Reflexão e autoconhecimento

Reflexão: ela ajuda você a entender suas ideias e sentimentos

  |  Tempo de leitura: 9 minutos

Reflexão é um ato de estranhamento. Por quê? Porque refletir é reexaminar um suposto conhecimento, buscando uma face oculta.

Quando refletimos sobre um acontecimento, um conceito, um sentimento, um comportamento ou decisão, colocamos as certezas num estado de suspensão.

A reflexão é, também, um ato de coragem. Porque ninguém reflete em segurança. Quando refletimos, nos predispomos ao susto da revelação inusitada.

Refletir é interrogar, a fundo, assumindo o risco da resposta que escancara uma razão oculta.

Quem reflete sobre si mesmo, investigando os porquês de pensamentos, falas, jeitos, escolhas, descontentamentos, hábitos, objetivos, continuidades… corre o perigo de despertar.

E, tal como ocorre no sonho do qual se acorda, não é possível voltar ao ponto perdido. Ao despertar para o conhecimento de si, a mudança é inevitável.

Convite à reflexão: “Conhece a ti mesmo”

A máxima grega, inscrita no oráculo de Delfos, é uma provocação definitiva. Pensar sobre esse aforismo é, em si, uma reflexão infinita.

Mas o que significa conhecer a si mesmo? Ou, dito de outra forma, o que é autoconhecimento?

Num olhar apressado, tudo parece óbvio. Ora, conhecer a si próprio é ter consciência de nome, idade e profissão. É saber onde nasceu, onde vive, com quem anda, para onde vai. É narrar preferências, signo astrológico, passagens de vida.

De fato, autoconhecimento engloba tudo isso. Mas implica num passo além: a reflexão sobre todas essas informações.

Reflexão vs. Autoconhecimento

Conhecer a si mesmo não é informação passiva e estática. Exige interrogatório, como o da criança que está no mundo, o vê, o sente, porém, isso não lhe basta. Ela quer saber os porquês.

Aos pais que (antes que a paciência acabe) tentam aplacar a tempestade de interrogações infantis, cabe o exercício de imaginação e sabedoria incomuns. Em dado momento, fatalmente, se darão por vencidos e se renderão ao “porque sim”. Afinal, curiosidade de criança é ilimitada. Já o conhecimento dos pais, não.

Crianças dizem “porque sim não é resposta”. Adultos respiram fundo, reviram os olhos e tentam distraí-la, para que esqueça daquela pergunta que os pega desprevenidos.  

Assim é a relação entre identidade e reflexão. Quando criança, éramos naturalmente afeitos à investigação insistente. Talvez, pela quantidade de “porque sim” e “porque não” que encontramos no caminho, desanimamos.

Hoje, reviramos os olhos e tentamos distrair as perguntas que fazemos a nós mesmos.

Autoconhecimento pede o retorno da inquietação. Autoconhecimento é insatisfação com os dados com os quais preenchemos formulários, duvidando que esses manifestem respostas que nos descrevam a contento.

Autoconhecimento é um novo momento de abraço às perguntas. Agora, o mundo investigado, é o de dentro.

O que acontece quando não refletimos?

Podemos evitar a reflexão? Sem dúvida! E somos muito bons em escapar desse embate, que coloca em xeque nossas convicções e acomodamentos.

Porém, ao nos privarmos de uma autoanálise genuína, não saímos ilesos. Quem não reflete sobre suas motivações, erros e acertos, entrega a autoria da própria história ao sabor do vento.

Ao nos furtarmos da reflexão sobre a vida, aceitamos uma condição apática, que incide sobre a carreira que seguimos, sobre os relacionamentos que mantemos, sobre as emoções que cultivamos.

Enfim, empobrecemos nossa experiência de ser e estar no mundo, criando raízes imaginárias, que nos obrigam a uma repetição entediante. Num sentido negativo da palavra, envelhecemos. Somos a versão desatualizada de nós mesmos.

Por que não refletimos?

Por falta de tempo, por julgar que a tarefa é tola, por não saber por onde começar, pela ideia equivocada de autopreservação.

Sim, por vezes as demandas do cotidiano são fatigantes, consomem nosso tempo e energia. Nesse contexto, parar para “pensar na vida” parece um luxo de férias distantes.

Também é possível que um convite como “conhece a ti mesmo” soe muito profundo e de suspeita efetividade sobre a realidade. Para quem se considera muito prático, essas filosofias que pregam o resgate do sentido parecem desnecessárias, já que “seguir fazendo o mesmo de sempre” é automático e factual.

A questão é que “seguir fazendo” é uma armadilha. Nos leva ao engano de que insistência é o mesmo que persistência. Assim, insistimos num modus operandi, passando anos num emprego que não gostamos, num relacionamento que não nos satisfaz, numa rotina que não nos alegra.

Deveríamos ser rápidos e notar que “seguir fazendo o mesmo” tem, por efeito, a manutenção dos resultados. E, se estamos infelizes e frustrados com o que colhemos, precisamos trocar as sementes.

Nem sempre é óbvio

Contudo, nem sempre somos tão eficientes em deduzir o óbvio. Precisamos de momentos de exceção para nos despertar do entorpecimento, dos processos mecânicos perdidos dos propósitos.

Por vezes, esses momentos de exceção são rupturas que vem de fora. Alguém decide por nós. Delegamos ao outro a incumbência de terminar um relacionamento infeliz, nos demitir, nos fazer sair do lugar.

A reflexão honesta nos liberta da condição de marionete. Com ela, voltamos a ser criadores de sentidos e recuperamos as rédeas da existência. Nos empoderamos da responsabilidade de encontrar equilíbrio entre vida pessoal e profissional, sem esperar que eventos externos nos guiem. Enfim, reconquistamos a autonomia e o protagonismo em nossa própria história.

