Crianças superdotadas fazendo cálculos matemáticos

Criança superdotada: como reconhecer inteligência e altas habilidades

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Culturalmente, a inteligência é associada a erudição, brilhantismo, desempenho acadêmico impecável e genialidade. Pessoas inteligentes são vistas como mais bem sucedidas, influenciadoras e felizes. Outra imagem que vem à mente é que a pessoa inteligente é naturalmente introvertida, usa óculos com lentes grossas, tem poucos amigos ou preferências e hábitos estranhos. Ou seja, representa a figura do “nerd”. Será que essas concepções se confirmam? Se não são verdadeiras, quais são as reais características de uma pessoa muito inteligente? Como reconhecer e lidar com uma criança superdotada?

Antes de aprofundar essas questões, é muito importante deixar claro que o comportamento inteligente é inerente a todos nós. Somos seres inteligentes porque temos habilidades cognitivas (memória, atenção, raciocínio e linguagem, principalmente). Elas são utilizadas de modo integrado em diversas situações para a adaptação e para transcender o aqui-e-agora do mundo concreto. Somos todos capazes de imaginar, planejar, alcançar metas, resolver problemas, desenvolver estratégias conforme as necessidades e mudanças do ambiente. Mesmo assim, alguns parecem ser dotados de potenciais intelectuais grandiosos manifestos sem grande esforço, como se nascessem com capacidades superiores.

Capacidade inata ou adquirida?

Superdotação e altas habilidades infantis
O filme “Gênio Indomável” aborda os temas superdotação e altas habilidades

A psicologia das diferenças individuais busca compreender o que nos torna singulares e distintos uns dos outros em duas linhas de investigação: a da personalidade e a da inteligência. Na área da inteligência, muito se debate sobre o quanto essa capacidade seria inata ou adquirida de acordo com as experiências. Sabe-se hoje que tanto o fator genético quanto o ambiental exercem influências. Porém, a pessoa superdotada é naturalmente mais inteligente do que a maioria da população. Ela não precisa de ambientes hiper estimulantes para que de fato seja superdotada.

Neste panorama, o que podemos chamar de inteligência? De acordo com psicólogo inglês Charles Spearman, essa habilidade seria compreendida das seguintes maneiras.

  1. Em função de um único fator geral, que permeia o desempenho em todos os testes de capacidade mental (conhecido como fator G).
  2. Em função de um conjunto de fatores específicos que estão em ação nas operações mentais.

Já David Wechsler, psicólogo norte-americano, define como “uma capacidade global do indivíduo para agir intencionalmente, pensar racionalmente e relacionar-se de maneira eficaz com seu ambiente”. O modelo contemporâneo de inteligência, chamado CHC, divide as habilidades relacionadas em três camadas, estando na primeira cerca de 70 habilidades específicas, na segunda 10 habilidades amplas e na terceira um possível fator geral, sendo este o mesmo proposto por Spearman.

Criança superdotada na prática

Criança superdotada e com altas habilidades de leitura
Crianças superdotadas são curiosas em aprender sobre temas diversos

Ótimo. Mas como podemos então confirmar se a inteligência de uma criança é superior? A avaliação psicológica por meio de testes de quociente intelectual (o famoso QI) possibilita a identificação do resultado de uma pessoa em relação a amostras da população (grupos da mesma faixa etária e/ou nível de escolaridade). Quanto maior é o desempenho do avaliado em comparação com a média de seu grupo, mais inteligente ele é considerado. Neste critério, os psicólogos utilizam a abordagem psicométrica para quantificar os resultados e garantir objetividade na análise de características psicológicas.

Dentro da distribuição estatística das populações, quando a pontuação do QI é maior do que 130, a pessoa avaliada pode ser considerada superdotada. Pessoas com QI entre 120 e 129 pontos são consideradas com inteligência superior. Sabemos que este é um critério arbitrário e limitado para garantir que alguém seja superdotado mas, ainda assim, é indispensável que uma avaliação psicológica de qualidade inclua testes de inteligência padronizados e atualizados.

