheres de 16 a 25 anos já sofreram algum tipo de violência em relacionamentos amorosos. A contradição é : apenas 8% admitiram espontaneamente o problema. 66% das entrevistadas afirmaram que já foram xingadas, empurradas, agredidas verbalmente. Já levaram tapas e socos, foram impedidas de sair de casa e obrigadas a fazer sexo. São crimes que não obedecem a padrões de escolaridade. Tampouco credo, aparências ou classe social e acontecem muito perto de nós, todos os dias. 

Violência doméstica – Medo e estigma social

O estigma social e o medo do parceiro são apenas alguns dos fatores que mantém o silêncio dessas mulheres. Muitas temem a perda da segurança financeira. Temem a perda dos filhos, da moradia e do próprio vínculo amoroso, por mais daninho que seja. Mulheres com padrão de apego ambíguo tendem a se manter em relações ruins e destrutivas. Elas aprenderam com seus pais ou cuidadores que sentimentos como amor, dor e raiva estão associados. Pais que rejeitam e ao mesmo tempo promovem acolhida ensinam aos filhos que assim se estabelece o amor.

Violência doméstica

Na grande maioria dos casos, posso perceber que a mulher que se mantém em relacionamentos destrutivos, seja ele, por violência ou por humilhações frequentes, é uma mulher que experienciou em suas relações primárias significativas – pais ou cuidadores, dinâmicas de relacionamento de amor hostis. E não necessariamente violentas, mas relações estabelecidas por meio do amor+medo, amor+ausência, amor+chantagem emocional, amor+falta de afeto.


Confira o artigo: Amores Tóxicos: 20 frases presentes em um relacionamento destrutivo! Produzido pela psicóloga Aline Lisboa, no Blog Lysis Psicologia.


Isso faz com que essa mulher tenha uma percepção muito empobrecida de si e das relações, e não perceba recursos de enfrentamento diante dessa situação. Além disso, o modelo de relações estabelecido primariamente se torna o modelo base para a formação das novas relações e por pior que seja é o conhecido. É o que ela sabe lidar. É o que traz segurança. E segurança nada tem a ver com qualidade da relação. Por isso elas acabam voltando para o marido e/ou companheiro.

É preciso falar a respeito e promover educação

É difícil romper essa dinâmica. Por isso, falar a respeito e promover educação são ações importantes para o encorajamento e o reconhecimento de que isso não é normal. Amor, dor e rejeição definitivamente não andam juntos, mas é comum que as mulheres cheguem ao consultório com sentimentos confusos. Muitas nutrem um sentimento de amor e carinho pelo parceiro. Poucas chegam decididas a romper esse relacionamento. Elas se perguntam o que estão fazendo para que sejam tratadas desse jeito. Sempre  acreditam que ele vai mudar para melhor. O entorno costuma ser muito crítico e opressor, diminuindo potenciais recursos para a promoção da construção de uma nova dinâmica, como buscar ajuda especializada e fazer a denúncia. A rede de apoio é muito importante para que essa mulher consiga sustentar essa separação.

O papel da psicoterapia

A psicoterapia tem o papel de  promover recursos de enfrentamento e dar significado a essas vivências para a construção de novas dinâmicas de relacionamentos. No consultório, ela estará amparada num ambiente sem julgamentos. Apesar das dificuldades, marcas e perdas, reconstruir-se é possível. Como as agressões costumam ser recorrentes, é comum que a mulher perda a credibilidade com os filhos, a família e a sociedade. Sentir-se segura e distante do agressor é um facilitador. A terapia é fundamental para trabalhar sua autoestima e instaurar uma nova dinâmica em que aquilo que é bom não venha acompanhado daquilo que é ruim. Em todo caso, o trabalho leva tempo e requer disposição e apoio familiar.

A terapia entra no sentido de construir na relação paciente-terapeuta, um novo modelo base, significativo, que sirva de modelo para novas construções. E é nessa relação que ela poderá melhorar a percepção de si mesma, que é tão empobrecida, e explorar seus modelos com segurança. Podendo encontrar uma forma mais funcional para os relacionamentos.

Outro fator importante é pensar no estigma social. A comunidade enxerga essa mulher como fraca. Popularmente falando, “uma sem vergonha”, “mulher de malandro”, o que colabora ainda mais para que se calem e sofram o abuso no silêncio de suas casas.

Falar sobre o assunto sem preconceito é um primeiro passo para romper a barreira do silêncio.

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Amparos da Lei Maria da Penha

Importante: os diferentes tipos de agressão à mulher estão amparados na Lei Maria da Penha. Casos de violência, doméstica ou não, devem ser denunciados em qualquer Delegacia da Mulher. Caso não haja uma especializada próxima de sua residência a denúncia deve ser feita na DP comum. A Central de Atendimento à Mulher também acolhe denúncias anônimas pelo telefone 180. As denúncias podem ser feitas 24 horas por dia, 7 dias por semana. As ligações são gratuitas. O aplicativo Clique 180, desenvolvido pela ONU Mulheres e pela Secretaria de Políticas Para Mulheres, está disponível para os sistemas iOS e Android, contendo informações e orientações.

Um psicólogo pode te ajudar a compreender e enfrentar melhor todas as implicações pessoais e sociais do abuso e da agressão. Busque ajuda! Fale conosco e encontre um profissional qualificado perto de você.

* Artigo revisado e atualizado em 30/05/2019.

Priscila Morozetti Jarró, psicóloga formada pela FMU. É parceira da Vittude. Possui formação em terapia do luto, crise e emergência pela PUC/SP e Instituto Quatro Estações. Atende adolescentes, adultos, idosos e casais com base na Terapia do Apego. 

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Tatiana Pimenta

CEO e Fundadora da Vittude. É apaixonada por psicologia e comportamento humano, sendo grande estudiosa de temas como Psicologia Positiva e os impactos da felicidade na saúde física e mental. Cursou The Science of Happiness pela University of California, Berkley. É maratonista e praticante de Mindfulness. Encontrou na corrida de rua e na meditação fontes de disciplina, foco, felicidade e produtividade.