Agora, se o seu problema é não saber por onde começar esse processo… Avance para o próximo tópico!

Passo a passo para reflexão e autoconhecimento

Não entenda esse título como promessa de uma instrução definitiva e suficiente. O “marco zero” do processo de reflexão é seu entendimento como inesgotável e propenso a estímulos inusitados, que não teríamos como delimitar.

O que desejamos provocar é um start, um método não exaustivo, apto a ser continuamente revisitado e complementado com novas estratégias.

Feitas essas ressalvas, veja nossa proposta:

1. Entenda que reflexão pede tempo

O autoconhecimento é um tipo de terapia, de conversa, de “revisão de conteúdos”. Você precisará, de forma consciente, se propor momentos para pensar, assim como o faz diante de desafios no trabalho.

Reserve um tempo sozinho, próprio para esse mergulho em autoanálise. Nem que seja durante o banho! Crie sua “hora do pensamento”, estabeleça uma rotina. Com a prática, o processo vai se tornando natural e acontece até na fila do banco.

Contudo, enquanto o hábito ainda não está “entranhado” em seu modo de ser, aposte em métodos e planejamento.

2. Torne-se num colecionador de perguntas

Não existe reflexão sem questionamento. Em cada afirmação de sua vida, existe uma interrogação pulsante. Adicione o “por quê?” a cada ação ou escolha que está acostumado a realizar.

Você pode se analisar a partir das compras do supermercado, das cenas que lhe comovem, das piadas que conta e das músicas que o relaxam. O mais insuspeito e mínimo aspecto de seu cotidiano guarda potencial de reflexão absurdo!

Para lhe ajudar na coleção de perguntas, vamos sugerir algumas:
  • Qual a melhor coisa em sua vida, atualmente?
  • O que faz de você uma pessoa única?
  • Quando você se sente em paz?
  • Que palavra (escolha apenas uma!) melhor define sua personalidade?
  • Por que você está em seu emprego atual?
  • Quem ou o que lhe faz rir?
  • Como você encerra seu dia?
  • Quando foi a última vez que fez algo diferente?
  • Como gostaria que fosse seu final de semana?
  • Por que você está vestido assim?

3. Escreva um diário

Não precisa ser um caderno físico. Nem uma narrativa estruturada e detalhista. Você pode escrever emails para si mesmo ou rabiscos em post-its.

O que vale é o registro, pois, enquanto o fazemos, transformamos as palavras num espelho que tem a missão de conferir coerência à nossa imagem.

Escrever pede encadeamento de ideias, portanto, organiza e dá clareza aos pensamentos. Quando escrevemos o que nos aconteceu — ou o que nos preocupa — percebemos sentimentos e interpretações dos quais não havíamos nos dado conta anteriormente.

Essa é a síntese da reflexão: enxergar além e notar novas vozes em nossas direções.

3. Oportunize-se experiências inéditas

Abandone pequenos confortos do hábito. Para se autoconhecer, nada melhor do que se propor circunstâncias de ruptura. Você pode descobrir novos gostos ou reafirmar suas opções. O resultado não importa. A reflexão terá sido convocada de toda forma.

Pedir um lanche diferente daquele que você está acostumado a repetir já é uma experiência original! Comece a investigar os menus da vida. Arrisque o convite ao inusitado.

4. Inspire-se em frases de reflexão

Elas estão por toda parte. Em falas de amigos, em lambe-lambes espalhados pela cidade, em diálogos de filmes, em trechos de livros.

O que outros dizem são lições de vida que podemos importar ao nosso processo de reflexão, pluralizando nossas referências, aprendendo no exemplo o que pode nos “sacudir”.

Anote aquelas que acordarem algo em seus pensamentos. Não as perca de vista! Registre em seu diário, em pedaços de papel que você acondiciona numa “caixa de ideias”. Revisite-as, de tempos em tempos.

Divague sobre os significados, aplique-os em situações triviais que enfrenta. Permita que as frases sejam gatilhos de ideias corajosas e resilientes.

Aceita algumas sugestões? Então confira nossa pequena compilação de provocações:

  • “Tudo que nos irrita nos outros pode nos levar a um entendimento de nós mesmos.” (Carl Jung)
  • “A consciência de nossas forças as aumentam.” (Marquês de Vauvenargues)
  • “Uma vez que somos destinados a viver nossas vidas na prisão de nossas mentes, nosso dever é mobiliá-las bem.” (Peter Ustinov)
  • “Pensar é ação em ensaio.” (Sigmund Freud)
  • “Quem pensa pouco, erra muito.” (Leonardo da Vinci)
  • “Nós inventamos o que amamos e o que tememos.” (John Irving)
  • “A sombra não existe, o que você chama de sombra é a luz que não se vê.” (Henri Barbusse)
  • “Nossa vida é o que nossos pensamentos fazem dela.” (Marcus Aurelius)
  • “Eu já não sou o que era: devo ser o que me tornei.” (Coco Chanel)
  • “Nós não vemos as coisas como elas são, nós as vemos como nós somos.” (Anais Nin)
  • “A resignação é um suicídio cotidiano.” (Honoré de Balzac)

Compartilhe, nos comentários, aquela frase que lhe inspira! Aliás, só pelo exercício de lembrar dela, você já estará num exercício de reflexão, bastante significativo.

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Tatiana Pimenta

CEO e Fundadora da Vittude. É apaixonada por psicologia e comportamento humano, sendo grande estudiosa de temas como Psicologia Positiva e os impactos da felicidade na saúde física e mental. Cursou The Science of Happiness pela University of California, Berkley. É maratonista e praticante de Mindfulness. Encontrou na corrida de rua e na meditação fontes de disciplina, foco, felicidade e produtividade.