Além do QI

O psicólogo Joseph Renzulli dedicou-se a avaliar dimensões de comportamento que conjuntamente estão presentes na criança superdotada. Em sua teoria dos três anéis, a superdotação é composta por: habilidade acima da média + motivação (alto nível de produtividade) + criatividade (originalidade de conexões e ideias). Portanto, além de resultados elevados em testes de inteligência, a criança superdotada geralmente

# É bastante motivada e curiosa em aprender sobre temas diversos sem necessidade de ser estimulada para isso.

# Mantém seu foco de atenção e interesse em longos períodos em tarefas que exigem do intelecto.

# Sentem prazer em aprender cada vez mais e têm vontade de desafiar seus conhecimentos e habilidades em diversas situações.

Quanto ao pensamento criativo, o superdotado:

# Percebe padrões de causa-efeito em diferentes assuntos.

# É capaz de aplicar com facilidade diferentes modalidades de raciocínio para a resolução de problemas, para desenvolver inovações e exercitar a flexibilidade cognitiva.

Enquanto as pessoas com inteligência normal aprendem e utilizam constantemente um ou outro modo de pensar, a criança superdotada desenvolve diversos modos de visualizar e agir em situações complexas, destacando-se das demais.

Aprendizagem e criatividade

Criança superdotada realizando cálculos matemáticos complexos
Crianças superdotadas aplicam diferentes modalidades de raciocínio para a resolução de problemas

Uma vez que sabemos que o superdotado não é representado apenas pela erudição acadêmica, Renzulli ampliou o conceito de superdotação. E destacou em duas categorias: a superdotação escolar e a superdotação criativo-produtiva.

O superdotado escolar é também chamado clássico, por ser o tipo mais facilmente identificado pelos testes de QI. Ele apresenta grande avanço na aprendizagem escolar em comparação com pessoas da mesma idade cronológica. Quando vemos reportagens com alunos prodígios com menos de 17 em universidades, estamos nos deparando com o superdotado escolar.

O superdotado do tipo criativo-produtivo tem como características principais: originalidade, imaginação, capacidade para resolver problemas de forma inovadora, sensibilidade para as situações ambientais, facilidade de auto-expressão, fluência e flexibilidade. Pode destacar-se nas áreas de comunicação, competências socioemocionais, liderança, música, atividades artísticas e físicas. Mesmo que não necessariamente pontue acima de 130 nos testes de QI (espera-se pontuação superior em testes padronizados), o superdotado criativo-produtivo é altamente motivado para a aplicação de informações e processos de pensamento de forma integrada, indutiva, e orientada para os problemas reais.

Investigação psicológica

Além dos testes de inteligência, uma investigação psicológica pode verificar diversas fontes de informação e coletar amostras de produtos e características de comportamento que confirmem a superioridade cognitiva de uma criança superdotada.

Vale ainda tocar nesse ponto: assim como dinheiro não traz felicidade, QI superior também não é necessariamente significado de prazer e realização pessoal. Diversas pessoas superdotadas podem apresentar problemas em alguma outra área da vida. Várias pesquisas, inclusive, têm indicado presença de problemas de ansiedade, desatenção/hiperatividade e de pobres habilidades interpessoais em parte deste público.

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O ser humano é extremamente complexo e muitos fatores interferem em seu bem-estar geral. E a humanidade precisa cada vez mais reconhecer e valorizar o seu capital humano, pois graças a vários superdotados nossa sociedade consegue hoje desfrutar de muitas riquezas palpáveis e não palpáveis.

Darlene Godoy de Oliveira é psicóloga, neuropsicóloga, doutora em distúrbios do desenvolvimento.

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Tatiana Pimenta

CEO e Fundadora da Vittude. É apaixonada por psicologia e comportamento humano, sendo grande estudiosa de temas como Psicologia Positiva e os impactos da felicidade na saúde física e mental. Cursou The Science of Happiness pela University of California, Berkeley. É maratonista e praticante de Mindfulness. Encontrou na corrida de rua e na meditação fontes de disciplina, foco, felicidade e produtividade. Você também pode me seguir no Instagram @tatianaacpimenta